Moderadores da nação. "Programas de risco" mostram sociedade crispada

Manuel Acácio, Marta Atalaya e António Jorge abrem as suas emissões às opiniões do público sobre temas da atualidade. Jornalistas na rádio e na TV falam em "programas de risco" com auditório "zangado" e exigente, em tempos de fake news.

Menos bola, mais política e educação, mais formação, mais mulheres, mais desempregados, mais novos, gente mais e mais crispada e cada vez mais testemunhos pessoais trágicos. Este é um retrato particular da sociedade portuguesa que chega, de segunda a sexta, aos fóruns de debate de ideias na rádio e na televisão e que contam com opiniões do público em direto.

Em mais de 20 anos de trabalho diário aos comandos do Fórum TSF, Manuel Acácio, 56 anos, já abriu o microfone para, seguramente e contas feitas pelo DN, mais de 80 mil portugueses anónimos que quiseram dar a sua opinião. Hoje, o jornalista e moderador de um dos mais emblemáticos programas de informação radiofónica nota "mais participações femininas". "Nestes últimos tempos, temos tido mais mulheres a intervir em todos os temas - em particular educação, saúde, trabalho -, mas a diferença face aos homens continua a ser abismal."

Mas há mais diferenças: "Sinto que temos mais ouvintes novos, a dizerem que há muitos anos que ouvem, mas que só agora decidiram participar", revela Manuel Acácio. Por seu turno, Marta Atalaya, diante dos destinos do programa Opinião Pública há 15 anos, na SIC Notícias, também fala do sangue novo. "Temos recebido em antena muita gente que está em casa, não tantos reformados, mas gente no ativo, desempregada, e muita gente nova. Curiosamente, muitos estudantes universitários", conta a jornalista, de 47 anos. Ainda que seja um grupo longe de configurar a maioria sonora do auditório, Marta nota que chegam agora à antena opiniões que partem "de uma diversidade de profissões muito mais ampla do que antes".

Mais do que o público, os mais de 12 anos de trabalho à frente de Antena Aberta, da Antena 1, levam António Jorge a notar mudanças na sociedade portuguesa ao nível dos interesses. "Antigamente, uma emissão a falar de futebol significava ter muitos ouvintes inscritos para falar, o telefone não parava. Hoje já não é assim, há interesse por outros temas de atualidade nacional", conta. Manuel Acácio evidencia isso em relação aos assuntos da educação, muito mais procurados, hoje em dia. Sem falar, claro, da saúde. "Todos os temas acabam por ser covid-19 e as suas implicações", acrescenta Marta Atalaya.

Para o jornalista e moderador da rádio pública, a grande mudança chegou em larga medida com a troika, no período da crise. "Nunca vi a sociedade portuguesa tão crispada como nessa altura", analisa. Marta discorda: "Com a pandemia, noto que as pessoas estão mais zangadas, mais até do que no tempo da troika, estão cansadas deste clima de incerteza".

Pessoas não têm medo de falar

Hoje, dizem os moderadores, os ouvintes chegam à antena com opiniões mais estruturadas e conscientes dos direitos e da realidade que os rodeia. "As pessoas dizem o que pensam de forma mais direta e são muito intransigentes à pequena política, fico com a sensação de que as pessoas não reclamam tão rapidamente a demissão de um ministro como antigamente", analisa António Jorge. Já Marta Atalaya repara "num público muito mais informado, exigente com o poder". "Hoje falamos sobre a responsabilidade política na gestão da pandemia, são pessoas que não têm medo de falar, a sociedade está mais crispada e isso nota-se na forma como o público tem exposto as suas ideias." Manuel Acácio indaga: "Não sei se por estes tempos de covid-19 mexerem com os valores fundamentais como a vida, a morte, a solidariedade, levam as pessoas a participar e a falar mais." "Creio que todos revelam mais consciência da cidadania", analisa o jornalista do Fórum TSF.

Mais discernimento, mas também muito mais desabafos chegam às antenas. "Às vezes choro no Fórum", reconhece Manuel Acácio. "Há testemunhos, sobretudo nestas questões de saúde, que ficamos sem saber o que dizer às pessoas. É importante ouvi-las, deixá-las falar", vinca o moderador da TSF.

Marta Atalaya, que fala em "programa de risco" pelas suas especificidades, também sente o mesmo. "Há temas que são muito difíceis como, por exemplo, a violência doméstica. Há muitas vítimas que nos ligam pela primeira vez e que expõem logo o seu caso, e acho que a nossa função também é escutá-las", diz a jornalista da SIC Notícias. A este juntam-se os relatos do desemprego e das desigualdade sociais, sendo preferível "pôr menos chamadas no ar, mas ouvir essas situações absolutamente dramáticas". Recordo-me de uma mulher que ligou, tinha dois filhos adultos desempregados e, no final da emissão, o convidado que estava connosco em estúdio pediu o contacto da senhora. Mais tarde, vim a saber que uma empresa tinha arranjado emprego a um dos filhos. Claro que é impossível acorrer a todos os casos, mas estes programas valem a pena quando conseguem também ajudar alguém", sublinha a moderadora do canal de notícias.

