Como o coronavírus levou Bolsonaro a isolamento político forçado

Sete governadores aliados afastaram-se. Pensadores conservadores também. Convidada um dia para sua vice, a subscritora do impeachment de Dilma fala agora em derrubá-lo a ele. Latifundiários e guru criticam. Ala liberal já tinha rompido. Assim como maioria dos parlamentares-celebridades, Nas ruas há panelaços

"Vocês tem que entender uma coisa: eu sou médico antes de ser governador, vocês precisam ter a responsabilidade de não fazer aglomerações!", gritou, transtornado, Ronaldo Caiado, governador do estado de Goiás, durante a manifestação de domingo passado a favor de Jair Bolsonaro e contra o Congresso Nacional, na direção dos participantes, que o vaiaram ruidosamente. Latifundiário de 70 anos, Caiado é uma figura histórica do DEM, partido conservador pelo qual concorreu às presidenciais de 1989, e aliado de primeira hora do presidente da República. A pandemia afastou-o do governo.

Não é o único governador bolsonarista a demonstrar medo de contaminação política pela proximidade ao Palácio do Planalto durante a gestão (ou falta dela) da crise do Coronavírus.

Enquanto o chefe de estado chamava a doença de "fantasia" e de "histeria da imprensa" e abraçava apoiantes em manifestação em Brasília contra todas as recomendações sanitárias, o governador Mauro Carlesse, também do DEM, tomou medidas radicais de prevenção no seu estado do Tocantins. Governador de Rondônia e membro do PSL, o partido pelo qual o presidente se elegeu, Marcos Rocha desabafou que "podem chamar de exagero mas prefiro salvar vidas a não adotar providências". Os governadores aliados do Mato Grosso, Santa Catarina ou Paraná também optaram por medidas rígidas, afastando-se do tom de desdém demonstrado por Bolsonaro.

Ainda antes do vírus, os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro já haviam rompido com o presidente - o primeiro, João Doria, confessou em entrevista à CNN Brasil que se arrepende de ter votado e feito campanha por Bolsonaro; e o segundo, Wilson Witzel, outro aliado ferrenho no período eleitoral, é agora acusado de conspirar contra a família presidencial no caso da execução de Marielle Franco.

Até deputados da chamada Bancada do Boi, ligada aos grandes latifundiários, decidiram atacar o Planalto esta semana - em causa, sobretudo, o ataque do deputado Eduardo Bolsonaro, terceiro filho do presidente, à China, o maior parceiro comercial do Brasil, numa conjuntura de crise económica. O filho 03 comparou o coronavírus à série Chernobyl, do canal HBO, e ouviu em resposta da embaixada do gigante asiático que contraiu "vírus mental".

"Atacar a China é sintoma de imbecilidade", escreveu Xico Graziano, um ex-deputado ligado ao PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, que vem manifestando apoio a Bolsonaro.

"Os polícias nos estados, as guardas municipais, o sistema prisional, todos esperavam mais, queriam atitudes e investimentos concretos. O distanciamento da bancada da agropecuária é bom sinal de alerta para o presidente. Outro grupo muito forte de apoio ao presidente, os evangélicos, já está bastante dividido. É para ligar o alerta", resumiu Major Olimpio, senador próximo do presidente, em entrevista ao Congresso em Foco na sexta-feira.

Nem só no campo da ação, o presidente sente isolamento, no entanto. O filósofo Francisco Razzo e o escritor Martim Vasques da Cunha, dois expoentes do conservadorismo brasileiro, já o colocaram em quarentena. "Eu sou parte da sociedade que estava incomodada com a hegemonia do PT. O meu voto foi útil e pragmático. Tive um sentimento inconsequente", escreveu o primeiro no jornal Gazeta do Povo. Para Razzo, Bolsonaro "vai produzir a imagem de que a esquerda tinha razão e de que conservador é tudo fascista".

Muito heterogénea, a base de apoio de Bolsonaro nas eleições incluía também grupos de liberais que se reviam sobretudo no ministro da economia Paulo Guedes. O Movimento Brasil Livre (MBL), que se auto atribui papel fundamental na queda de Dilma Rousseff, cedo se afastou do governo para evitar contágio. "Bolsonaro não consegue gerir nem a própria casa", disse o mais conhecido dos líderes do MBL, o hoje deputado Kim Kataguiri, do DEM.

Apelos ao impeachment

Responsável direta pelo impeachment de Dilma, a subscritora do texto Janaína Paschoal, criticou com violência o papel de Bolsonaro na crise pandémica. "Esse senhor tem que sair da Presidência da República, deixa o [vice-presidente Hamilton] Mourão, que entende de defesa, conduzir a nação", disse no púlpito da Assembleia Legislativa de São Paulo, onde é deputada estadual. Ela foi convidada, ainda antes de Mourão, para o cargo de vice-presidente do então candidato Bolsonaro.

O outro subscritor do impeachment de Dilma, o jurista Miguel Reale Júnior, já nomeou, em três ocasiões diferentes, crimes de responsabilidade do presidente a que chama de "BolsoNero". Ao DN, pediu inclusivamente um teste de sanidade mental ao inquilino do Planalto.

Por falar em impeachment, outro político que pareceu conviver bem com Bolsonaro até determinada altura, o presidente da Câmara dos deputados Rodrigo Maia, tem na sua secretária mais de 10 pedidos para a destituição do presidente para avaliar, quatro deles protocolados esta semana, um dos quais assinado por Alexandre Frota, ex-aliado efusivo do capitão reformado.

