O aviso de Oksana, a "comandante" do centro de veteranos de Lviv: "Este não é só um problema da Ucrânia"

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

O centro de veteranos de guerra de Lviv está num corrupio. Mal se entra, numa sala espaçosa, como se fosse uma plateia, há dois grupos, com cerca de 20 pessoas cada. Estão dispostos numa roda e escutam atentamente a enfermeira Olga, que explica como tratar de feridas. Há réplicas, em borracha, de orelhas, narizes, mãos, pés, braços e pernas. Os voluntários testam na borracha aquilo que podem encontrar um dia destes se, ou quando, Lviv for bombardeada. Ao lado, outra enfermeira explica como fazer manobras de reanimação. O boneco utilizado em todo o mundo recebe respiração boca a boca. Por fim, numa espécie de palco, são os próprios "alunos" a servir de cobaia para técnicas de imobilização de membros partidos ou deslocados.

A informação que as enfermeiras transmitem é absorvida num silêncio atento e interessado.

A senhora que parece que manda no edifício leva-nos ao primeiro andar, onde há espaço para armazenar roupa, comida e medicamentos que não param de chegar. Há, por todo o lado, sacos cheios de vestuário. Mais adiante, numa sala, um grupo de mulheres trata de cortar em pequenos pedaços alimentos perecíveis, que serão cozinhados mal seja possível, para que nada seja desperdiçado. Oksana Yurynets não para de falar. Quer mostrar tudo, explicar o que estão a fazer para ajudar quem está na linha da frente ou nos postos de defesa civil. Só interrompe a visita guiada para atender uma chamada: "Estou ao telefone, dia e noite, com os meus amigos americanos, europeus, britânicos e de outros países."

Mas quem é, afinal, Oksana Yurynets, a mulher que fala quase sem respirar, que atende telefonemas atrás de telefonemas, que tem amigos em todo o mundo e parece ser a única pessoa no Centro de Veteranos que está com pressa? Tem 44 anos, foi deputada na última legislatura, e faz parte de dois comités - o que prepara a adesão da Ucrânia à União Europeia e o que prepara o pedido de adesão à NATO. "O que peço aos meus amigos internacionais é que parem o Putin." Acredita que, nesta altura, a maior parte dos países está com a Ucrânia. E recorda: "A Ucrânia, hoje, representa a liberdade e a democracia."

Por esta altura, a antiga deputada, que não foi eleita nas eleições de há dois anos, já respira entre as palavras, porque está a falar em inglês e precisa de tempo para pensar nas palavras certas. "Sabe", diz ela, "todos os países têm muitos problemas, mas o que está a acontecer não diz respeito só à Ucrânia, diz respeito à Europa e ao mundo."

A ideia de que qualquer outro país, por qualquer outra razão, ou por razão nenhuma, pode ser, a qualquer momento, atacado, é o motivo pelo qual os ucranianos sentem que merecem solidariedade dos outros povos.

Mal acabou de falar, Oksana respirou fundo. Tocaram as sirenes. Quem estava no primeiro andar desceu à cave. Ela também. Foi a última a entrar. No piso menos um, a que agora se chama bunker, ou abrigo, apenas dois sons se faziam notar. Uma mulher rezava, num tom de murmúrio, e Oksana falava, com os amigos internacionais. As guerras não se ganham só com tropas, armas e aviões. Também se ganham com influência, solidariedade e palavras.

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