Alunos franceses fumam dentro das escolas para ficarem protegidos de terroristas

A medida, aplicada à revelia do ministério da Saúde, enquadra-se no estado de emergência declarado em França após os atentados de 13 de novembro

Após os atentados de 13 de novembro, que vitimaram 130 pessoas em Paris, a França declarou um estado de emergência que se prolonga até hoje, permitindo à polícia realizar buscas sem mandado judicial e fazer detenções fora do enquadramento legal habitual. O estado de emergência tem como objetivo aumentar a proteção dos cidadãos contra uma possível ameaça terrorista, mas abriu caminho para outras medidas, menos comuns, que estão a causar controvérsia no país. Uma delas, o incentivo a que os estudantes de secundário fumem no interior dos liceus.

Como escreve esta quinta-feira a correspondente do jornal britânico The Guardian em Paris, os portões dos liceus franceses são famosos pelos aglomerados de alunos que se reúnem nos intervalos para fumar junto à entrada da escola. Uma visão cada vez menos frequente desde a implementação do estado de emergência no país, que levou a que muitos diretores de escolas - e o próprio ministério da Educação - se preocupassem com a vulnerabilidade destes grupos de estudantes reunidos nos passeios.

"Os tempos em que vivemos fazem com que o sentimento de medo que se vive nas ruas seja enorme", explicou ao Guardian a diretora do Lycée Voltaire, Christel Boury, "E quando se põe mil alunos, ou mais, num passeio num bairro urbano, o perigo torna-se imediato".

No Lycée Voltaire, como num número crescente de escolas secundárias francesas, os alunos são agora incentivados a fumar no recreio, onde são fornecidos cinzeiros próprios. A decisão de permitir aos diretores das escolas a opção de criar zonas de fumadores nos liceus foi divulgada numa circular emitida pelo Governo francês poucos dias depois dos ataques de 13 de novembro, e vai diretamente contra uma lei aprovada em 1991 que proíbe o fumo em espaços públicos - incluindo escolas. Conforme escrevia ainda em fevereiro a revista digital Vice, uma porta-voz do ministério da Educação explicava que a medida ainda só foi aplicada nalgumas escolas, devido a "um certo nível de medo entre os pais, estudantes e professores".

O tabaco é um perigo mais iminente do que o terrorismo?

O presidente da Associação Nacional para a Prevenção do Vício e do Álcool, Alain Rigaud, tem sido um dos principais críticos da medida permitida pelo estado de emergência, acreditando que esta pode ter "consequências devastadoras" para a saúde pública.

A Vice escreve que Rigaud, numa reunião com a ministra da Educação, Najat Vallaud-Belkacem, distinguiu os dois perigos: "O tabagismo é uma praga que mata um em cada dois fumadores a longo prazo. Durante os próximos trinta anos, cerca de 125 mil alunos da atual população dos liceus franceses vão morrer por causa do tabaco. Isso é muito mais do que em ataques terroristas".

Mesmo os estudantes que falaram ao Guardian, todos eles abaixo da idade legal para fumar, que em França é de 18 anos, se mostraram um pouco céticos com a medida que os incentiva a fumar no recreio. "Os professores passaram tanto tempo a dizer-nos que fumar é mau, e agora cá estamos a fumar numa zona especial do recreio", afirmou Léa, de 17 anos.

Vincent, de 15 anos, é ainda mais cínico. "Logo após os ataques, tínhamos todos bastante medo. Agora, seguimos com as nossas vidas. Se um terrorista quisesse mesmo entrar na nossa escola e atacar-nos, arranjava uma maneira qualquer de o fazer".

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