Armados de smartphones, jovens do Níger controlam risco de cheias

Num dos países mais pobres do mundo, inundações mataram, pelo menos, 56 pessoas e destruíram centenas de habitações desde o início da época das chuvas, em junho.

Fatima Alher caminha cuidadosamente na água que lhe dá pelos joelhos e que inunda os campos de arroz de Kirkisoy, uma área da capital do Níger, Niamey.

Os seus colegas erguem-na no ar por vezes, para passar as poças mais profundas - tarefa complicada pelo facto de estarem sempre de olhos postos nos seus smartphones. "Nunca sem um telemóvel, é a nossa divisa", diz Alher ao mesmo tempo que tecla, a ritmo frenético, no ecrã do telemóvel.

Num dos países mais pobres do mundo, inundações generalizadas mataram, pelo menos, 56 pessoas e destruíram centenas de habitações desde o início da época das chuvas, que começou em junho, segundo dados do Ministério do Interior.

Os trabalhos de reconstrução nas áreas afetadas pelas cheias não estão a decorrer suficientemente depressa, queixam-se os seus residentes. Mas desde julho um grupo de 20 "investigadores" da OpenStreetMap Niger - um grupo de estudantes e jovens profissionais que está a criar um mapa digital do país - estão a mapear e a registar nos seus smartphones as áreas mais propensas a inundações em dois distritos de Niamey. "As cheias devastam o país todos os anos, e contudo não foi feito nenhum esforço para demarcar as áreas mais vulneráveis", diz Alher, que estuda Geografia e dirige o grupo.

Recorrendo à GeoODK, uma aplicação que permite aos utilizadores obter informação georreferenciada, o grupo obtém detalhes como o número de residentes e edifícios, os materiais de construção utilizados e a localização de postes elétricos.

"Até final de agosto já estabelecemos uma lista de mais de 15 mil terrenos e edifícios", explica Alher com orgulho. "Enviamos depois esta informação para o Ministério do Interior, de forma a que possam ser mais bem usados os meios de ajuda na altura das cheias." A iniciativa é dirigida por uma agência governamental de gestão das situações de risco e desenvolvimento urbano, e financiada pelo Banco Mundial.

Limitar prejuízos

Parado no meio do seu campo de arroz inundado, Mohamed Moktar Innocent afirma que desistiu de plantar o que quer que fosse neste ano, e espera ainda mais cheias que acabem por destruir o que não ficou ainda submerso pelas águas.

"Tive prejuízos de 160 mil francos CFA [cerca de 245 euros] na cultura do arroz nos últimos seis meses", lamenta-se. "Nem sequer tenho condições para pagar o empréstimo que contraí para investir nos campos de arroz - mas qualquer investimento acaba por ser inútil. As cheias destroem tudo."

Elementos do OpenStreetMap mapearam os terrenos de Innocent, o que ele espera que o ajude a entender as vulnerabilidades destes e qual será a melhor altura para semear.

Uma vez recolhida e tratada a totalidade da informação, o grupo pretende explicar os riscos de viver em áreas propensas a inundações às populações que o fazem. "As informações a constarem do OpenStreetMap vão estar disponíveis publicamente, de forma a que se possam criar aplicações para partilhar esses dados com as pessoas que vivem em regiões vulneráveis", explica Alher.

Sistema de alerta

Os elementos do OpenStreetMap pensam que este é um projeto pioneiro no Níger, mas outras iniciativas estão em curso para minimizar os efeitos das cheias e os danos que estas causam. Um deles é a criação de uma rede de informações abrangendo 136 aldeias, com agentes no terreno que se deslocam regularmente entre as áreas afetadas pelas cheias ou pela seca e a capital.

Esta iniciativa, dirigida pela agência Catholic Relief Services (CRS), é parte de um programa mais vasto (BRACED, Building Resilience and Adaptation to Climate Extremes and Disasters, criar resistências e adaptabilidade aos extremos climáticos e desastres naturais), financiado pelo Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido. "Cada aldeia já criou um comité para situações de desastre", diz Ali Issaka Mamane, que dirige o CRS.

"Quando suceder uma situação de emergência, o responsável do comité preenche um questionário e envia-o num dos nossos veículos para os nossos serviços em Niamey. Assim, ficamos com a ideia precisa daquilo que é necessário em termos de apoio", diz Mamane.

O projeto também abrange informação sobre o clima e a meteorologia obtida através de pessoas no terreno e estações de rádio locais e que é partilhada com as populações. O objetivo é informá-las sobre os efeitos das cheias e convencê-los a mudarem o local das suas casas se estiverem situadas em sítios de alto risco. Mamane quer tornar ainda mais eficaz o sistema. "Ainda nos demora dois dias para enviar os questionários por carro das zonas mais remotas do Níger para a capital", diz. "Queríamos criar um serviço de alerta por mensagens de texto, mas não foi possível chegar a acordo com a operadora de telecomunicações, que pedia demasiado."

Entretanto, os elementos da OpenStreetMap estão já a mapear uma outra área de Niamey. "Somos jovens e estamos desejosos de ajudar", afirma um deles enquanto limpa a lama das botas.

"As condições de trabalho são duras, mas vale a pena. E se não formos nós a fazer isto, quem é que os vai fazer?", diz.

Jornalista da Fundação Thomson Reuters

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