"Um processo de impeachment no Brasil, neste momento, seria muito ruim"

Falado como possível candidato à presidência brasileira, o atual líder do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, não quis antecipar a discussão de 2022. Em Lisboa para um evento sobre a CPLP e o agronegócio, diz ter uma "relação cordial" com Bolsonaro e admite que a atual imagem do Brasil não é a melhor.

Nasceu em Minas Gerais, o estado que mais presidentes já deu ao Brasil. Oito. Nos seus planos de carreira política está ser o nono mineiro presidente da República?
Óbvio que ficaria muito honrado se isso acontecesse um dia na minha vida, mas não é obviamente uma condição para o trabalho de hoje. Eu já sou muito grato a Deus, aos senadores, ao povo de Minas e do Brasil por ser presidente do Senado Federal do Congresso Nacional. Sei das minhas responsabilidades. Minas Gerais é um estado de muitas tradições políticas, de muita sabedoria e maturidade política, especialmente em momentos de crise, em que o diálogo, a tranquilidade, a ponderação, a moderação, devem ser a tónica da solução dos problemas. O mineiro tem muito disso. E, independentemente de eu ser de Minas, confesso que o Brasil precisa muito da "mineiridade" da política para a solução dos seus problemas atuais. E é isso que eu procuro conferir na presidência do Senado, essa "mineiridade" para poder resolver problemas.

Há menos de um mês filiou-se no Partido Social-Democrático (PSD). Como explica a mudança?
A mudança de partido foi por causa de uma grande identidade que criei com o PSD no âmbito do Senado, os outros dois senadores de Minas Gerais são do PSD, o prefeito da cidade de Belo Horizonte, onde vivo, também é do PSD. Houve uma participação muito importante do PSD na minha eleição a presidente do Senado. E identifiquei-me com os valores do pensamento do partido e com a contextualização do partido no momento atual da política brasileira. Por isso me filiei, a convite do seu presidente, o ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, e estou feliz com a mudança. Deixo o Democratas, o meu anterior partido, com um enorme sentimento de gratidão, de carinho por todos, e deixo lá muitos amigos. Mas a política é essa constante evolução e eu considero que, no meu caso específico, para a minha carreira política, houve uma considerável evolução ao me filiar no PSD.

No dia em que se filiou, procurou associar a sua imagem à do presidente Juscelino Kubitschek, outro mineiro, como figura conciliadora e criticou a divisão "em que cada um não admite o contrário e não aceita a existência do outro". Isso significa que acha importante haver uma terceira via no Brasil e, de certa forma, imagina que pode encarnar essa terceira via?
Considero que o Brasil precisa hoje do seu presidente eleito, não de candidatos a presidente, porque temos problemas imediatos. Em 2022 teremos candidatos a presidente. E é importante que tenham propostas para o Brasil. Propostas alternativas às propostas convencionais são muito bem-vindas para o amadurecimento político. A minha posição não é uma posição definida, se disputarei ou não a eleição em 2022, neste momento eu ocupo-me com a presidência do Senado sem antecipar em absolutamente nada a discussão de 2022 e considero que assim contribuo muito para o país. No momento certo, vamos tomar uma decisão em relação à nossa posição quanto a 2022. Agora, independentemente de qualquer projeto a nível nacional, o presidente Kubitschek deve ser inspiração de todos os políticos, seja vereador, deputado, senador, governador, presidente da República... Foi o maior presidente que tivemos, o maior estadista brasileiro. Fez inúmeras coisas por acreditar nos seus sonhos, trabalhar muito e ter muita confiança e patriotismo no Brasil.

Ainda a pensar nas presidenciais, especulou-se que poderia ser candidato a vice de Lula da Silva. Essa hipótese está em cima da mesa?
Nenhuma dessas hipóteses tem sido considerada. Eu tenho um compromisso com a presidência do Senado. Considero que, da minha parte, uma antecipação da discussão política eleitoral de 2022 não seria positiva para o Brasil, em razão da minha condição de chefe de poder. Reservo essas discussões para 2022.

