Tropas russas tentam de novo assaltar Kharkiv 

Segunda maior cidade volta a ser alvo depois de um cerco que acabou com a retirada russa. No Donbass, serviços de informações notam baixo moral das tropas de ambos os lados.

Na viagem de comboio de regresso a Kiev, depois de ter visitado Mykolaiv e a região de Odessa, Volodymyr Zelensky disse: "A Rússia não tem tantos mísseis como o nosso povo tem vontade de viver." Horas depois da declaração do presidente ucraniano, Moscovo disse ter atingido Mykolaiv com mísseis, tendo destruído 10 obuses e 20 veículos militares que teriam sido entregues pelos países ocidentais há dias. O regime de Putin também disse ter bombardeado uma oficina de reparação de tanques em Kharkiv (Carcóvia). A segunda maior cidade ucraniana está a ser alvo de uma ofensiva a norte, tendo levado o governo ucraniano a dizer que "a Rússia está a tentar transformar Kharkiv numa cidade na linha da frente" num momento em que os relatórios dos serviços de informações apontam para uma quebra no moral, deserções e recusa em empreender missões.

Kharkiv foi cercada no início da invasão russa, mas as forças ucranianas venceram a batalha que se desenrolou nos arredores da cidade do nordeste há pouco mais de um mês e foram empurrando os russos para a fronteira ou para as zonas ocupadas a leste. Agora os russos tentam um segundo cerco. Segundo Vadim Denisenko, conselheiro do Ministério do Interior, a situação no norte da cidade é muito difícil porque os russos estão a tentar aproximar-se da cidade de modo a poderem voltar a bombardeá-la.

Em relação ao Donbass, cuja batalha foi anunciada há dois meses por Zelensky, o Ministério da Defesa russo disse que as suas forças tinham tomado Metolkine, uma localidade nos arredores de Severodonetsk, onde invasores e invadidos lutam há semanas por cada metro quadrado, com combates na rua e artilharia pesada russa a infligir destruição e baixas.

10 quilómetros. O autarca deposto de Melitopol anunciou que as forças ucranianas avançaram uma dezena de quilómetros em direção da cidade, ocupada pelos russos desde fevereiro.

Segundo a agência russa Tass, muitos combatentes ucranianos renderam-se com a tomada de Metolkine. Além disso, o porta-voz do Ministério da Defesa russo disse que os soldados ucranianos em redor de Lysychansk estavam a abandonar as suas posições e artilharia devido à falta de munições e ao baixo moral. Na guerra de palavras, o governador de Lugansk, Serhiy Gaiday, reconheceu a situação difícil, mas negou que Severodonetsk tenha caído para mãos russas e disse que as forças adversárias sofreram "pesadas perdas".

Quebra de ânimo

A luta pelo Donbass está a minar o moral de ambos os lados, disse a agência britânica de informações de Defesa, na sua avaliação diária. "As unidades de combate de ambos os lados estão envolvidas em combate intenso no Donbass e estão provavelmente a sentir ânimo variável", disse o órgão do Ministério da Defesa britânico. "As forças ucranianas têm provavelmente sofrido deserções nas últimas semanas", todavia "o moral russo continua muito provavelmente a estar especialmente perturbado", com continuados "casos de recusa de ordens por parte de unidades russas inteiras e de confrontos armados entre oficiais e as suas tropas".

75% de ucraniano. O parlamento de Kiev aprovou uma lei em que temporariamente proíbe a difusão de música de artistas russos (exceto aqueles que tenham denunciado a invasão) e impõe uma quota de 75% da língua ucraniana nos programas de informação e entretenimento.

Além disso, e de acordo com o think tank norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra, em telefonemas intercetados pelos ucranianos, soldados russos queixam-se das condições da linha da frente, da qualidade do equipamento e da falta geral de pessoal. Fatores a ter em conta quando o cenário de a guerra se prolongar foi levantado de novo. Depois do aviso do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, desta vez foi o o secretário-geral da NATO. "Temos de nos preparar para o facto de que pode levar anos. Não podemos desistir de apoiar a Ucrânia", disse Jens Stoltenberg em entrevista ao Bild am Sonntag.

Hoje, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reúnem-se no Luxemburgo. O tema principal é a crise alimentar mundial causada pelo bloqueio russo no Mar Negro e as soluções para ajudar a exportar cereais da Ucrânia. O estatuto de candidatos à adesão à Ucrânia e à Moldávia também deverá ser abordado, embora a decisão vá ser tomada no Conselho Europeu de quinta e sexta-feira, em Bruxelas.

Alemanha de volta ao carvão

Consequência do corte não admitido de gás da Rússia à Alemanha e Itália, Berlim admitiu o regresso "amargo" ao consumo do carvão, enquanto em Roma foi anunciado mais um acordo para diversificar a importação de gás. "Não devemos ter ilusões, estamos num confronto com Putin", disse o ministro da Economia, Clima e Energia. Robert Habeck, que é também um dos líderes dos Verdes, explicou que a medida é "amarga mas indispensável para reduzir o consumo de gás", e que será temporária.

A Alemanha reduziu a quota de gás russo importado de 55% para 35%, mas continua dependente do mesmo numa altura em que Moscovo, alegando problemas na manutenção do gasoduto, reduziu o fornecimento do combustível. Já a italiana ENI assinou um contrato de exploração de gás no Qatar depois de Roma ter rubricado acordos com o Egito, Argélia, Angola e Congo de forma a atingir o objetivo de não depender do gás russo até 2025.

cesar.avo@dn.pt

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