A mãe coragem de Sarajevo

Na segunda-feira, dia 14, comemora-se o vigésimo aniversário dos Acordos de Dayton, que puseram termo ao conflito na Bósnia. Entre abril de 1992 e dezembro de 1995, Sarajevo foi uma cidade cercada pelo exército sérvio e à mercê das bombas que caíam todos os dias. Duas décadas depois do fim dos combates, o DN conta a história de um general de origem sérvia e de uma família muçulmana que mostra como a morte e a esperança se cruzam em tempos de guerra

"Vê aquela imagem?", pergunta Jovan Divjak, enquanto aponta para a fotografia a preto e branco, pendurada atrás da secretária. Nela aparece retratado a segurar ao colo uma criança de dois anos, tendo como pano de fundo uma parede esburacada por balas. "Para mim é uma imagem que representa a tragédia, mas também o futuro da Bósnia e Herzegovina". Conhecer a história daquele instante é perceber a forma como a morte e a vida convivem em tempos de guerra. A fotografia data de 1997, mas a imagem começou a nascer cinco anos antes.

A 10 de junho de 1992, um soldado perguntou ao comandante Divjak se ele já sabia das notícias. Na véspera, uma granada lançada pelo exército sérvio tinha caído na casa de uma família muçulmana que habitava ali perto, em Sedrenik, uma das colinas que se levantam em redor do centro de Sarajevo. Dois jovens, um com 17 e o outro com 12 anos, tinham morrido. Uma mãe perdera os seus dois filhos. O soldado sugeriu-lhe que fosse visitar a família. Divjak hesitou. Por um lado, queria ir abraçar a mãe e o pai atingidos pela tragédia e oferecer-lhes as condolências. Por outro, tinha medo de ser mal recebido. Sim, era certo que ele, um militar de alta patente com longa carreira no exército jugoslavo, decidira ficar na cidade e defender Sarajevo do cerco montado pelos sérvios; mas não deixava de ser verdade que as suas origens eram sérvias - partilhava a etnia com o inimigo - e por vezes continuava a ser olhado com desconfiança.

Amor à primeira vista

Jovan Divjak nasceu em 1937, em Belgrado, uma vez que em Suvajic, a pequena vila onde o pai trabalhava como educador de infância, não havia hospital. Dos tempos da Segunda Guerra guarda poucas memórias. Foram anos passados a saltitar de um lado para o outro, entre territórios sérvios, bósnios e romenos. Em 1950, em virtude do divórcio dos pais, o adolescente Jovan ficou a viver com a mãe e a irmã na província de Vojvodina, uma região pertencente à Sérvia, mas que, na época, na Jugoslávia construída pelo marechal Tito, gozava do estatuto de província autónoma.

Não lhe foi fácil o afastamento do pai. "Se alguma coisa faltou na minha vida foi o facto de não ter tido contacto com ele. Gostava que me tivesse ensinado a tocar violino e que pudéssemos ter jogado xadrez e basquete juntos", conta Divjak, que ao mesmo tempo fala da mãe com um amor quase palpável. "Tudo o que há de positivo em mim a ela se deve. Era dona de casa, mas, quando fomos para Vojvodina, começou a trabalhar. Fez tudo para permitir que eu e a minha irmã pudéssemos estudar e transmitiu-nos valores muito importantes como a honestidade".

A carreira militar não foi a primeira escolha. Preferia ter seguido pedagogia, psicologia ou literatura, mas não havia dinheiro para continuar os estudos e a Academia Militar era gratuita. Formou-se com distinção em 1959, fez parte da Guarda de Tito e, em 1966, estabeleceu-se em Sarajevo como membro da Defesa Territorial da Bósnia e Herzegovina e professor catedrático de Táticas Militares.

Em abril de 1992, quando os sonhos nacionalistas de Milosevic fizeram rebentar a guerra na Bósnia e Sarajevo se viu cercada pelo exército sérvio, Jovan Divjak não hesitou em ficar do lado de dentro e defender a cidade pela qual ele e a mulher, Vera, se tinham apaixonado à primeira vista quase 30 anos antes. Apesar da origem sérvia e de alguma desconfiança com que era olhado, Divjak, graças à alta patente e profundos conhecimentos militares, foi nomeado um dos principais responsáveis pela organização e formação de um exército bósnio, na sua maioria composto por civis, cujo único objetivo era defender uma cidade cercada a partir das colinas que a envolvem.

Corpos espalhados pelo chão

Eram 12:45 do dia 9 de junho de 1992 quando se deu a explosão. Uma granada. Apenas um instante. Quatro mortos. Além de Fehim e Mirza, os dois filhos da família muçulmana, também Amina, prima dos irmãos falecidos, e Sakib, um soldado, sucumbiram ao impacto. Halida, falando no jardim daquela que ainda hoje é a sua casa, recorda o dia fatídico. Narra como os corpos ficaram espalhados em redor, feitos em pedaços e pendurados nas ramagens das árvores e dos arbustos. Para uma mãe é impossível esquecer a manhã em que a guerra a obrigou a apanhar do chão de pedra os bocados dos filhos que tinham acabado de morrer. "Juntámos tudo, envolvemos em cobertores e levámos os corpos para a morgue do hospital".

