"Macron é da geração 'startups'. Contribui para dinamizar a imagem de França"

No lançamento da French Tech Lisbon, iniciativa acolhida na embaixada francesa onde se realiza uma mesa-redonda com empreendedores e investidores, o embaixador Jean-Michel Casa falou ao DN sobre o projeto e sobre a forma como França vem, nos últimos anos, a conciliar tradição e inovação.

Quando pensamos em França ainda pensamos muito em bons vinhos, queijo, moda. O país quer mudar de imagem virando-se para as novas tecnologias?

França não quer mudar de imagem. Já mudou. Não de imagem mas de realidade. E as duas não são contraditórias. Podemos ser um país de tradições, com bons queijos, bons vinhos e bons costureiros e estar na vanguarda do progresso tecnológico. Há quatro ou cinco anos que estamos numa lógica de promoção desse setor sob a etiqueta French Tech.

Explique-me essa iniciativa.

França é o segundo país na Europa em termos de novas tecnologias, atrás do Reino Unido. Isto graças a uma política que podemos agrupar sob o nome de French Tech e que tem uma dupla lógica. Por um lado visa promover as empresas de alta tecnologia em França. Através de um sistema de incitação a virem instalar-se no país, concursos para startups inovadoras, vistos de quatro anos para quem criar uma empresa inovadora, benefícios fiscais, etc. Um conjunto de instrumentos que fazem da França um ecossistema acolhedor para as empresas de novas tecnologias. A French Tech é também a ideia de que receber empresas de novas tecnologias em França não impede que as haja empresas noutras cidades, francesas ou estrangeiras. Assim há 22 grandes cidades no mundo com a etiqueta French Tech. Lisboa é uma delas. Estamos no início do processo. É a primeira reunião das empresas francesas - e algumas portuguesas - e pediram à embaixada para as acolher. A embaixada transforma-se em incubadora de startups por uma noite.

Estamos a falar de que empresas?

Em França, empresas como a BlaBlaCar, de carsharing, a OVH, que faz armazenamento de dados na Cloud, a Sigfox. Aqui temos empresas do setor da comunicação, como a Cronopost, a Mediapost. Em França, temos a maior incubadora de startups do mundo, em Paris, a Station F.

França já está virada para as novas tecnologias, mas é uma prioridade no mandato do novo presidente?

Mais do que nunca. Se há um homem que se interessa pelas novas tecnologias, é Emmanuel Macron. E provou-o na cimeira europeia digital em Tallin, na Estónia, onde foi ele quem mais propostas fez. No final, explicou as suas propostas para uma política, a nível europeu, que favoreça a modernização, o investimento. Foi o que fizemos em França e queremos fazê-lo a nível europeu. Ter um mercado único do numérico, mais integrado. Criar uma agência europeia que favoreça o financiamento das inovações de rutura. Mas ao mesmo tempo é preciso favorecer a transparência. Para as empresas terem a possibilidade de denunciar situações de concorrência desleal. Não pode haver gigantes a esmagar startups. Outra proposta que defendemos com os alemães, os italianos, os espanhóis e os que se quiserem juntar a nós é para que haja uma taxação mínima dos lucros dos gigantes das novas tecnologias. Macron não diz isto numa lógica punitiva, mas como forma de financiar a inovação.

Vai ser preciso convencer os irlandeses...

Vamos conseguir. Outro argumento em que Macron insiste é na cibersegurança e no reforço da política europeia para proteger os sistemas de ataques de inimigos, públicos ou privados.

Ter um presidente jovem ajuda?

Claro. Macron é alguém que nasceu no mundo das novas tecnologias e para quem não são as tecnologias de amanhã, são de hoje. Claro que amanhã estarão mais desenvolvidas, ainda mais rápidas, haverá inteligência artificial, inovações na área da saúde. A posição dele não é de receio em relação a estas tecnologias, é de antecipação. Macron é da geração startup. O que não significa que outros países não estejam também muito adiantados. Mas o lado jovem e dinâmico de Macron contribui para dinamizar a imagem de França pelo mundo.

Imagina uma França capaz de desafiar Silicon Valley no futuro?

Não estamos numa lógica de concorrência, de desafio. Estamos a fazer o melhor que podemos com o que temos. Em França, com a iniciativa French Tech. Ao mesmo tempo queremos uma iniciativa dinâmica a nível europeu. Se queremos comparar-nos com os gigantes americanos e asiáticos, temos de jogar com o efeito de potência da Europa.

Mais do que um projeto francês, é um projeto europeu?

É um projeto europeu para França e um projeto francês para a Europa. Por exemplo, houve uma reunião dos embaixadores franceses sobre diplomacia na era digital em Paris que teve lugar na Station F. Estiveram lá muitos jovens ligados às novas tecnologias a explicar os seus projetos, como os financiam, os espaços de coworking. Um mundo que está sempre a mexer. Foi mesmo a encarnação dessa nação startup de que Macron fala.

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