Ascensor do Lavra. Um percurso de dois minutos com 137 anos de história em Lisboa

Nesta nova rubrica, o DN vai à procura dos Mais de Lisboa. Os locais mais visitados, os pontos mais altos, as estradas mais longas, as imagens mais marcantes que contam a história da cidade. Começamos com uma viagem no mais antigo ascensor de Lisboa e o que tem o percurso mais íngreme e curto. Mas é também o menos conhecido e menos utilizado dos três que existem na cidade.

Bastam dois minutos para fazer um percurso que, a pé, demoraria um pouco mais, mas, sobretudo, custaria bastante mais. A bordo do ascensor do Lavra, que sobe e desce a calçada com o mesmo nome entre o Largo da Anunciada e a rua Câmara Pestana, perto do Jardim do Torel, percorrem-se 188 metros íngremes e muita história. Este é o ascensor mais antigo de Lisboa, faz hoje 137 anos que ali começou a funcionar, mas também o menos movimentado e o menos conhecido. Pedro Martins Carvalho, 45 anos, já perdeu a conta às vezes que fez aquele caminho, não fosse ele um dos guarda-freios que manobram aquela máquina.

"Há muita gente, até da própria cidade, que não conhece este ascensor. Às vezes vêm perguntar, mesmo alfacinhas, para onde é que ele vai", conta, admitindo que a localização do ascensor, num acesso secundário, contribuiu para este desconhecimento. Era o caso de Andreia Silva, 38 anos, que subia diariamente a pé para ir trabalhar na Junta de Freguesia de Santo António, porque não sabia que o ascensor a deixava tão perto do emprego. Muito menos que era o mais antigo da capital, apesar da inscrição nas duas plataformas ter essa informação e a de que se trata de monumento nacional. Agora, sente-se "um bocado turista" ao usar este meio de transporte.

Os ascensores da Glória, praticamente em frente, mas do outro lado da Avenida da Liberdade, e da Bica, além de um percurso mais longo, têm muito mais fama. "É pena mas muitos roteiros não têm referência ao ascensor do Lavra", comenta o guarda-freio. Além disso, neste caso, quem sobe desemboca numa zona menos pitoresca que o Bairro Alto. Na colina de Santana, existe o miradouro do Torel, o jardim do Campo Mártires da Pátria, a Nova Medical School e pouco mais. É sobretudo uma zona de trabalho. Daí que a maioria dos utilizadores frequentes do ascensor sejam pessoas que ali estudam ou trabalham.

É o caso de Inês Santos, 23 anos, que desde setembro usa diariamente o ascensor para chegar ao topo da colina para trabalhar no Centro de Estudo de Doenças Crónicas da faculdade de medicina. "É um bocadinho mais imersivo na própria cidade. Acaba por ser diferente, mesmo em termos da estética do meio de transporte. É confortável, é rápido", diz, grata por não ter de fazer a pé aquele percurso, com uma inclinação de 22,9%, como aconteceu durante umas semanas até meados de março, quando o ascensor esteve em manutenção. "Não foi muito agradável. Não foi, de todo", ri-se. "Nós vamos a subir e o vento a empurrar para trás", intromete-se uma outra passageira.

O ascensor, que transportava uma média de 200 mil passageiros por ano antes da pandemia, leva agora, com teletrabalho obrigatório e sem turismo, meia dúzia de pessoas por viagem, no máximo. "Às vezes era até difícil encontrar lugar. Agora vou sempre sentado", compara Pedro Castanheira, 32 anos, que sobe a calçada do Lavra no ascensor há já quatro anos.

Manuel Pedro Marmelo, lisboeta que mora a meio da Rua da Bica de Duarte Belo, por onde sobe e desce o ascensor da Bica, está a estrear-se no do Lavra, para acompanhar uns amigos estrangeiros que o vieram visitar. "Vão fazer o teste PCR, que é ali em cima, na universidade Nova, porque vão voltar para a Suíça amanhã", conta, rindo-se da razão que os leva a experimentar um transporte tão histórico como este. Os dois turistas, que nem chegaram a usar o da Bica, estão expectantes enquanto aguardam o início da viagem, que, a esta hora, acontece apenas de 15 em 15 minutos. "Acho muito bacana que conservem este tipo de tradição, de transportes, que dão muito charme à cidade", comenta Maurício Vidal, brasileiro a viver na Suíça.

Movia-se a contrapeso de água

Foi em 1882 que se deram os primeiros passos para modernizar os transportes em Lisboa, que ainda utilizavam a tração animal, e que tinham nas colinas da cidade verdadeiros obstáculos. A Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa comprometeu-se então em construir e explorar ascensores movidos por tração mecânica. Dois anos depois, a empreitada estava concluída. O movimento dos dois carros, que subiam e desciam alternadamente, era determinado pelo peso da água que era adicionada ao carro descendente na estação superior e que era despejada na parte inferior, no Largo da Anunciada. Reza a história que, após vistoria camarária do engenheiro Rossano Garcia, o ascensor do Lavra começou a funcionar a 19 de abril de 1884. Só no ano seguinte, o da Glória ficou concluído, enquanto o da Bica só entrou em funcionamento em 1892.

Ainda antes da viragem do século, em 1898, o ascensor já funcionava a vapor e por volta de 1915 rendeu-se à eletricidade.

Diz quem o manobra que a tarefa não é complicada. Mas há que ter atenção ao que se passa na rua. "As pessoas hoje em dia estão no telemóvel e não veem o que se passa em redor. Então nós temos de alertar com a campainha e, às vezes, temos mesmo de fazer paragens", queixa-se Pedro Martins Carvalho, que depois da formação em 1999, está há dez anos aos comandos de ascensores e elétricos da Carris. "E às vezes há turistas que abusam um bocadinho, que se metem onde não devem", acrescenta, lembrando o episódio de um italiano que subiu ao tejadilho do ascensor enquanto a namorada, em terra, se preparava para o fotografar.

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