Árvores do Jardim da Parada serão preservadas, garante Metro de Lisboa

Grupo de moradores contesta localização da nova estação de metro e acusa entidades públicas de "falta de transparência". Autarca local recusa acusações e mostra-se disponível para "analisar" alternativas, desde que sejam exequíveis.

Francisco de Almeida Fernandes
Movimento "Salvar o Jardim da Parada" contesta a decisão do metro de retirar seis lódão para dar acesso às máquinas das obras do metro.© DR

A extensão da linha vermelha do Metro de Lisboa de São Sebastião até Alcântara prevê a construção de uma estação em Campo de Ourique, mas a localização escolhida tem sido motivo de discórdia entre entidades públicas e um grupo de moradores. O movimento "Salvar o Jardim da Parada" acusa a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, o Metro de Lisboa e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) de "falta de transparência" no processo de decisão. "Tendo em conta as características deste jardim, o único do bairro, não faz sentido nenhum fazer este tipo de obras ali", considera Susana Morais em declarações ao DN.

Em causa, diz a representante do grupo de moradores que lançou uma petição para levar o tema à Assembleia da República, está a limitação à utilização plena do Jardim Teófilo Braga, conhecido como Jardim da Parada, e o abate de árvores centenárias. "A maioria das árvores não vai sobreviver e o jardim não é só as três árvores classificadas, é uma parte social importante para o bairro", afirma. Garante, porém, que o movimento não é contra a chegada do metropolitano ao bairro, que considera "uma mais-valia", mas pede que seja encontrada uma alternativa viável.

3 anos. Período previsto para a realização da empreitada, com fim em 2026.

De acordo com o projeto apresentado pelo Metro, e partilhado com os habitantes de Campo de Ourique numa sessão de esclarecimento pública a 8 de junho, serão retirados seis lódãos para dar acesso às máquinas e para a criação de um poço de ataque, a partir do qual será escavada a estação. "Esta é uma situação otimizada face àquela que tínhamos previsto inicialmente, no sentido de reduzir os impactos do jardim", informou, em junho, a equipa do Metro de Lisboa. A empresa assegura que, destas seis árvores, serão replantadas quatro no final da empreitada e que, além dessas, serão protegidas outras quatro - três de Interesse Público e uma sequoia. Ao DN, o Metro reforça que "não está previsto o abate de espécies protegidas ou centenárias" e que irá preservar o jardim "como ponto de encontro e de lazer da freguesia". As intervenções, sublinha, orientam-se "pela salvaguarda e preservação das espécies arbóreas" do Jardim da Parada.

Junta disponível para conversar

O atual projeto de intervenção inclui alterações face à primeira versão, que previa dois poços de ataque para a escavação da estação e a instalação de um estaleiro de obras de maior dimensão. O plano atualizado prevê apenas um, mas implica, ainda assim, a ocupação de metade da faixa de rodagem da Rua 4 de Infantaria, onde ficará o estaleiro, e a retirada do parque infantil e das instalações sanitárias públicas do jardim. "Terminada a obra é reposto o parque infantil, quatro das árvores exatamente no mesmo sítio e as outras duas dentro do Jardim da Parada, mas num local diferente", explica o presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, Pedro Costa. O autarca adianta que "a única coisa que desaparece definitivamente são os sanitários que serão substituídos por um elevador [de acesso à estação]". A estrutura infantil deverá ser transferida para o adro da Igreja do Santo Condestável.

Pedro Costa assegura que a junta tem estado, desde o início, "disponível para esclarecimentos" e contesta a acusação do movimento de moradores sobre a falta de abertura para debater o tema, dizendo mesmo que o executivo emprestou "salas para que se façam reuniões [do movimento]".

Susana Morais aponta que a construção da estação junto à igreja, sugerida pela Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas (APAP), seria uma alternativa que o movimento considera viável e com menor impacto para a vida dos moradores, mas não afasta outras hipóteses. "Já pedimos os estudos para perceber porque é que foi escolhido o jardim e não outro local, mas continuamos a aguardar", diz. Pedro Costa afirma que a Junta de Freguesia está disponível para "analisar alguma solução alternativa", desde que seja viável e suportada tecnicamente. "Mas se a solução alternativa for imaginária ou com o objetivo de adiar infinitamente o problema, isso não", acrescenta.

8959. Novos passageiros que o Metro de Lisboa prevê servir através da estação de Campo de Ourique no primeiro ano em funcionamento.

"Após o estudo exaustivo de outras alternativas, optou-se pelo Jardim da Parada por três razões fundamentais: segurança, minimização de impactos durante a obra e estudos de procura de clientes", responde o Metro de Lisboa. A dificuldade em encontrar outra localização prende-se, sobretudo, com "a malha urbana bastante apertada" do bairro, que inviabiliza a escolha de outro local. Além disso, tanto o metropolitano como a junta lembram que a Agência Portuguesa do Ambiente já deu luz verde ao projeto, sujeito a condicionantes "que o Metro de Lisboa cumprirá".

A Declaração de Impacto Ambiental foi publicada no final de agosto e está disponível no site da Junta de Freguesia, que tem disponibilizado aos moradores a informação cedida pelo metro. As obras deverão arrancar no início de 2023 e estar concluídas até 2026, ano em que termina o prazo para aplicação dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência, que vai financiar a extensão da linha vermelha em 304 milhões de euros. A CML não respondeu ao pedido de esclarecimentos do DN.

dnot@dn.pt