No dia seguinte Halida recebeu a visita de Divjak, que chegou ao local da tragédia sem saber de que forma iria ser recebido. "Lembro-me de entrar naquela espécie de cave e de sentir o cheiro a fumo e a café acabado de fazer. Uma mulher veio ter comigo e apresentou-me às outras pessoas que estavam presentes como o seu comandante. Nesse tempo as pessoas viam-me como o seu comandante", recorda Divjak. Os receios do militar eram infundados. Halida, que antes da guerra trabalhava como contabilista, alistara-se no exército que defendia Sarajevo da agressão sérvia e reconhecia Jovan Divjak como um dos seus: "Ele era o meu comandante".

A visita durou cerca de uma hora. "Chorámos todos juntos, nos braços uns dos outros", conta Divjak. Nesse momento nasceu uma relação de amizade que mais de 20 anos volvidos continua inabalável. "Tornámo-nos inseparáveis. O sofrimento une mais as pessoas do que a felicidade ", explica Halida.

Quando a morte caiu do céu

Dois anos mais tarde, em 1994, Jovan aconselhou Halida e o marido a terem outro filho. Ela respondeu-lhe que não, que tinha 42 anos e que era demasiado velha para voltar a ser mãe. Mas a natureza trocou-lhe as certezas e, em fevereiro de 1995, descobriu que estava grávida de poucas semanas. Dois corações batiam dentro do útero. Esperava gémeos. Mesmo assim não abandonou a linha da frente dos combates. Entregou a gravidez nas mãos de Deus e continuou a vestir o uniforme militar e a lutar todos os dias pela defesa da sua cidade e pelos ideais multiétnicos em que acreditava.

Assim foi até ao dia 7 de julho de 1995. "Começou um ataque violento. Enquanto as bombas caíam por todos os lados eu fiquei sem munições. Quando encostei a coronha à barriga para recarregar a espingarda tive a sensação de que algo se tinha virado dentro do meu estômago. Senti uma náusea enorme e fui levada para o hospital". Um dos gémeos tinha morrido com a pressão da arma. O outro nasceu nesse mesmo dia, prematuro, ainda antes dos seis meses de gestação, com apenas 900 gramas. "Os meus pulmões não estavam completamente formados e fiquei 40 dias na incubadora", explica Muhammed, hoje com 20 anos, sentado ao lado da mãe, no jardim da casa onde os irmãos que nunca conheceu foram apanhados por uma granada caída do céu.

Jovan Divjak foi a escolha óbvia para padrinho da criança acabada de nascer. "Foi ele a primeira pessoa a pegar-me ao colo e disse-me que eu iria ser tão duro como o cimento e tão forte como o exército jugoslavo", conta Muhammed. "Trato-o por avô. Para mim, para a minha família e julgo que para todas as pessoas que lutaram pela Bósnia e Herzegovina ele é um herói".

Divjak confessa que se sente um membro da família e não esconde o amor e a admiração que nutre por Muhammed e Halida. "Ela é a Mãe Coragem. Uma patriota que se juntou à defesa de Sarajevo e que fez parte do exército da Bósnia até 2003. É uma heroína da cidade. Como mãe é carinhosa e cuidadora. Talvez excessivamente ligada ao filho, o que é compreensível tendo em conta a tragédia que viveu".

O único sobrevivente

Hoje Muhammed é um jovem com 20 anos, estudante de Direito. Nasceu no meio da guerra a 7 de julho de 1995, poucos meses antes do cessar-fogo conseguido com os Acordos de Dayton, assinados a 14 de dezembro do mesmo ano. É o único sobrevivente de quatro irmãos. Um deles morreu ao seu lado no útero da mãe. Os outros dois, três anos antes do seu nascimento. "Ser o único filho que sobreviveu faz com que seja mais responsável. Os meus pais esperam muito de mim e tenho de cuidar deles. Quero que se sintam orgulhosos quando eu acabar os estudos e começar a trabalhar. Nunca irei esquecer a memória dos meus irmãos. Estarão sempre presentes no meu espírito".

"Vê aquela imagem?", pergunta Jovan Divjak, enquanto aponta para a fotografia a preto e branco, pendurada no escritório, na sede da associação que fundou depois da guerra para dar apoio educativo às crianças vítimas do conflito. "Para mim é uma imagem que representa a tragédia, mas também o futuro da Bósnia". Na imagem, Jovan aparece a segurar ao colo o seu afilhado com apenas dois anos. O menino chama-se Muhammed e a fotografia foi tirada no exato local onde Fehim e Mirza morreram.

As entrevistas aos protagonistas foram realizadas com a ajuda da intérprete Selma Baltic

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