"Ser valenciano não é ser anti-catalão. Cada um tem a sua identidade"

Socialista, preside à Comunidade Valenciana, região autónoma espanhola que conta com cinco milhões de habitantes, e veio a Portugal para relançar relação. Em conversa com o DN, Ximo Puig marca distâncias do independentismo catalão, critica Juan Carlos, mas elogia o rei Filipe VI e é duríssimo com Vox.

Antes de chegar a Lisboa, à frente de uma missão institucional e empresarial, disse que a Comunidade Valenciana e Portugal "vivem de costas voltadas". O que é preciso fazer para mudar esta situação?
Penso que nos últimos anos houve uma maior aproximação entre Espanha e Portugal e esse é o caminho. A própria realidade europeia exige-nos isso. Na Comunidade Valenciana somos muito semelhantes a Portugal, mas enquanto Portugal olha para o Atlântico, nós olhamos para o Mediterrâneo. Então estamos de costas voltadas. A Comunidade Valenciana tem cinco milhões de habitantes, metade de Portugal, mas depois de 40 anos de autogoverno, nunca tinha havido uma missão, um contacto institucional importante entre nós. É uma anomalia que temos de superar. Afinal, por estrada, Valência está mais próxima de Lisboa do que algumas partes da própria Espanha. Logo é absurdo. Achamos que há grandes oportunidades para uma ligação.

De que forma é que pode ser feita?
No plano económico, vimos nos últimos tempos que a empresa económica mais importante da Comunidade Valenciana, que é a Mercadona, está a instalar-se em Portugal. Também há empresas portuguesas a trabalhar na Comunidade Valenciana. Falamos de três mil empresas que estão ligadas, entre importação e exportação. A relação económica está a funcionar, está a aumentar muitíssimo o turismo, nas duas direções. Mas há muito por conquistar. E depois há questões que têm especial interesse para Portugal e para nós, como a ligação do Corredor Mediterrâneo, desde o sul de Portugal, do Algarve, por linha férrea, para o transporte de mercadorias. Faltam cem quilómetros, que ainda não estão planeados, até Huelva, e nós achamos, e comentámos com o ministro das Infraestruturas português, que é uma questão que de alguma maneira uniria Portugal ao Corredor Mediterrâneo e finalmente ao centro da Europa.

O seu governo é de coligação tripartida com o Compromís e com o Podemos. Como tem sido a relação?
Trabalhámos a gestão da diversidade, que foi o que os eleitores decidiram nas eleições. Com essa visão, o que tentámos foi harmonizar e gerar estabilidade, que é o mais importante na Comunidade Valenciana. A Comunidade Valenciana, em 2015, vinha de uma situação de desgoverno em muitos âmbitos, e sobretudo com o peso da corrupção. A Comunidade Valenciana tinha-se convertido num paradigma da corrupção e além disso tinha sofrido muito intensamente a crise económica de 2008, porque tínhamos um modelo produtivo muito associado ao imobiliário, à construção e também ao turismo. Depois, graças a esse turismo e às exportações conseguimos dar a volta. Mas o ano de 2015 foi um ano de mudança e a partir desse momento, todos os indicadores económicos e sociais melhoraram. O fundamental também era a reputação da Comunidade Valenciana. Neste momento, temos índices de qualidade democrática por cima da média das regiões europeias. E há uma estabilidade política, forjada não apenas pelo acordo político, mas também o acordo social, com os sindicatos e os empresários, que nos torna um território atrativo para os investimentos, como é prova a instalação da fábrica da Volkswagen. Mas como gerimos esta coligação? Bom, admitindo a realidade e, durante sete anos, aprovámos a tempo e horas os orçamentos, que no final é a prova de algodão de se o governo funciona ou não. Há sempre olhares diferentes e não estamos isentos de que haja dificuldades, mas no fundamental penso que este trajeto foi um trajeto partilhado, forte e que deu soluções aos problemas que tinha a comunidade.

A nível nacional também há uma coligação entre o PSOE e o Podemos marcada por confrontos e polémicas. Será que o governo aguenta até às eleições de 2023? Isso é essencial para Espanha?
Sim, é essencial para Espanha que o governo continue e é importante que, apesar das dificuldades, dos diferentes olhares, no fundamental, haja um acordo. E isso tendo em conta a dificuldade adicional de o governo de coligação, por si só, não ter maioria parlamentar. Não é o caso na Comunidade Valenciana, onde sim, temos uma maioria parlamentar. A lógica é que com uma direita mais razoável seria possível enfrentar este tempo com maiores garantias de estabilidade, mas já vimos que não podemos confiar na direita, numa questão fundamental para o país como é a reforma laboral a direita opôs-se. Portanto, é uma situação complexa, mas por isso é fundamental que as divergências no governo se limitem aos aspetos que não são cruciais.

