Aumento de infeções deixa Alemanha em alerta e sem margem para aliviar restrições

Os casos de covid-19 estão a aumentar na Alemanha desde o final de julho. A situação no país não dá espaço para o alivio das restrições, avisou Merkel. São reforçados os apelos para a responsabilidade individual no cumprimento das regras de saúde pública.

A Alemanha é um dos países europeus que estão a enfrentar um aumento de contágios de covid-19, com uma média de novos casos diários a superar as mil infeções nos últimos dias. A situação epidemiológica não dá espaço para novas medidas de desconfinamento e está a deixar as autoridades em estado de alerta. A chanceler alemã, Angela Merkel, endureceu o discurso e avisou que estão previstas multas "consideráveis" para quem não cumprir as regras.

Esta quarta-feira, por exemplo, foram reportados mais 1510 novos casos, o número diário mais elevado desde 1 de maio, dia em que foram notificados 1639 diagnósticos de infeção pelo novo coronavírus. Desde o início da pandemia, foram confirmadas 226 914 infecções e 9243 mortes, sete das quais registadas nas últimas 24 horas.

Se em julho a situação era considerada estável, no final desse mês e no início de agosto a realidade alterou-se com o surgimento de novos surtos. À luz dos dados de terça-feira (dia 18), o país registava, nos últimos sete dias, uma média diária de 1225 casos por dia, de acordo com o site de monitorização 91-DIVOC, que compila os dados da Universidade Johns Hopkins sobre a pandemia. Um valor acima das cerca de 500 infeções diárias registadas em julho.

Na semana de 10 a 16 de agosto, a percentagem de possíveis contágios fora da Alemanha chegou aos 39%. Na semana anterior, os contágios no estrangeiro tinham representado 34% do total.

Viagens em tempo de férias aumentam contágio, dizem autoridades de saúde

Os dados desta quarta-feira do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) colocam a Alemanha no quarto país europeus com mais casos confirmados desde o início da pandemia (226 914), depois de Espanha (364 196), Reino Unido (320 286) e Itália (254 636).

O país regista, contudo, uma mortalidade associada à covid-19 inferior à dos restantes países europeus mais atingidos (9243), o que é atribuído à importante rede hospitalar do país e à realização maciça de testes.

O valor estimado de casos considerados curados chegou aos 203 900, com mais 900 registados nas últimas 24 horas.

Foi a 27 de janeiro que a Alemanha confirmou o primeiro caso de covid-19, tendo sido considerado que o pico da pandemia ocorreu em abril. Após meses com uma situação considerada estável, as infeções voltaram a disparar no final do mês passado e o número de contágios não tem vindo a abrandar.

Embora haja preocupação no aumento de novos diagnósticos de covid-19, certo é que os atuais dados estão longe dos seis mil infetados por dia, registados no pico da pandemia, durante o mês de abril.

Um dos fatores que contribui para este aumento é o "número crescente de casos entre" pessoas que regressam de viagens, indica o Instituto Robert Koch, que tem contabilizado os dados da pandemia na Alemanha. Isto numa altura em que milhares de pessoas estão ou vão entrar de férias, pelo que as viagens tornam-se mais frequentes.

A situação levou as autoridades a impor quarentena de duas semanas ou a apresentação de um teste negativo às pessoas que regressam das regiões mais afetadas, uma medida para travar a propagação da doença em escolas e locais de trabalho.

As deslocações são, aliás, para a líder do governo alemão, Angela Merkel, uma das razões para a atual situação que o país atravessa. "Mais mobilidade e contacto entre as pessoas leva a um maior número de casos", afirmou.

Alunos têm de usar máscara nas aulas em Renânia do Norte-Vestefália

Uma das regiões mais afetadas é a Renânia do Norte-Vestefália, onde os estudantes têm de usar máscara de proteção individual dentro das salas de aula, uma das medidas impostas para travar o contágio neste estado. E o regresso às escolas fez-se esta quarta-feira, com temperaturas elevadas.

"Devemos ser especialmente cautelosos durante estes tempos", disse Armin Laschet​​​​​​, o primeiro-ministro desta região, a única a impor o uso de máscara nas escolas.

Apenas os alunos do primeiro ciclo não têm de cumprir esta regra. Já os professores podem tirar as máscaras, caso estejam a 1,5 metros de distância dos alunos.

De acordo com o site Deutsche Welle, a obrigatoriedade das máscaras nas escolas deverá durar, pelo menos, até o final de agosto.

No início deste mês, as autoridades alemãs encerraram duas escolas no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental após ter sido detetado um novo surto.

Para evitar riscos de contágio, o início das aulas está a ser feito por fases, de modo a que as crianças não viajem ao mesmo tempo para as escolas.

As autoridade de saúde detetaram nas últimas semanas focos com origem em reuniões familiares, atividades de lazer, mas também em locais trabalho.

Além de Renânia do Norte-Vestefália, com um total de 55.770 de casos, a Baviera, com 54.101 diagnósticos desde o início da pandemia, é um dos estados mais atingidos pela pandemia.

Perante a atual situação do país, a chanceler alemã rejeita novas medidas de desconfinamento. "Do meu ponto de vista não pode haver novo alívio neste momento", afirmou esta terça-feira.

Merkel avisa que há "multas consideráveis" para quem não cumprir as regras de saúde

Sublinhou que a Alemanha está "no meio da pandemia" e apelou à população para respeitar as regras de higiene, uso de máscara, distanciamento e quarentena no regresso de zonas consideradas de risco.

"A duplicação de [novos] casos" registada em média "em toda a Alemanha nas últimas três semanas" reflete "uma evolução que não deve continuar e, pelo contrário, deve ser travada", alertou Angela Merkel.

A chanceler alemã apontou que estão previstas "multas consideráveis" para quem infringir as regras em vigor e insistiu: "Não são uma opção, mas um dever" e "são algo que todos podemos e devemos fazer".

Embora as empresas farmacêuticas continuem a desenvolver esforços para garantir uma vacina contra a doença, a chanceler alemã alertou: "O vírus está aqui, mesmo que não seja visível. Não há vacina nem medicamento".

Já Lothar Wieler, presidente do instituto epidemiológico alemão Robert Koch atribuiu o aumento de casos à "negligência" da população face às regras sanitárias para travar o contágio. "A evolução causa-me a mim e a todos no Instituto Koch grande preocupação", afirmou no final de julho, quando se começou a verificar esta nova disseminação do vírus.

Instituto que regula as vacinas espera que a vacinação contra a covid-19 comece no início de 2021

O responsável pela instituto regulador das vacinas na Alemanha espera que no início do próximo ano haja grupos de pessoas que possam ser vacinadas no país.

Numa altura em que há cinco vacinas que estão no estado mais avançado dos testes clínicos, Klaus Cichutek, do Paul Ehrlich Institut, citado pela Reuters, afirmou que os ensaios de Fase I e Fase II mostraram que algumas desencadearam uma resposta imunológica contra o coronavírus.

"Se os dados dos testes de Fase III mostrarem que as vacinas são eficazes e seguras, as primeiras vacinas podem ser aprovadas no início do ano", considera.

"Com base em garantias de fabricantes, as primeiras doses para cidadãos alemães estarão disponíveis nessa altura, isto de acordo com as prioridades definidas pela Comissão Permanente de Vacinação", referiu Cichutek.

Com Lusa.

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