Combater o jihadismo na mais antiga mesquita de Londres

Os três recentes atentados terroristas também deixam marcas na comunidade muçulmana britânica, que viu os crimes de ódio aumentar. A Comunidade Islâmica Ahmadia tenta espalhar a mensagem de que islão não é violência mas paz.

Aproxima-se o pôr do Sol e na mesquita Fazl, em Southfields, no Sul de Londres, está tudo preparado para acolher os membros da Comunidade Islâmica Ahmadia para o iftar, a refeição que quebra o jejum no mês sagrado muçulmano do Ramadão. Nas mesas há taças com uma entrada fria com molho de iogurte que são distribuídas assim que o relógio mostra que já é hora. E tâmaras, a primeira coisa que a tradição diz que se deve comer. Mais tarde, depois da oração liderada pelo califa Mirza Masroor Ahmad, o líder desta comunidade preocupada em mostrar que o islão significa amor e não terrorismo, será servido o jantar para cerca de 200 pessoas.

No passado fim de semana, Londres voltou a ser palco de um atentado terrorista, o segundo neste ano na capital britânica. No domingo, junto ao cordão policial, ahmadis estavam entre os muçulmanos que condenavam as mortes de oito pessoas cometidas em nome de um islão que não é o deles, mas que afeta como são vistos. Uma mesquita ahmadi, na Irlanda, foi apedrejada na segunda-feira. Em Londres, quintuplicaram os ataques de ódio na última semana.

"É natural que as pessoas comecem a questionar se o islão defende mesmo a violência, quando se sabe que atos como estes são feitos em nome de Alá", conta o imã Farhad Ahmad. "Se me dissessem que há uma ideologia que ensina a matar as pessoas, eu também a odiaria", refere ao jantar, numa residência para jovens ahmadis.

Para entrar na mesquita é preciso passar por detetores de metais. "Há ameaças contra o califa", conta Farooq Aftab, advogado e vice-líder da Associação de Jovens da comunidade. "Como ahmadis estamos no meio. Recebemos ameaças dos muçulmanos e da extrema-direita. Temos de ser vigilantes", acrescenta.

A Comunidade Islâmica Ahmadia foi fundada em 1889 em Qadian, na Índia, por Mizra Ghulam Ahmad (1835-1908). Para os seguidores, ele é o messias prometido pelo profeta Maomé. Os ahmadis creem que Jesus era um profeta de Deus, sobreviveu à crucificação e fugiu para Caxemira para escapar às perseguições, tendo morrido de velhice. A profecia do seu regresso é vista como uma alegoria, sendo cumprida com a vinda de Ahmad, com o objetivo de restaurar o islão à sua essência de paz. Pelas suas crenças são considerados hereges e perseguidos por outros muçulmanos - a Constituição do Paquistão diz que não são muçulmanos e é crime dizerem que o são.

À mesa, onde há peixe frito, frango com lentilhas, borrego e arroz e ainda há de vir uma sobremesa à base de leite, além de Ahmad e Farooq está também Ibrahim Ikhlaf, responsável pelo setor de divulgação ahmadi. Quando a conversa chega ao extremismo, os três são unânimes em defender que é preciso pensar no longo prazo. "Não há uma solução de curto prazo. Temos de investir a longo prazo", explica Farhad, lembrando que foi isso que a comunidade fez.

Há 30 mil ahmadis no Reino Unido mas, alegam, milhões de seguidores do califa em todo o mundo (incluindo em Portugal). "Nenhum deles extremista", dizem, explicando que a razão do sucesso é a organização. "Desde os 7 anos, as crianças aprendem que o islão é paz, que é amor, através de um califado estruturado e justo. Então vão crescer e pegar numa pá e ajudar as vítimas das cheias, em vez de pegar em armas e matar pessoas inocentes", explica Farhad, que nasceu no Paquistão e veio aos 9 anos para o Reino Unido. Farooq lembra que é preciso também tirar os pregadores extremistas dos púlpitos, reiterando que não há uma solução rápida contra o extremismo: "Se quiserem fazer alguma coisa, então vejam de onde vêm as armas do Estado Islâmico. De onde vem o dinheiro." Mas a responsabilidade não é só deles, lembram. "Os media também têm de se focar na mensagem positiva, não apenas no negativo", conta Ibrahim, muçulmano de origem marroquina, que nasceu na Holanda e que, antes de assentar no Reino Unido, esteve na Bélgica. "O Estado Islâmico tem no máximo 60 mil seguidores. Mas cada vez que publica a sua revista, Amaq, a BBC está a dizer o que eles defendem", lembra o imã. A importância dos média não passa ao lado dos ahmadis. No interior da mesquita mais antiga de Londres, em frente ao edifício principal construído entre 1924 e 1926 e cujo interior está pristinamente pintado de branco, há uma régie onde é possível ver o que está a ser transmitido para todo o mundo nos sete canais da estação por satélite MTA, que funciona apenas à base de voluntários e de doações dos membros (não tem qualquer publicidade).

Enviada a Londres

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