Mas o governo espanhol consegue sobreviver até às eleições?
Estou convencido de que sim. Acho que o presidente demonstrou, em reiteradas ocasiões, a sua capacidade, a sua resistência, a sua persistência. Sabe enfrentar as dificuldades. Neste momento o pior para Espanha, para Portugal, para qualquer país é a instabilidade política. Porque temos de enfrentar, nestes próximos três anos, o maior investimento da história e há desde logo uma mudança disruptiva, com duas transições em curso, a ecológica e a digital. Logo precisamos da máxima estabilidade. Um dos grandes dramas deste tempo é a dificuldade de chegar a acordo.

Acha que com o novo líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, será possível um outro diálogo a nível nacional?
Espero que sim, até agora não aconteceu assim, mas também está a iniciar o seu mandato. Espero que se houver uma mudança de atitude do partido da oposição, se possa traduzir em acordos absolutamente necessários para Espanha. Desde a renovação do poder judicial, do Tribunal Constitucional, até ao pacto de financiamento autonómico que é fundamental para a prestação dos serviços públicos. Porque a Saúde, a Educação, os serviços sociais são poderes transferidos para as comunidades autónomas. Logo, se temos insuficiência financeira como um conjunto, não se podem prestar adequadamente esses serviços.

Tem uma relação pessoal com Núñez Feijóo?
Sim, tive relação com ele como presidente, como colega.

E que impressão tem dele. É um líder diferente, mais próximo da tradição conservadora?
Sim, mas, no final, os líderes mostram-se com os factos. Gostaria que parte da linguagem autonomista que tinha a mantenha. Mas as primeiras decisões não parece que vão por esse caminho. Mas penso que é preciso respeitar sempre o adversário, tentar dialogar. Porque o que jogamos agora não é apenas quem vai governar dentro de dois anos, mas o futuro do país. Nós temos uma grande oportunidade nesta década, tem Portugal e tem Espanha. E não podemos deixar passar esta década de oportunidades com brigas internas. Não teria qualquer sentido.

Falou que o governo de coligação não tem a maioria. Pedro Sánchez chegou ao poder com o apoio dos partidos independentistas e a promessa de diálogo com Catalunha. Ainda é possível esse diálogo depois do escândalo das escutas telefónicas aos independentistas?
O diálogo não é uma opção, é imprescindível. Não há outra via em termos democráticos que o diálogo. Mas dialogar não significa aceitar todos os termos de uma das partes. Mas a solução tem de ser estabelecer um diálogo no marco da lei e assumir as diferentes posições que existem. Creio que o governo de Espanha tem a vontade e fez um exercício de responsabilidade enorme para tentar canalizar uma situação tão complexa.

Qual foi o impacto do independentismo catalão na Comunidade Valenciana?
Não há impacto. Bom, só no esfriamento das relações. Isso houve. Porque no final, a Comunidade Valenciana e a Catalunha têm muitos traços comuns, muitos elementos comuns, desde logo, do ponto de vista comercial, é a comunidade a que mais compramos e a que mais vendemos. Temos uma relação comercial, histórica e cultural muito potente. Esse exercício de introspeção política que fez a Catalunha, esse debate mais endógeno, teve um impacto nas relações tradicionais. Mas sempre tivemos desde a Comunidade Valenciana uma posição clara: diálogo e respeito. O nosso projeto é absolutamente autónomo, não tem nada a ver com a Catalunha, mas queremos estabelecer permanentemente ações conjuntas, em tudo o que podemos colaborar estamos preparados.

Mas quando o catalanismo fala dos Países Catalães está a tentar falar também um pouco dos valencianos. Isso não provoca rejeição da parte dos valencianos?
Sim, sempre houve uma rejeição de uma ideia que não tem tradução política. Neste momento, na Comunidade Valenciana, não há nenhum projeto político, que se apresente às eleições, falando de uma organização política como os denominados Países Catalães. Nós temos um estatuto de autonomia próprio, somos uma nacionalidade histórica, que tem 600 anos de vigência e uma identidade. Em positivo. Ser valenciano não é ser anti-catalão. Cada um tem a sua identidade. E as identidades têm de se fazer sempre a partir do respeito, sem identitarismos absurdos, que num contexto europeu não têm sentido.