Foi eleito presidente do Senado em fevereiro deste ano, com o apoio tanto da oposição como do governo. Qual é a sua relação com o presidente Jair Bolsonaro?
É uma relação cordial, de respeito recíproco, como também tenho uma excelente relação com a bancada do Partido dos Trabalhadores no Senado. Considero que é assim que se deve fazer política. Eu respeito todas as linhas de pensamento, respeito muito as divergências, acredito muito que são capazes de dar solução aos problemas. Mantenho uma relação cordial com o presidente da República, uma relação de trabalho permanente com os ministros de Estado, mas sem descurar também a minha obrigação junto à oposição, que quase toda ela rendeu apoio à minha candidatura a presidente do Senado.

Mas o presidente tem-se queixado de que coloca entraves à sua agenda legislativa. Isso acontece?
Absolutamente não. Não há entraves à política do governo. Há posições divergentes no Senado em relação às políticas do governo, o que é absolutamente natural. Em diversas outras situações nós fomos convergentes, o Senado contribuiu muito com o governo ao aprovar uma proposta de emenda da Constituição que permitiu o auxílio de emergência para os brasileiros. Aprovou todas as medidas provisórias, à exceção de uma única. Os projetos são apoiados a tempo. Agora, há decisões do Senado que às vezes não convergem com o governo, o que é típico da democracia. Se houvesse uma absoluta convergência entre os poderes, não era preciso haver uma divisão. Essa divisão de poderes é para isso, para que haja esse distanciamento.

Em 2016 era deputado quando votou a favor do impeachment da presidente Dilma. Bolsonaro foi acusado de vários crimes na CPI da covid. Acha que também devia ser alvo de um impeachment?
A avaliação sobre o impeachment cabe ao presidente da Câmara do Deputados. Há pedidos de impeachment formulados contra o presidente, não posso fazer um juízo jurídico sobre o mérito de cada um desses pedidos, se têm pertinência ou não, só posso fazer um juízo político. E o meu juízo político é que um processo de impeachment no Brasil, neste momento, seria muito ruim para a estabilidade de que precisamos para enfrentar os problemas que temos, de fome, de miséria que bate à porta dos brasileiros, de inflação, do câmbio elevado, de juros altos, de crise energética, de crise hídrica e do desemprego, que é infelizmente algo que nós ainda não conseguimos resolver. Tudo isto precisa de uma mobilização nacional, de união e de estabilidade. Tudo o que o processo de impeachment não confere. O impeachment acabaria por tomar conta da agenda do Congresso, da agenda do Brasil, e os problemas só evoluiriam e seria muito ruim.

O meu juízo político é que um processo de impeachment no Brasil, neste momento, seria muito ruim para a estabilidade de que precisamos para enfrentar os problemas que temos, de fome, de miséria que bate à porta dos brasileiros, de inflação...

Na quinta-feira houve um evento em Lisboa, organizado também pelo Senado, para celebrar os 25 anos da CPLP. Como é que vê o futuro dessa organização e as relações entre Portugal e o Brasil?
Vejo as relações entre Portugal e o Brasil como absolutamente necessárias para os dois países. Portugal é a nossa pátria-mãe, com Portugal mantivemos sempre as nossas melhores relações. Gostamos muito do povo português e sabemos que isso é recíproco. Obviamente que há uma pendência, que é a maior pendência que nós temos, relativamente à ratificação do acordo entre os países do Mercosul e os países da União Europeia, mas é algo que temos de procurar resolver e contaremos sempre com o apoio de Portugal. É muito importante manter essa boa relação. No ano que vem vamos comemorar os 200 anos de independência, é muito importante que Portugal faça parte das nossas celebrações. Eu convidarei, como presidente do Senado, o Presidente da República, convidarei o presidente da Câmara de Lisboa, com quem estive ontem [quinta-feira] e fui muito bem recebido. Quanto aos países de língua portuguesa, considero que há um défice do Brasil em relação a esses países e é algo que reconhecemos que podemos melhorar. Precisamos estar mais próximos dos países de língua portuguesa, dar-lhes boas condições de desenvolvimento e obtermos deles também coisas positivas para o nosso desenvolvimento nacional, até porque são mercados todos eles muito atrativos. É uma evolução que temos de procurar sempre constantemente e esse seminário é um exemplo dessa procura, de uma maior interação e desenvolvimento desses países.

