Os quatro anos de invasão russa à Ucrânia foram assinalados em especial em Kiev, em Bruxelas e em Nova Iorque, com os líderes europeus a quererem dar um sinal de unidade. Na capital ucraniana, Volodymyr Zelensky recebeu o presidente do Conselho Europeu e a presidente da Comissão, bem como outros dirigentes europeus, embora aqueles dos países maiores tenham faltado à cerimónia de homenagem às vítimas. Juntaram-se mais tarde em videoconferência para uma reunião da coligação dos voluntários, com a sombra a pairar das brechas no espaço europeu em resultado da reviravolta anunciada pelo primeiro-ministro húngaro sobre o apoio ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, bem como o veto, no que foi seguido pela Eslováquia, de mais um pacote de sanções económicas contra a Rússia. Ainda assim, as lideranças europeias não hesitaram: no Parlamento Europeu, em Bruxelas, Roberta Metsola assinou a aprovação do empréstimo, que havia sido votado no dia 11; e em Kiev, a presidente da Comissão foi taxativa: “O empréstimo foi acordado por 27 chefes de Estado e de governo no Conselho Europeu. Eles deram a sua palavra. Esta palavra não pode ser quebrada”, disse Ursula von der Leyen. "Vamos materializar o empréstimo de uma forma ou de outra”, assegurou a alemã, vestida com as cores da bandeira ucraniana.Von der Leyen integrou uma comitiva de uma dúzia de líderes europeus que se deslocaram a Kiev para assinalar o quarto aniversário da invasão e dar um sinal de que o apoio não vai faltar. O grupo prestou homenagem aos soldados ucranianos mortos na praça da Independência, assistiu a uma cerimónia religiosa na catedral de Santa Sofia e visitou uma infraestrutura energética danificada por mísseis russos. . Numa sessão especial no Parlamento Europeu, Zelensky, em videoconferência, apelou à União Europeia para definir uma data para a adesão da Ucrânia. A indefinição permitirá ao líder russo Vladimir Putin encontrar uma forma de “bloquear a Ucrânia durante décadas dividindo a Europa”, advertiu. Questionada sobre este tema, a presidente da Comissão disse apenas que a Ucrânia “está no bom caminho”, mas rejeitou apontar uma data. Quem falou com mais pormenor foi a comissária Marta Kos. Também presente em Kiev, mas noutra iniciativa, a comissária responsável pelo alargamento disse que o processo de adesão foi desenhado para períodos de paz, pelo que deverá ser adaptado. “Estamos a preparar uma nova abordagem, que permitiria não apenas à Ucrânia, mas também a alguns outros países candidatos, provavelmente os mais avançados, integrarem-se mais cedo”, disse a eslovena. .“Putin não alcançou os seus objetivos. Ele não quebrou os ucranianos; não ganhou esta guerra. Nós preservámos a Ucrânia e faremos tudo para garantir a paz e a justiça.”Volodymyr Zelensky.A Hungria de Viktor Orbán opõe-se à adesão da Ucrânia. A hostilidade do húngaro - aliado de Putin - face a Kiev agravou-se nos últimos tempos: o oleoduto de Druzhba, que fornece petróleo russo, foi danificado num bombardeamento das forças russas em território ucraniano. Budapeste acusa Kiev de não reparar a infraestrutura e em retaliação Orbán tentou jogar com a cartada do bloqueio ao empréstimo de 90 mil milhões, dos quais 60 mil milhões são para assistência militar. Em conferência de imprensa, Zelensky sugeriu a Orbán que negoceie com Putin um cessar-fogo às infraestruturas energéticas. “Se Orbán quiser bloquear o apoio financeiro, pode fazê-lo à Rússia, não à Ucrânia. Nós não somos a razão para a destruição deste oleoduto”, afirmou em conferência de imprensa. Segundo a Reuters, a Comissão prepara-se para propor a proibição de importação de petróleo russo depois das eleições parlamentares na Hungria terem lugar. Budapeste e Bratislava estão até agora isentos das medidas de corte de abastecimento da energia russa. Posição dúpliceOs Estados Unidos voltaram a demonstrar a sua inconstância diplomática no mesmo dia, ao defenderem uma coisa nas Nações Unidas e outra no grupo dos países mais desenvolvidos. Em Nova Iorque, na Assembleia Geral da ONU, os Estados Unidos abstiveram-se durante a nova resolução de apoio à Ucrânia e à sua integridade territorial. O texto, aprovado por 107 votos a favor, 12 contra e 51 abstenções, reitera o “firme compromisso com a soberania, independência, unidade e integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas”, isto é, as definidas em 1991. Exige um “cessar-fogo imediato, completo e incondicional” entre a Rússia e a Ucrânia, “uma paz global, justa e duradoura em conformidade com o direito internacional”, e a troca total de prisioneiros de guerra. Os EUA pediram uma votação separada dos parágrafos referentes à integridade territorial da Ucrânia e ao direito internacional, o que foi rejeitado. “Esta resolução inclui igualmente formulações que podem desviar as negociações em