A família de Jackson disse que “morreu pacificamente”, sem esclarecer a causa da morte.
A família de Jackson disse que “morreu pacificamente”, sem esclarecer a causa da morte.Foto: DR

Morreu Jesse Jackson, defensor dos direitos civis que lutou por “manter viva a esperança”

Reverendo, por duas vezes candidato à nomeação democrata à Casa Branca, tinha 84 anos. Foi discípulo de Martin Luther King Jr. (estava lá quando ele foi morto em 1968) e inspirou Barack Obama.
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O reverendo Jesse Jackson, que durante mais de cinco décadas liderou a defesa dos direitos civis dos afro-americanos e por duas vezes tentou a nomeação democrata à Casa Branca, morreu ontem aos 84 anos. Conhecido como um grande orador, sempre defendendo a necessidade de se “manter viva a esperança”, foi discípulo de Martin Luther King Jr. (estava presente quando ele foi assassinado, em 1968) e inspirou, entre outros, um jovem Barack Obama, que seria eleito presidente em 2009.

A família de Jackson disse que “morreu pacificamente”, sem esclarecer a causa da morte. Em 2017, tinha sido diagnosticado com Parkinson, mas em novembro a organização que fundou, a Rainbown/PUSH Coalition, revelou que tinha sido hospitalizado por causa de uma paralisia supranuclear progressiva, uma doença neurodegenerativa rara e particularmente grave cujos sintomas na fase inicial podem ser confundidos com Parkinson.

“O seu compromisso inabalável com a justiça, a igualdade e os direitos humanos ajudou a moldar um movimento global pela liberdade e pela dignidade. Um incansável agente de mudança, deu voz aos que não a tinham - desde as suas campanhas presidenciais na década de 1980 até à mobilização de milhões para se registarem para votar - deixando uma marca indelével na história”, disse a associação num comunicado.

“A sua crença inabalável na justiça, na igualdade e no amor inspirou milhões, e pedimos-lhes que honrem a sua memória continuando a luta pelos valores pelos quais viveu”, afirmou a família. Jackson era casado e tinha seis filhos (incluindo uma filha nascida de uma relação extramatrimonial).

O reverendo nasceu a 8 de outubro de 1941, em Greenville, na Carolina do Sul, fruto da relação de uma jovem de 18 anos com um vizinho casado e 15 anos mais velho. Seria adotado pelo futuro marido da mãe, assumindo o seu apelido. Envolveu-se no ativismo e na política desde muito cedo, após sentir na pela a segregação racial no sul dos EUA - em julho de 1960 seria preso após um protesto pacífico com outros colegas numa biblioteca exclusiva para brancos, acabando por conseguir que esta ficasse disponível para todos.

“A sua crença inabalável na justiça, na igualdade e no amor inspirou milhões, e pedimos-lhes que honrem a sua memória continuando a luta pelos valores pelos quais viveu”.

De porte atlético recebeu uma bolsa para jogar futebol americano na Universidade de Illinóis, mas acabaria por se transferir para uma universidade negra na Carolina do Norte, onde se licenciou em sociologia em 1964. Foi lá que conheceu Jacqueline, com quem casou em 1962.

Ao terminar o curso, Jackson já estava envolvido em pleno com o movimento dos direitos civis e já tinha conhecido Martin Luther King Jr.. Esteve em Selma, após os eventos do Domingo Sangrento de 1965, quando uma marcha pela ponte de Edmund Pettus culminou em agressões das autoridades. E acabou por suspender os estudos no seminário onde tinha entrado (acabaria mais tarde) para continuar a luta, sendo nomeado para um cargo na Conferência da Liderança Cristã do Sul de King.

A tragédia ocorreu a 4 de abril de 1968, quando assistiu ao assassinato do mentor no motel Lorraine, em Memphis. Jackson, que surgiu na televisão ainda coberto com o sangue de King, acabou por assumir um lugar de liderança, fundando já na década de 1970 a sua própria associação - a PUSH (Pessoas Unidas para Salvar a Humanidade). Nos anos 1980, procurou por duas vezes ser nomeado candidato democrata à presidência dos EUA (em 1984 ficou em terceiro nas primárias e em 1988 foi segundo), criando a Coligação Nacional Arco-íris para defender os direitos de voto dos negros (na década de 1990 acabaria por juntar as duas organizações numa só). Pelo caminho, ajudou a moldar um novo Partido Democrata.

Se os negros votarem em grande número, os brancos progressistas ganham. É a única forma de os brancos progressistas ganharem. Se os negros votarem em grande número, os hispânicos ganham. Quando os negros, hispânicos e brancos progressistas votam, as mulheres ganham. Quando as mulheres ganham, as crianças ganham. Quando as mulheres e as crianças ganham, os trabalhadores ganham. Precisamos de nos unir”, disse num discurso memorável, na Convenção Democrata de 1984.

Eu nasci num bairro pobre, mas o bairro pobre não nasceu em mim. E não nasceu em vocês, vocês conseguem. Onde quer que estejam esta noite, conseguem. Mantenham a cabeça erguida, encham o peito de ar. Vocês conseguem. Às vezes escurece, mas a manhã chega. Não desistam. O sofrimento forja o carácter, o carácter forja a fé. No final, a fé não desilude. Não devem desistir. (...) Nunca devemos desistir. A América vai melhorar cada vez mais. Mantenham viva a esperança. Mantenham viva a esperança. Amanhã à noite e sempre, mantenham viva a esperança!”, afirmou noutro discurso, na Convenção de 1988.

"Mantenham a cabeça erguida, encham o peito de ar. Vocês conseguem. Às vezes escurece, mas a manhã chega. Não desistam".

Numa entrevista à AP, em 2011, resumiu o seu legado: “Parte do trabalho das nossas vidas foi derrubar muros e construir pontes e, em meio século de trabalho, basicamente deitámos abaixo muros”, disse Jackson. “Às vezes, quando derrubas muros, ficas marcado pelos destroços que caem, mas a tua missão é abrir caminho para que outros possam passar por ali.” Um dos que inspirou foi Barack Obama, que viria a ser eleito o presidente negro dos EUA em 2009, mas quem Jackson não deixou de criticar.

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