Falou do bicentenário da independência. Como é que vê a imagem do Brasil hoje no mundo?
Infelizmente é uma imagem que não é a por mim desejada. Gostaria muito que a imagem do Brasil estivesse melhor, mais justa em alguns aspetos naquilo que o Brasil representa, mas reconheço também os nossos defeitos, inclusive fruto de uma política diplomática que se equivocou, especialmente nos últimos anos. Considero que esta reconstrução da imagem do Brasil é preciso fazer a partir de um planeamento que possa ser executado. A partir de um trabalho real em termos de desenvolvimento económico, de respeito pelo meio ambiente, de aumento de inovação, tecnologia, ciência e pesquisa, de desenvolvimento com mais igualdade social e uma distribuição maior de riqueza, com a preservação da nossa floresta amazónica. E mostrar ao mundo que temos esse compromisso. Pensar, como Kubitschek, o que é que nós queremos do Brasil daqui a 50 anos. E Kubitschek fez isso em cinco anos, promovendo o desenvolvimento das infraestruturas, trazendo o Brasil de ser um país eminentemente agrário, para ser um país industrializado, aberto para o mundo. Um país que era muito crescido no seu litoral e que foi interiorizado. Considero fundamental esse planeamento, pensar o país daqui a 50 anos e estabelecer essas metas, cumprindo essas metas com a ajuda de países estrangeiros, inclusive Portugal. E obviamente melhorar esta relação diplomática e a mensagem para o resto do mundo de que é um país civilizado, de bons compromissos, com instituições que funcionam, uma democracia sólida e com grandes oportunidades para todos, pelo seu mercado consumidor e pela segurança alimentar que proporciona a todos os países do mundo.

Falou da Amazónia, sempre sujeita a um foco negativo por causa da desflorestação. É possível fazer a extensão da agropecuária e manter a proteção da natureza?
É perfeitamente possível. A mata nativa, em estado natural, representa 66,3% da área do Brasil. Esse número é surpreendente. E a agricultura corresponde a 9% da nossa área e a pecuária a 20%. A partir do momento em que há a consciência de que temos de preservar as nossas matas e temos de, em vez de desmatar, estimular o aumento das nossas florestas a partir de programas e mecanismos que incentivem isso, inclusive remunerando serviços ambientais, remunerando a preservação, podemos fazer da nossa agropecuária uma agropecuária mais produtiva. Podemos duplicar a nossa produtividade só com tecnologia, com ciência, com inovação e com pesquisa. E isso incrementa as nossas divisas, aumenta a nossa arrecadação, aumenta a nossa capacidade económica sem a necessidade de desmatar. Há diversas experiências inclusive já implementadas no Brasil. O agronegócio brasileiro vai assimilar isso e nós vamos conseguir ter mais produtividade, preservando as nossas florestas. Vejo o momento como nunca antes visto no Brasil de consciência ambiental.

Mas então o mundo pode estar seguro de que os brasileiros vão proteger a Amazónia?
Sem dúvida alguma, nós amamos a Amazónia, é um património nosso, que reconhecemos de importância mundial. No entanto, temos uma população da Amazónia ainda muito carente, de pessoas que passam necessidades básicas, que passam fome, que não têm oportunidade de trabalho. Além de tudo o que temos de fazer em termos de orçamento para os órgãos ambientais, programas sociais, desenvolvimento da tecnologia, precisamos de implementar um programa que faça que as pessoas sejam estimuladas a preservar a Amazónia e outras florestas e sejam remuneradas por isso. Ou seja, um produtor rural próximo da Amazónia tem de entender que é melhor ele ter 50 cabeças de gado e manter a floresta dele do que ter cem cabeças de gado e uma floresta derrubada. A primeira hipótese tem de ser economicamente mais viável para ele e é perfeitamente possível fazer isso. Para isso precisamos de ter o cumprimento do acordo com os países desenvolvidos do pagamento aos países em desenvolvimento daqueles 100 mil milhões de dólares. É o que esperamos para poder implementar isso. Não tenho dúvida de que, isso feito, a Amazónia estará preservada, as nossas florestas estarão preservadas.

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