A agitação na Catalunha trouxe a ideia de ser necessário rever a Constituição, o estatuto das autonomias. Seria positivo repensar o que se vez em 1978, à luz de 2022?
Eu penso que essa atualização seria positiva. Porque em 1978, o que estabelece a Constituição, é um país articulado em nacionalidades e regiões, mas que não estão estabelecidas na Constituição quais são. Depois foi avançando, com o desenvolvimento das autonomias, mas a própria Constituição deveria ajustar-se à realidade. Necessitamos de uma revisão que assegure o espaço federal, o espaço partilhado. Porque nestes momentos há uma grande descentralização. Mas, o Senado e a própria realidade de cooperação e governança, não está definida. Precisamos assemelhar-nos a um estado federal, que é o que em certa medida somos. Mas é preciso traduzir estas regras de jogo comuns que beneficiariam a articulação de um país que já está nesta via. O que se passa é que em Espanha, muitas vezes, falar de federalismo é falar de separação, quando é o contrário. Federar é unir. Ponham o nome que quiserem, é preciso federalismo.

Pensando em 1978, durante a transição o rei Juan Carlos foi uma figura importantíssima, mas hoje em dia fala-se muito do futuro da monarquia. Como é que alguém que é presidente de um antigo reino, de Valência, olha hoje em dia para o reino que é Espanha?
A monarquia parlamentar foi um sistema que funcionou bem em Espanha como instituição. Felipe VI está a fazer um enorme esforço de modernização da instituição, de transparência, mas é preciso distinguir a instituição do que foi a atuação do rei emérito. Foi uma atuação nada exemplar. Deveria dar explicações e não se pode fazer bandeira de alguém que não cumpriu com a sua missão institucional e de cidadão, não pagando impostos. Esta é uma questão que dói .

O senhor foi juancarlista?
Eu tenho origens republicanas, os meus avós foram republicanos. Sobretudo depois do golpe de Estado, o 23-F, pensamos que fez uma trajetória positiva. Foi um elemento de estabilidade muito importante. Quando se fizer a análise histórica daquilo que fez, haverá luzes e sombras, obviamente, como em todos. Mas a verdade é que é uma enorme deceção. Sobretudo porque há uma espécie de impunidade. Isso gera muita insatisfação. E, ainda mais preocupante, é a atitude dos que aplaudem, esta espécie de patrimonização do poder. É muito grave que se aplauda essa imunidade arrogante e que haja partidos da direita que não questionem.

Em Castela e Leão as eleições de fevereiro ditaram um governo de coligação entre o PP e o Vox. As sondagens para as eleições andaluzas, em junho, também apontam nesse sentido. E na Comunidade Valenciana, que votará dentro de um ano?
O pior episódio dos últimos anos da democracia em Espanha é, sem dúvida, a aparição da extrema-direita, a visualização de uma extrema-direita que, em grande medida, estava anexada ao Partido Popular, mas que neste momento já surgiu, como gostava de dizer [José Maria] Aznar, sem complexos. É uma extrema-direita que partilha com todas as extremas-direitas as grandes fobias à imigração, até à diversidade sexual, às mulheres, com uma atitude hostil, um populismo baseado também nas causas profundas de descontentamento, de rutura emocional, de fratura social. A mim preocupa-me mais as causas do que o efeito, mas o efeito é terrível. Porque questiona a essência da democracia. Que em Espanha se tenha dado abertura sem pestanejar à extrema-direita para formar governo é uma anomalia profunda. Assumiu-se com total naturalidade que a extrema-direita pode formar parte do governo. E isso tem consequências, desde logo no que é a convivência, no que são os valores de uma democracia mais sólida, mais avançada. Portanto, a mim preocupa-me. Não se trata de um exercício de normalidade, porque não é. É um partido que quer acabar com o estado das autonomias, é estar a exercer numas instituições contra a qual se pronuncia. É estar contra a Constituição. Quando falam que Espanha não é um país de nacionalidades e regiões estão contra a Constituição.

Mas o Vox tem alguma força na Comunidade Valenciana?
Sim, têm força em todas as comunidades neste momento. Espero que no futuro, nesse espaço da direita, haja uma reconfiguração. E que sejamos capazes de atacar as causas que fazem crescer a extrema-direita. A desigualdade, apostando numa maior integração e coesão social. É isso que temos de tentar. Atacar as causas que provocam uma resposta que é, em muitos aspetos, inumana, de retrocesso enorme, quando conseguimos avançar no que é a diversidade sexual, na igualdade de género, num país em que qualquer pessoa que vem tem direitos, por ser pessoa. Não podemos permitir que isto se questione, tal como não podemos questionar a realidade plural do país.

Núñez Feijóo foi muito bem sucedido na Galiza e agora tem um destino nacional. Também coloca a hipótese de fazer o mesmo?
Não. O meu destino é a Comunidade Valenciana. Destino final.

leonidio.ferreira@dn.pt e susana.f.salvador@dn.pt

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