curso, em vez de apoiar todos os caminhos diplomáticos que poderiam abrir caminho para uma paz duradoura”, foi a justificação da embaixadora adjunta Tammy Bruce. .A operação russa de quatro dias leva quatro anos, e sem fim à vista.Horas antes, os líderes dos países do G7 - o que inclui Donald Trump - reiteraram o “apoio incondicional à Ucrânia na defesa da sua integridade territorial e do seu direito de existir”. Ainda assim, a abstenção em Nova Iorque não deixa de ser um progresso face ao ocorrido há um ano, quando os EUA votaram contra a resolução de apoio à Ucrânia, para depois aprovar no Conselho de Segurança, uma resolução que ignorava a questão da integridade territorial da Ucrânia.Segundo a agência Bloomberg, os aliados dizem que Washington está a pressionar para que seja assinado um acordo antes do 4 de julho, dia em que os EUA comemoram 250 anos da independência. Além disso, aproximam-se as eleições intercalares, em novembro, pelo que Trump deseja mostrar um trunfo num tema que começou por ser consensual entre republicanos e democratas - o apoio à Ucrânia. Porém, nem o líder russo dá sinais de qualquer cedência nas suas exigências, nem o líder ucraniano irá assinar qualquer acordo com Moscovo sem que o Congresso norte-americano aprove e ratifique as garantias de segurança. .“A operação militar especial de facto transformou-se numa confrontação muito maior entre a Rússia e os países ocidentais, que tinham e continuam a ter como objetivo destruir o nosso país.”Dmitri Peskov.Este impasse, acusa o ministro da Defesa alemão, deve-se também a Trump. “Infelizmente, o presidente norte-americano influenciou o curso da guerra e a autoconfiança de Putin quando estendeu o tapete vermelho e o saudou como um amigo no Alasca, enquanto, ao mesmo tempo, retirava por completo o apoio militar à Ucrânia”, disse Boris Pistorius à Bloomberg. O ministro alemão disse ainda que Trump, autointitulado mestre das negociações, cometeu um erro tático ao excluir a possibilidade da adesão da Ucrânia à NATO. Influência chinesaO chanceler alemão, que nos últimos dias se mostrou pouco esperançado numa resolução rápida do conflito, vai explorar a via chinesa. “A cooperação é necessária para resolver as grandes crises do nosso tempo. Isto aplica-se aos nossos esforços para pôr finalmente fim, após quatro anos, à guerra de agressão levada a cabo pela Rússia contra a Ucrânia. A China tem uma grande oportunidade de exercer a sua influência neste domínio”, disse Friedrich Merz pouco antes de embarcar para Pequim. “A voz de Pequim é ouvida, inclusive em Moscovo. Vamos discuti-lo durante a minha visita”, garantiu.A China afirma-se neutral perante a guerra, mas durante os anos da invasão reforçou as relações bilaterais com a Rússia para uma parceria “sem limites”. Apesar de não vender diretamente armamento ou material militar, tem sido um fornecedor de bens de dupla utilização e um comprador de petróleo. Mais do que uma vez, Zelensky e a sua equipa têm criticado a posição chinesa. Na terça-feira, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou que o seu país apoia todos os esforços destinados a uma resolução pacífica da guerra na Ucrânia e defende a continuação do diálogo. Uma posição, disse Mao Ning, que é “objetiva, justa e óbvia para todos”, apesar de chamar à guerra de “crise ucraniana”.À margem211 mil crimes de guerraO procurador-geral da Ucrânia Ruslan Kravchenko, em balanço dos quatro anos de invasão ao Le Monde, disse terem sido registados 211 mil crimes de guerra em 241 mil delitos envolvendo a Rússia. Foram emitidas 800 acusações, e 240 indivíduos condenados à revelia por crimes de guerra, o que inclui homicídios, torturas, violência sexual, saques, bombardeamentos indiscriminados, entre outros. E, em colaboração com o Tribunal Penal Internacional, foram emitidos seis mandados de detenção de dirigentes russos, incluindo Vladimir Putin.Moscovo acusa Paris e LondresO serviço russo de informações externas (SVR) acusa a França e o Reino Unido de preparar o fornecimento à Ucrânia de material para ter uma bomba nuclear ou uma “bomba suja”, e que a Alemanha teria recusado participar em tal plano. “As elites britânicas e francesas não estão dispostas a aceitar a derrota. Consideram que a Ucrânia precisa de uma ‘arma milagrosa’. Kiev poderia obter condições mais favoráveis para o fim dos combates se possuísse uma bomba nuclear, ou pelo menos uma ‘bomba suja’”, diz em comunicado o SVR. Kiev, pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, desmentiu as “alegações absurdas”.Negociações em dúvidaO chefe do gabinete da presidência ucraniana Kyrylo Budanov confirmou que a parte ucraniana está pronta para uma nova ronda de negociações, a ter lugar na sexta-feira e no sábado. Já o Kremlin disse desconhecer quando e onde poderá decorrer um novo capítulo de conversações.