Uma "fotografia" para acordar o mundo

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

Um bebé de três meses morreu ontem ao fim da tarde. Estava ferido, depois de uma explosão em Mariupol. Um dia depois, não resistiu. Soube da notícia minutos depois de ter falado com Svitlana Blinova, diretora de comunicação da Câmara Municipal de Lviv. Foi dela a ideia de colocar carrinhos e cadeiras de bebé diante dos paços do concelho, uma por cada criança morta desde 24 de Fevereiro. Quando se lembrou da "performance", há uns dias, tinham já morrido 37 crianças. Enquanto juntava vontades, e recolhia carrinhos, o número de vítimas quase triplicou. Em pouco tempo. Svitlana queria mostrar "à Europa e a todo o mundo" uma fotografia que desse a ideia do cemitério de crianças em que se tornou a Ucrânia, nos últimos 23 dias. "O meu objetivo é que todos percebam, desta forma, a quantidade de crianças que já morreram. Talvez, assim, os políticos de todo o mundo, que só têm falado de negociações e sanções, possam perceber a realidade e ajudar". Agradece o apoio de toda a comunidade internacional. No entanto, colada à gratidão, sincera, vem um mas: "É preciso agir, agir depressa, agir já. Por cada dia que passa, mais crianças vão morrer".

"Agora", diz ela, emocionada, "temos mais de cem anjos a protegerem os nossos céus". Mas por muita força que tenham estas palavras, os anjos da Ucrânia não conseguem evitar a força aérea da Federação Russa, que continua a bombardear cidades inteiras.

"Até 24 de fevereiro, as crianças de Lviv e de toda a Ucrânia podiam andar livremente na rua, brincar, viver. Agora, estão a morrer", explica ela. Em média, desde que começou a invasão da Ucrânia, morrem cinco crianças por dia. "Cento e nove crianças mortas é muito? Ou é pouco? Não sei. Cada um pode olhar para esta fotografia e tirar as suas conclusões. Foi isso que quis transmitir", explica. Terminámos a conversa, diz-me que depois da guerra gostava de conhecer Portugal. Viu uma reportagem de viagens sobre os Açores e ficou encantada com "a paisagem". Deseja que essas férias cheguem o mais depressa possível, "é sinal de que a guerra acabou". Despede-se. Passado uns segundos volta atrás, tem o telefone na mão, recebeu uma mensagem. Diz-me apenas: "cento e dez. Já são cento e dez crianças mortas". Acabara de morrer um bebé que tinha ficado ferido. Segue para o edifício da câmara e coloca mais um carrinho ao lado dos outros cento e nove, alinhados como se fossem lápides num cemitério.

Crianças e mães

Os homens entre os 18 e os 60 não podem abandonar o país, porque está imposta a lei marcial. Estão "convocados" para o que for necessário, desde combater no exército, até garantir a defesa civil. Por isso, os quase três milhões de ucranianos que já passaram as várias fronteiras, naquele que é o êxodo mais rápido de sempre - um milhão de pessoas em apenas em dez dias, cem mil por dia, quase 4200 por hora, 70 pessoas por minuto, uma por segundo - são, sobretudo, mulheres, crianças e idosos.

As organizações não governamentais ucranianas estão preocupadas com os relatos que têm chegado de raptos, violações e desaparecimento, sobretudo de mulheres e crianças. As redes de tráfico humano estão atentas a grandes fenómenos migratórios e aproveitam o momento: "As mulheres e as crianças estão fragilizadas, debaixo de um grande stress e procuram segurança, alimentação e conforto", explica Iryna Andrusiak, diretora do Centro para a Igualdade de Género de Lviv, professora no politécnico da cidade. Coordena uma campanha de informação em massa, sobretudo através das redes sociais - Telegram, WhatsApp, Facebook, Instagram. O objetivo é passar a mensagem, espalhar a palavra, alertar as mulheres para o que pode acontecer em situações de grande vulnerabilidade, fraqueza e, portanto, pouco discernimento. "Temos dezenas de relatos de mulheres que foram violadas, raptadas ou que estão encarceradas", relata Iryna. Esta realidade é contada na primeira pessoa e, depois, difundida nas redes. Cada mulher que tomar conhecimento de histórias destas, ficará mais consciente do risco que corre. Ainda assim, por vezes, "é muito difícil reconhecer os predadores. As mulheres devem estar muito atentas, o melhor que podem fazer é confiar na polícia". A este conselho, junta-se um outro: desconfiar. "Normalmente", explica Iryna, quem faz este tipo de aliciamento está "disfarçado de voluntário". "Nunca se deve confiar num voluntário que esteja sozinho, os voluntários que realmente querem ajudar trabalham em organizações e estão em grupo". É sempre preciso perguntar para que organização trabalham os voluntários que estão nas estações de comboio, nas centrais de camionagem ou junto às fronteiras.

Ontem, além dos meios eletrónicos, os voluntários do Politécnico de Lviv distribuíram panfletos nos locais da cidade de onde ainda continuam a sair mulheres e crianças para destino incerto, para vidas incertas. Para futuros duvidosos. E nem sempre seguros.

Hoje, dia do pai, é o 24.º dia de guerra na Ucrânia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG