"A China e a América têm um interesse manifesto em não entrar em conflito"

Entrevista a John Andrews, jornalista da revista 'The Economist' e autor de 'Os Grandes Conflitos Mundiais'

Religião, nacionalismo ou interesses económicos? Qual a principal razão para os conflitos atuais?

Quase sempre não existe uma causa única para um conflito. Identidade tribal ou étnica; religião e ideologia; nacionalismo; procura de recursos (que se agudizará com as mudanças climáticas) - podem todos desempenhar um papel. Quase sempre, no entanto, os conflitos acabam por assumir uma única etiqueta: ideologia durante a Guerra Fria; identidade tribal hoje em dia no Sudão do Sul; religião no caso do Estado Islâmico (e da Irlanda do Norte). Ter uma etiqueta única torna muito mais fácil motivar os combatentes e recrutar mais.

A África do Norte e o Médio Oriente constituem a região que concentra maior número de guerras. Será uma herança de impérios perdidos e de antigos ditadores laicos?

Em grande medida. As potências coloniais traçaram as fronteiras segundo a sua conveniência, ignorando as identidades locais. Demasiados dos seus sucessores, nas suas tentativas de aplicar métodos económicos socialistas, não conseguiram levar a prosperidade a populações cada vez mais extensas e foram-se protegendo cada vez mais a si próprios com métodos de carácter ditatorial. Exemplos disto podem ver-se na Argélia, no Egito e na Síria. Pelo contrário, países governados por famílias "reais" - por exemplo, Marrocos ou as monarquias do Golfo - têm-se mantido em maior segurança, seja porque podem reivindicar uma descendência direta do profeta Maomé seja porque já existem assim desde a época pré-colonial.

Alguns dos conflitos que analisa no seu livro são verdadeiramente de pequena dimensão, como o caso do Nagorno-Karabakh, entre a Arménia e o Azerbaijão. Poderá este tipo de conflitos assumir maiores proporções e envolver as grandes potências da região?

Existe sempre o risco de os "conflitos congelados" deflagrarem subitamente. Afinal, a Índia e o Paquistão já travaram várias guerras por causa da região relativamente pequena de Caxemira - e ainda se registam aí confrontos de pequena dimensão sete décadas após a divisão da Índia britânica. Mas este é um risco conhecido - e é por isso que as potências externas e os organismos multilaterais se mostram empenhados em controlá-lo. A Rússia, a Turquia e, por extensão, a NATO não gostariam que as divergências entre a Arménia e o Azerbaijão, de cariz essencialmente étnico e religioso, os arrastassem para uma guerra por causa do minúsculo Nagorno-Karabakh.

Fala também no livro do IRA e da ETA. Pensa que o problema do terrorismo nacionalista na Europa Ocidental não terminou?

Está muito próximo de ter terminado, mas seria insensato imaginar que o terrorismo inspirado pelo nacionalismo nunca mais ameaçará a segurança pública. Uma das razões é o facto de alguns grupos (e a Irlanda do Norte é o melhor exemplo disso) ganharem atualmente dinheiro com o crime - e sentirem relutância em abandonar esse modo de vida! Outra razão é a possibilidade de a ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa conduzir facilmente à formação de grupos dissidentes que preferem a violência ao processo democrático (o mesmo perigo existe no que se refere à extrema-esquerda, nomeadamente na Grécia).

Até que ponto um país como a Coreia do Norte é perigoso? Existe verdadeiramente uma ameaça nuclear ou trata-se apenas de retórica do seu dirigente?

Simplesmente não sabemos até que ponto a Coreia do Norte é realmente perigosa - e é essa aura de imprevisibilidade que dá ao regime da RPDC a sua capacidade de desafiar os conselhos e os desejos do mundo exterior, incluindo da sua aliada China. O país já é uma potência com armas nucleares e nem as sanções nem o auxílio exterior parecem ter qualquer influência sobre o regime. A minha esperança é que Kim Jong--un seja um homem racional e não queira provocar um conflito nuclear - mas esperança não é o mesmo que certeza!

Na sua opinião, os Estados Unidos são ao mesmo tempo um Golias e um David. Porquê?

A resposta simples é que o poder militar da América é inigualável, permitindo-lhe ganhar guerras convencionais (a guerra de 2003 no Iraque foi "ganha" em três semanas; a vitória na primeira Guerra do Golfo, em 1991, precisou de menos de seis semanas). Mas este poderio não consegue fazer frente à "guerra assimétrica": as táticas guerrilheiras que derrotaram a América no Vietname e que a humilharam no Afeganistão e no Iraque. Os armamentos de alta tecnologia funcionam contra as forças convencionais, mas não contra um bombista suicida.

Imagina possível uma guerra entre a América e a China, a superpotência em ascensão?

Consigo imaginá-la, se o nacionalismo chinês se descontrolar, se os aliados da América no Pacífico forem atacados e pedirem a intervenção dos Estados Unidos; e se a política externa norte-americana se tornar subitamente imprudente (o que não acontecerá se Hillary Clinton for eleita presidente). Mas penso que é uma possibilidade fundamentalmente improvável: tanto a China como a América têm um interesse manifesto - devido às suas ligações económicas e financeiras - em não entrarem em conflito. A China, claro, afirma sempre que nunca foi uma potência expansionista, embora essa não seja a perspetiva do Tibete!

A época da Guerra Fria foi mais pacífica?

Sim, em contraste com a primeira metade do século XX. A teoria da "destruição mutuamente garantida" impediu as duas superpotências de entrarem em confronto direto. Mas travaram muitas "guerras por procuração", nomeadamente na Ásia, na África e no Médio Oriente, apoiando os Estados seus satélites. A diferença hoje é que as guerras raramente são entre Estados - em vez disso, existem Estados em guerra com intervenientes não estatais, como o Boko Haram ou o ISIS.

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