Apagar as luzes do Bairro Vermelho? Prostitutas opõem-se

Banhadas numa luz vermelha néon, centenas de prostitutas exercem o seu ofício por detrás das janelas das ruas estreitas de Amesterdão - e é assim que querem que continue.

Femke Halsema, a primeira mulher a presidir à câmara de Amesterdão, prometeu na sua campanha limpar as ruas do Red Light District, o famoso Bairro Vermelho, com dois objetivos "inegociáveis": combater o problema do tráfico das mulheres e da prostituição clandestina e tornar a vida dos residentes do bairro mais agradável, reduzindo o número de turistas que circulam nas ruas apertadas do cento histórico da cidade.

Mas, banhadas numa luz vermelha néon, centenas de prostitutas exercem o seu ofício por detrás das janelas das ruas estreitas de Amesterdão - e é assim que querem que continue.

"Tenho uma coisa a dizer a todas estas pessoas que dizem que somos vulneráveis: não nos conhecem de todo", disse Felicia Anna, presidente do sindicato de prostitutas recentemente criado, o Red Light United.

"Chamarem-nos de vítimas de tráfico não é benéfico para nós. Isto cria um estigma... Parem de falar de nós dessa forma", disse a mulher de 33 anos, que recusou revelar o seu nome.

A área é uma das maiores atrações turísticas da cidade, que no ano de 2018 recebeu cerca de 18 milhões de visitantes.

Halsema denunciou "comportamentos perturbadores e uma atitude desrespeitosa para com as prostitutas". "Riem-se delas, chamam-lhes nomes, fotografam-nas contra a vontade delas".

A autarca propôs quatro opções para mudar o bairro, no que diz ser uma proposta para controlar o crime e o tráfico humano, e para tornar a vida dos residentes da área mais agradável. Contudo, salvaguarda que não quer que o debate seja visto como uma tentativa de limitar o acesso à prostituição das mulheres que escolham fazê-lo.

A primeira medidapassa por fechar, literalmente, as cortinas das janelas para que as pessoas que se encontram no exterior não possam ver as mulheres.

A segunda proposta preconiza a mudança de algumas das montras para outras áreas da cidade, enquanto a proposta mais radical é fechar e mudar de lugar todas as cabines.

Mas também há uma quarta proposta, que defende o aumento do número de montras no bairro - atualmente contam-se 330 - e abrir um "sex hotel", num piso subterrâneo, que permitirá que as prostitutas que se encontram sem licença entrem para a indústria oficialmente.

"O inquérito que fizemos a 170 prostitutas mostrou claramente que 93% delas não querem mudar-se", revelou Anna. "Dos quatro cenários, só o quarto é em nosso benefício. Não apoiamos os três primeiros", acrescentou.

Masten Stavast, dona de 27 das cabines e quartos arrendados a prostitutas disse que "dos cenários, achamos que o quarto é o melhor."

Outras pessoas envolvidas na indústria admitem que existem problemas, designadamente com o aumento do número de turistas, mas que fechar o bairro ou mudar o bairro de sítio não vai resolver o problema.

"O que pode acontecer é que, não havendo guias que expliquem às pessoas como se devem comportar ou quais são as regras do jogo, as pessoas venham até à área e fiquem deslumbradas com as mulheres por trás das montras e tirem fotografias", disse Velvet, uma prostituta do icónico bairro de Amesterdão.

Bobien van Aalst, da associação de guias Guidor, também se manifestou contra as propostas. "É como ir a Paris e ser proibido de ir ao Arco do Triunfo ou à Torre Eiffel".

Já os residentes do Red Light District mostraram apoio às propostas da autarca, alegando que o turismo em massa causou grandes inconvenientes.

De acordo com um dos residentes, "as mulheres são tratadas pior do que os animais do circo". "Vários residentes preferem que as montras sejam fechadas e mudadas de lugar."

Gisj, um residente de 47 anos, disse que foi atacado por um turista britânico perto da porta de sua casa. "O homem pôs-se à frente da minha bicicleta e bati-lhe na perna." "A última coisa que vi foi o homem a atar uma camisola à volta do pulso, como uma luva de boxe, antes de me dar um murro no maxilar. Ainda estou traumatizado."

Em setembro, a proposta da câmara, que tem vindo a ser debatida entre deputados, residentes, comerciantes da área e várias prostitutas, vai ser levada a votação. E aí se saberá se Amesterdão vai continuar a ter a sua mais famosa atração ou se as luzes vermelhas se apagam.

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