Adolescente obrigada a pintar o cabelo processa escola

Jovem estudante vai processar escola porque a querem obrigar a pintar o cabelo de preto

Uma estudante numa escola de Osaka pretende processar a escola em cerca de 20 mil euros depois de ter sido forçada a pintar o cabelo de preto em 2015.

Agora com 18 anos, a jovem queixa-se de ter sofrido psicologicamente, para lá dos danos causados pela tinta no cabelo e no couro cabeludo, segundo o relato da publicação Quartz, citando diários japoneses.

Ouvida hoje pela primeira vez, a estudante afirma que foi proibida de frequentar a escola no ano passado porque o seu cabelo não estava suficientemente preto e foi, mais tarde, impedida de acompanhar a turma numa visita de estudo. Também terá visto o nome retirado dos registos escolares e não frequenta a escola desde 2016.

"Uma rapariga loura que viesse num intercâmbio escola também teria de pintar o cabelo de preto", respondeu a escola ao advogado da aluna.

O responsável pela pasta da educação em Osaka não quis comentar as alegações da aluna, diz a mesma publicação, citando o jornal Asahi.

Às regras ligadas aos uniformes, muitas escolas japonesas impõe outras regras relacionadas com a aparência que impedem o uso de acessórios, arranjar as sobrancelhas e, em alguns casos, até contra a coloração de cabelos - o contrário do que aconteceu à estudante que agora processa a escola.

Algumas escolas de Osaka têm introduzido sistemas de registo da cor do cabelo para que aqueles que têm o cabelo mais claro não sejam repreendidos. Em Tóquio, há estabelecimentos de ensino que exigem um certificado da cor de cabelo, ainda que voluntária.

Um inquérito publicado no jornal Asahi demonstrou que cerca de 60% das escolas japonesas quer que os alunos provem que a cor de cabelo é natural, através de fotos, por exemplo.

Vem dos anos 90 a loucura japonesa pelo chapatsu (cabelo pintado cor de chá, numa tradução livre). Visto por alguns como um ato de rebeldia, levou a que entidades públicas e privadas rejeitassem candidatos que tivessem os cabelos que não fossem pretos. Relatos idênticos surgem quando se fala em cabelos encaracolados, também proibidos em alguns estabelecimentos de ensino. No que diz respeito aos cabelos, as regras podem ditar que os cabelos não tapem os olhos ou passem os ombros.

Este movimento contra o que podem ser características não-japonesas é visto como mais do que discriminatório. "Violação dos direitos humanos", classificou o comentador de assuntos de educação japonês Naoki Ogi, referindo-se à obrigação de provar a cor do cabelo, defendendo que os adultos devem ambicionar uma relação igual e também carinhosa e de respeito.

É também, acreditam outros, uma forma datada de ler a demografia do país que tem vindo a mudar com a emigração, nomeadamente, à medida que crescem as crianças nipo-brasileiras.

Perante os resultados do estudo publicado pelo jornal Asahi em maio, um empresário japonês explicou ao Business Insider que estas regras apertadas estão ligadas a outro conceito japonês: mijime, isto é, preferência pela ordem, arrumação e perfecionismo, muitas vezes relacionado com o desejo de se manterem reservados e sensatos no que diz respeito ao comportamento. "Eles tentam seguir as regras em tudo", disse Natsuko Fujimaki.

Longe de ser uma excentricidade, as regras no que diz respeito à aparência e ao majime também podem ser lidas em relação direta com a queda da natalidade. Com cada menos alunos nas salas de aula, as escolas competem entre si pela atenção dos pais. As regras apertadas no que diz respeito aos uniformes, cabelos e acessórios são vistos como sinais de quão majime (rigorosas) estas escolas são.

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