Em campanha o ator e deputado dizia: "O 'mito' fala a língua do povo, ele não precisa de mais de oito segundos de tempo de antena para mudar o Brasil, ele é um capitão, eu sou um soldado".

Desde a nomeação (não consumada) de Eduardo Bolsonaro para a embaixada de Washington, Frota foi para a oposição: "A nomeação de Eduardo Bolsonaro como embaixador é o exemplo do que há de mais velho na política, nunca ninguém me dececionou tanto como Bolsonaro, tenho de passar a vida a limpar as cagadas do governo".

As deserções, aliás, têm sido constantes. Com menos de um ano de poder, sublinhe-se, Bolsonaro já rompia com o partido pelo qual se elegeu, o PSL, para fundar um novo partido de extrema-direita, o Aliança Pelo Brasil. Junior Bozella, deputado pelo PSL que pediu votos em Bolsonaro, agora quer distância do presidente: "A quebra de decoro tem acontecido diariamente. O facto mais grave foi o último, quando ele cumprimentou manifestantes mesmo sendo um polo de contaminação do coronavírus", disse ao portal Terra.

Segundo Bozella, outros deputados ex-bolsonaristas pensam como ele mas temem retaliações, se o assumirem: "O bolsonarismo não gosta de ser contrariado, observado e criticado. Esses descontentes não querem ter a sua reputação assassinada pela milícia digital. Mas, com o passar do tempo, as pessoas vão passar a ter coragem de fazer um debate franco".

Falecido na semana passada, Gustavo Bebianno, fidelíssimo braço-direito de Bolsonaro em campanha, tornou-se crítico após ser demitido de ministro em fevereiro de 2019 no meio de uma rede de intrigas costurada pelo segundo filho presidencial Carlos Bolsonaro. "É o fim da picada", disse ele à BBC Brasil sobre a nomeação de Eduardo, o filho 03, para Washington. "O Bolsonaro é autoritário e os filhos do Lula não davam tantos problemas", acrescentou ao jornal Folha de S. Paulo.

Santos Cruz, general que exerceu cargo essencial no governo mas acabou demitido também após choque com Carlos, diz que "o governo é uma fábrica de besteiras".

Bolsonarista radical, Joice Hasselmann acusa hoje, com provas apresentadas numa Comissão Parlamentar de Inquérito, os filhos do presidente de controlarem uma máquina de fake news para "derreter reputações".

Arrependimento artístico

Na área artística o arrependimento mais notório é o de José Padilha, realizador dos filmes êxito de bilheteira Tropa de Elite e da série pro-Lava-Jato O Mecanismo, mas no caso dele mais em relação ao hoje ministro da justiça Sergio Moro, a quem rasgara elogios, do que a Bolsonaro. Também adepto incondicional do ex-juiz da Lava-Jato, o ator Thiago Lacerda pediu a renúncia do ministro e a liberdade imediata de Lula da Silva, na esteira das revelações da Vaza Jato, o conjunto de reportagens liderado pelo site The Intercept Brasil.

Para Lobão, o músico mais conotado com a direita desde meados dos governos do PT e apoiante declarado do ex-capitão do exército, agora "Bolsonaro é um desastre". "Afunda-se em delírio persecutório e paranoico", disse ao jornal Valor Económico.

Fagner, outro músico que o elegeu, acha o governo "amador" e, numa sondagem muito pessoal, diz que "dos que votaram no Bolsonaro, 90% estão decepcionados".

No comentário político, o historiador Marco Antonio Villa, despedido da rádio Joven Pan, muito próxima do governo, por ter criticado uma manifestação a favor de Bolsonaro e contra os outros poderes estimulada pelo próprio Bolsonaro ainda no ano passado, também mudou de opinião.

E Rachel Sheherazade, jornalista do SBT conhecida por ter opiniões radicalmente à direita em relação ao crime, cedo rompeu com o governo.

O confinamento forçado de Bolsonaro tem também repercussões diretas nas ruas, entre os anónimos: nos últimos dias, a população tem realizado "panelaços", protesto barulhento à janela de casa, contra o presidente, inclusivamente em cidades e bairros dessas cidades onde a votação no capitão do exército reformado foi claramente maioritária. Para este sábado, por ocasião do 65º aniversário do presidente, está marcado mais um.

Os "panelaços", comuns na América Latina, marcaram o declínio do governo de Dilma Rousseff, derrubada por impeachment dois anos antes de cumprir o segundo mandato presidencial. Têm sido agendados por redes sociais, o mesmo método de longo alcance que Bolsonaro usou para se eleger.

No seu confinamento político forçado, porém, o presidente ainda tem lideranças evangélicas neopentecostais, profissionais da área da segurança, os filhos políticos e o núcleo adepto das teorias do teórico da extrema-direita brasileira Olavo de Carvalho ao lado. Mas nem tanto o próprio Olavo: "Eleito para derrubar o sistema, Bolsonaro, aconselhado por generais e políticos medrosos preferiu adaptar-se a ele. Suicídio (...) Deu ouvidos a generais isentistas, dando tempo a que os inimigos se fortalecessem enquanto ele se desgastava em lacrações teatrais. Lamento. Agora talvez seja tarde para reagir", escreveu esta semana na rede social Facebook.

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