Boris Johnson e o fantasma dos dezembros eleitorais passados

Seis perguntas e seis respostas para tentar perceber como a data das eleições (12 de dezembro) aliada ao extremar de posições criado pelo Brexit pode trazer surpresas na hora da contagem dos votos no Reino Unido.

Vão os britânicos estranhar muito ir a votos numa quinta-feira de dezembro? Sim, não por causa de ser uma quinta-feira, o que é regra para lá do canal da Mancha, mas sim por as eleições antecipadas calharem a apenas nove dias da chegada do inverno, quando os dias são curtíssimos em cidades inglesas como Londres ou Manchester e mais ainda nos confins da Escócia. Na realidade, não há qualquer pessoa viva que o tenha alguma vez feito, pois se a última vez que no Reino Unido se votou em dezembro foi em 1923, seria necessário que esse eleitor, ainda que na época com 21 anos (idade mínima para os homens, para elas era 30), tivesse hoje 117 anos.

Mesmo que os britânicos estranhem este voto quase invernal, há alguma hipótese de eleições, só por serem em dezembro, darem resultados surpreendentes? Sim, sobretudo se olharmos com atenção para 1923, cujas eleições resultaram no primeiro governo trabalhista e isto apesar de os conservadores liderados por Stanley Baldwin até terem tido mais deputados. O que aconteceu foi que os liberais, terceira força mais votada e ameaçados de deixar de fazer parte do dueto que por tradição governava, optaram por apoiar um primeiro-ministro trabalhista, Ramsay MacDonald, com esperança de que governasse tão mal que destruísse o partido. MacDonald só aguentou uns meses e nova votação deu a chefia do governo a Baldwin, mas os trabalhistas estavam para ficar (ganharam eleições em 1929) e os liberais são até hoje o terceiro (ou até o quarto) partido.

Além de ser em dezembro, como agora, há outras coincidências interessantes entre as eleições britânicas de 1923 e estas em 2019? Sim, a começar por Baldwin, como hoje Boris Johnson, precisar de umas eleições para legitimar a sua ascensão tanto a líder conservador como a primeiro-ministro. E tal como então se digeria ainda a independência irlandesa, uma espécie de fim de época, hoje a agenda política é muito marcada pelo processo de saída da União Europeia, ou seja, também uma certa era está a terminar.
Deveria Johnson preocupar-se com estes fantasmas de um dezembro passado? Sim, sobretudo porque o debate extremado sobre o Brexit (a Câmara dos Comuns eleita em 2017 assistiu a inúmeras traições e deserções nos campos conservador e trabalhista) deixa tudo em aberto e mesmo que as sondagens atribuam claro favoritismo a Johnson, este pode ter de enfrentar um Parlamento hostil, com a quebra anunciada dos trabalhistas a ser compensada pela provável subida dos liberais e dos nacionalistas escoceses. Sim, também porque ganhar as eleições e concretizar com sucesso a saída da União Europeia referendada em 2016 pode não representar o fim das complicações para o governo britânico: não falta quem adivinhe novidades na Irlanda (regresso do conflito ou, noutro extremo, unificação da ilha) e sobretudo na Escócia, onde os nacionalistas, entusiastas da União Europeia, podem exigir a Londres um novo referendo independentista.

Voltemos ao assunto de início. Alguém no Reino Unido está preocupado, mesmo a sério, com a data destas eleições? Sim. Houve propostas da oposição para que em vez de dia 12 se votasse a 9. Por razões várias, algumas relacionadas com prazos relativos à legislação que acompanhará o Brexit, mas em especial para evitar que as eleições apanhem os estudantes de férias com a família na terra natal em vez de estarem nas cidades universitárias onde estão recenseados e costumam votar nos partidos euroentusiastas. Até valia quebrar-se a regra da quinta.

E, já agora, repararam que os resultados serão anunciados dia 13, sexta-feira? Bem, os britânicos não devem ser nada supersticiosos, sobretudo o super ambicioso Johnson. Ele até tinha marcado o Brexit para 31 de outubro, Dia das Bruxas.

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