Amarante. Obra na Igreja de S. Gonçalo é a maior de sempre desde o século XVI

As obras na igreja e claustro de São Gonçalo, em Amarante, distrito do Porto, que decorrem há alguns meses, constituem a maior intervenção no monumento desde o século XVI, para recuperando "todo o seu esplendor", segundo os promotores.

Desde a construção, no século XVI, "nunca foi realizada uma intervenção global, havendo apenas registo de acrescentos e pequenas obras de reparação", disse à Lusa Teresa Carrilho Ferreira, arquiteta da empresa especializada que está à frente da empreitada.

Trata-se, indicou, de "uma intervenção muito completa", envolvendo um investimento de cerca de 2,2 milhões de euros.

Do lado de fora, as fachadas voltadas para o rio Tâmega encontram-se ocultadas pela azáfama de trabalhadores que nos andaimes, a grande altura, restituem ao granito e outros materiais o brilho de outrora, perante o ar não indiferente de quem passa no largo de acesso à Ponte de S. Gonçalo.

No interior do templo, perante a parafernália das ferramentas, os trabalhos desdobram-se no emaranhado de andaimes.

O investimento em curso, contaram à Lusa a técnica e o pároco José Manuel Ferreira, prevê a reabilitação do edifício (coberturas, pisos, paredes e vãos) e do recheio artístico (retábulos, esculturas, pinturas murais, painéis e azulejares).

"Relativamente ao recheio artístico, a intervenção é completíssima, porque envolve todo o tipo de áreas, desde pinturas de mural, talhas, cantaria, cerâmicos e metais", explicou a arquiteta.

Enquanto chamava para se observar e registar pormenores, como uma jovem que pincelava sobre cores esbatidas por séculos de história, anotou, nesse momento, ser "muito rica a pintura mural, nomeadamente da capela-mor".

"Era uma área que estava muito queimada das velas e quase não se via o desenho, porque é pintura sobre pedra", acrescentou, enquanto na visita se subia e descia as estruturas metálicas colocadas em vários níveis do monumento, percebendo-se a complexidade da obra e o desgaste de várias peças, mais evidente nas madeiras ressequidas.

A empresa conta com cerca de 40 trabalhadores na obra interior e exterior do edificado.

"É riquíssimo [o património] e nas cantarias também temos peças muitos boas", referiu a técnica, insistindo no rigor artístico: "Havia muito património apagado, por causa da sujidade, a pintura mural começou a ganhar cor e o ouro começou a ganhar brilho".

No exterior do edificado, a fachada principal foi recentemente intervencionada, mas vai ter uma revisão. No restante, estão a ser recuperadas as cantarias, rebocos, coberturas, a torre sineira, caixilharias, principal da igreja e os claustros, conferindo ao templo católico uma imagem renovada que poderá surpreender os visitantes.

Também a cúpula, revestida a azulejos do século XVII, está a ganhar uma cor "muito interessante", disse, destacando os trabalhadores que executavam tarefas nos andaimes montados em torno da cúpula, a dezenas de metros de altura, de onde se goza uma vista única da cidade e do rio Tâmega e das serranias do Marão e da Aboboreira.

A intervenção deverá ficar concluída no final do ano. Teresa Carrilho Ferreira admitiu ser "uma das mais interessantes [obras] que a empresa já desenvolveu", destacando outras na região do Tâmega e Sousa, como no Mosteiro de Paço de Sousa, em Penafiel, no Mosteiro de Pombeiro, em Felgueiras, e na Ponte do Arco, em Marco de Canaveses, monumentos nacionais incluídos na Rota do Românico.

"Um grande desígnio"

Quem acompanha a obra com denodo é José Manuel Ferreira, pároco de São Gonçalo, que sublinhou tratar-se de "um grande projeto, um grande desígnio que quis abraçar".

"Este não é o estilo de obras que se pede a um padre. A um padre pedem-se obras espirituais. No entanto, percebemos que a comunidade tem grande capacidade de realizar. O pároco também reúne alguma sensibilidade e, digamos, alguma capacidade para realizar esta obra", vincou.

"A união de esforços em torno da obra", encabeçada pela paróquia, mas com a ajuda de muitos colaboradores, dará à igreja "a dignidade que ela nunca teve", reforçou.

Enquanto reparava, curioso, no trabalho de paciência que alguns técnicos realizavam na talha dourada, anotou que a obra "é um trabalho global", que a paróquia não quis "fazer pela metade, porque esta igreja merece".

Situada no centro de Amarante, a igreja é visita para os forasteiros e um dos principais ex-líbris do turismo religioso na região Norte, sobretudo pela devoção que muitos romeiros, dos vários pontos do globo, têm ao beato Gonçalo, que residiu na cidade no século XIII.

Pelo templo passam os Caminhos do Santiago e os Caminhos de S. Gonçalo, e ao encargo da paróquia já foram recuperadas no centro histórico duas igrejas, ambas classificadas (S. Domingos e S. Pedro). Também foram recuperados quatro órgãos de tubos.

"Esta igreja [S. Gonçalo] é a maior [da cidade], digamos que é o cartaz de visita de Amarante. Não temos dúvidas que o restauro trará uma visibilidade e uma renovação da dinâmica", concluiu.

Também o presidente da Câmara de Amarante, José Luís Gaspar, acompanha os trabalhos e do seu gabinete, paredes-meias com o antigo mosteiro, ouve-se a sonoridade do bronze dos sinos da igreja que há séculos, pontuam o tempo.

À Lusa, disse que a autarquia esteve desde a primeira hora ao lado da paróquia, inclusive no apoio financeiro, e de muitos amarantinos, "para que esta obra fosse uma realidade".

"Com a ajuda de todos, finalmente, conseguimos. Aquele monumento extraordinário, situado no coração da nossa cidade, recuperará todo o seu esplendor e ganhará uma maior capacidade de atração de fiéis, potenciando uma das nossas apostas estratégicas, que é o turismo cultural, em concreto, neste caso, o turismo religioso", afirmou.

Referiu o potencial que a igreja tem e será agora reforçado na atração de turistas do Brasil, onde S. Gonçalo tem milhões de devotos, havendo até uma cidade e um aeroporto com o seu nome.

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