Limites: a fina linha entre a crítica e o insulto

Diariamente, os moderadores da rádio e da TV abrem os microfones aos ouvintes, arriscando-se a opiniões de todos os quadrantes e de diversas pertinências. Todos procuram, a cada emissão, manter o equilíbrio e a verdade dos factos, mas nem sempre veem reconhecido esse trabalho e esforço de imparcialidade.

"Ao estar a fazer aquele programa, estou a convidar as pessoas a entrar na minha sala de estar", diz António Jorge. Por isso, espera "educação, cortesia e elegância". A qualquer pisar de risco do bom senso, chega o convite "para abandonar o espaço". "Já me insultaram em direto, já me chamaram fascista, que não sou mesmo, acusam-me, de vez em quando, de querer orientar o pensamento do ouvinte, o que não é verdade, apenas o quero clarificar. É-se preso por ter cão e por não ter. Há situações em que é difícil manter o sangue-frio e a diplomacia em estado puro", confidencia o moderador da Antena 1. Nota que o público se alonga mais sempre que "as leituras políticas são mais à esquerda ou mais à direita, as pessoas ficam sempre mais entusiasmadas".

E, quando assim é, é comum as críticas serem dirigidas ao mensageiro: o jornalista. Manuel Acácio sentiu isso mesmo aquando de um debate em que o tema era a proposta legislativa do Chega para, no âmbito da pandemia, isolar a comunidade cigana. "Sabia que o tema era arriscado, mas cumpro sempre um lema do Fórum: sem temas tabu nem ideias feitas. Ok, levo porrada, é a vida, custa-me, mas tratava-se de uma proposta feita por um deputado, na casa da democracia. Naquele programa, muitos decidiram atacar o mensageiro em vez de atacar a proposta", lembra o jornalista. "Deixou feridas, mas achei que devia debater o tema. Magoou-me ver alguns responsáveis políticos, cujos partidos chegaram a participar no debate, a criticarem o Fórum por ter questionado o tema, mas foi depois dessa emissão que Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, disse que a proposta era inaceitável. Riscos destes? Sempre", reage o jornalista da TSF.

"Somos acusados um pouco de tudo", confirma Marta. "Não permito o insulto a quem não está para se defender nem aos meus convidados, agora as críticas e as divergências são normais, faz parte da diversidade e da liberdade de expressão", diz a moderadora de Opinião Pública, que chegou, ela própria, a sofrer um episódio de assédio sexual, em direto, feito por um espectador que tinha ligado de um número com cartão pré-pago, indetetável.

"Quando já ultrapassamos o debate de ideias para a mera ofensa é preciso interromper", diz Manuel Acácio. Mais, prossegue, "o público sabe que, se passa a fronteira, coloco o dedo no microfone. Se forem excessivos, se insultarem, já sabem que os corto e a regra que tenho é a de agir com firmeza, frontalidade, imparcialidade e coerência. Não posso cortar um ouvinte porque foi crítico do partido A ou B, mas não posso permitir o insulto".

Novos desafios: redes sociais e fake news

Os novos tempos não estão a facilitar a tarefa, afinal, não se pode transigir na eventualidade de deixar uma mentira ecoar no éter. "Não é por acaso que este tipo de formatos sempre foi feito por jornalistas seniores", atira Manuel Acácio. "Conciliamos membros de diversos poderes, especialistas de diversas áreas, para nos trazerem valor acrescentado, para dar notícia. Para com os ouvintes tenho de tentar fazer avaliação jornalística, se há novidade para o debate ou, na pior das hipóteses, perceber se há uma teoria da conspiração. É preciso equilibrar esses dois pontos", refere o moderador do Fórum TSF. "Tenho de ter atenção redobrada a dados falsos ou eventual passagem de mentiras sem limitar a liberdade de opinião dos ouvintes, cabe-me travar tentativas de desinformação. Essa é a grande dificuldade que tenho tido: o equilíbrio entre a liberdade de opinião e argumentação para com os ouvintes, sem deixar passar um erro grosseiro", invoca.

Na Antena 1, e sempre que o tema versa a covid-19, a presença de um especialista em estúdio tornou-se incontornável precisamente pela mesma razão. "É importante ter uma voz credível, conhecedora, que ajude a combater as fake news e para que a transmissão de conhecimento seja correta e imediata", diz António Jorge.

"Apesar de haver alguma triagem (na rádio não é tanto assim) em que a produção fala dois ou três minutos com o espectador antes para perceber os sentido da intervenção, procura-se pôr no ar todas as opiniões, umas mais pertinentes e construtivas do que outras, para que o público fique mais informado", refere Marta Atalaya.

Longe de ser caso para terapia por serem alvo de julgamentos oriundos de todos os lados, os três jornalistas moderadores de espaços abertos à opinião pública falam de um jogo difícil, feito sem rede e em direto, mas que todos os dias recebe interessados: personalidades públicas, dezenas de chamadas - a maioria não chega a ir para o ar - de quem quer participar em direto e muitos ouvintes.

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