Entre ameaças russas, Helsínquia diz sim à NATO

Vizinho nórdico da Rússia vai abdicar da neutralidade face ao momento político e militar. A Suécia deverá tomar a mesma decisão durante o fim de semana.

Na véspera, o antigo primeiro-ministro Alexander Stubb disse que a Finlândia tinha "99,9% de probabilidades" de aderir à NATO. Na quinta-feira, através de um comunicado conjunto do presidente Sauli Niinisto e da primeira-ministra Sanna Marin, o restante 0,1% foi riscado. "A adesão à NATO vai reforçar a segurança da Finlândia. Como membro da NATO, a Finlândia vai reforçar a aliança de defesa no seu todo. A Finlândia deve solicitar a adesão à NATO sem demora", subscreveram os dois dirigentes, para irritação - esperada - de Moscovo, que voltou a lançar ameaças. Vários parceiros europeus saudaram a medida, enquanto se espera que a Suécia siga o mesmo caminho nas próximas horas.

Um comité especial anunciará no domingo a decisão formal de Helsínquia sobre a proposta de adesão, que seguirá para Bruxelas, a sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). O seu secretário-geral, Jens Stoltenberg, prometeu aos finlandeses uma receção calorosa e voltou a comprometer-se com um processo de adesão "suave e rápido".

O último país a receber o cartão do clube, a Macedónia do Norte, esperou um ano. Mas o momento é diferente e exigirá uma outra agilidade dos 30 membros, que têm de ratificar a proposta por unanimidade, nos respetivos parlamentos, depois de ser aprovada, muito provavelmente na cimeira de Madrid, nos dias 29 e 30 do próximo mês. É que a cláusula de defesa mútua só entra em vigor a partir do momento em que os documentos finais são entregues em Washington, ao Departamento de Estado, depositário do tratado.

Até lá, esperam-se ciberataques, violações do espaço aéreo e campanhas de desinformação por parte da Rússia. Mas não mais do que isso. "Ninguém argumentaria seriamente que é provável que a Rússia invada a Suécia ou a Finlândia se se candidatarem à adesão à NATO, porque a Rússia claramente não tem os recursos necessários. Neste momento, não só está presa na Ucrânia, como está a dar um espetáculo muito pobre. Portanto, agora não seria o momento para a Rússia retaliar militarmente contra a Suécia ou a Finlândia", comenta à Deutsche Welle Elisabeth Braw, investigadora do American Enterprise Institute .

Há quem tema outras reações. Moscovo poderá ser tentada a bloquear tecnicamente o processo de adesão, uma vez que os países com um conflito em curso são impedidos de aderir à organização. Para Charly Salonius-Pasternak, a Rússia pode tentar "parar o processo de candidatura ocupando uma ilha ou um pedaço de terra", diz à AFP o investigador do Instituto Finlandês de Relações Internacionais. "Isto é possível, pois tomaram recentemente decisões que não parecem muito racionais da nossa perspetiva", argumenta.

A retórica de Moscovo foi um tiro no pé. Na véspera, o presidente finlandês explicou que a mudança de paradigma deu-se depois de o regime de Vladimir Putin ter dito que era inaceitável a entrada dos dois países nórdicos na aliança de defesa, enquanto invadia a Ucrânia. Não houve, no entanto, uma tentativa de abordar o tema com mais diplomacia. Sem se referir diretamente à Finlândia, o ex-presidente e ex-primeiro-ministro Dmitri Medvedev, voltou a falar do risco de uma "verdadeira guerra nuclear" devido ao apoio da NATO à Ucrânia.

Para o porta-voz do Kremlin, a adesão da Finlândia é "definitivamente" uma ameaça. "A expansão da NATO e a abordagem da aliança às nossas fronteiras não torna o mundo e o nosso continente mais estáveis e seguros", disse Dmitri Peskov.

Por fim, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia disse que Moscovo seria "forçada a tomar medidas recíprocas, militares, técnicas e outras, para enfrentar as ameaças resultantes à sua segurança nacional". Pela voz de Medvedev, a Rússia já ameaçara com a deslocação de mísseis nucleares para o Báltico, embora essa ameaça não tenha surtido grande efeito, uma vez que o enclave de Kalininegrado já alojará esse tipo de armas.

A entrada de ambos os países está a ser visto com entusiasmo por parte dos aliados, e não tanto pelo facto de a fronteira com a Rússia duplicar em quilómetros. Estocolmo e Helsínquia, ao contrário da maior parte dos países da NATO, que viram no fim da União Soviética um motivo de desinvestimento, levaram a cabo um processo de modernização e reequipamento das forças armadas. Os finlandeses orgulham-se da sua artilharia, dos serviços de informações e de cibersegurança, enquanto os suecos gabam-se das suas capacidades aéreas e navais. Além disso, os finlandeses têm um exército que pode mobilizar 280 mil soldados, e 900 mil reservistas.

Para debater a entrada da Finlândia na NATO e a situação na Ucrânia, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, encontra-se hoje em Helsínquia com o seu homólogo Pekka Haavisto.

cesar.avo@dn.pt

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