"Em guerra, a vida normal tenta avançar, mas não consegue"

Por detrás da lente de um fotógrafo há um ser humano que vê e sente um conflito armado, perseguindo sempre o seu objetivo: informar o leitor. Entrevista informal entre dois colegas de trabalho que tentam compreender o incompreensível: a guerra, a dor, a perda.

À conversa, por meios digitais, com o repórter fotográfico, enviado especial do DN à Ucrânia (e que acompanha o jornalista Pedro Cruz), quis ouvir, de viva voz, como André Luís Alves vê a guerra através da sua lente, mas também o seu estado de alma e a forma como lida com as emoções quando desliga o botão do on e se abriga da ameaça russa.

Que olhar guardas do que já viste nesta guerra?
Entrámos pela fronteira da Polónia com a Ucrânia, e estamos em Lviv já há vários dias. O que tenho visto é que fotografar a guerra aqui é diferente do que está a acontecer nas zonas de conflito militar. Temos a vida normal a acontecer, mas com anomalia, ou seja, há soldados pelas ruas, há muita coisa fechada. A guerra apresenta-se como uma anomalia à realidade. A vida normal tenta avançar, mas não consegue. Não estamos em zona de conflito direto, portanto é uma vida que se está a preparar para um segundo possível ataque, mas esse ataque parece distante ou, por outro lado, imprevisível. Portanto, há preparações, há sirenes, mas nós vamos lidando com isso, até chegar ao ponto em que se torna quase normal, ou seja, ouvimos as sirenes e às vezes já nem sequer descemos para o abrigo, estamos a fazer outra coisa. Para já é essa a minha visão da guerra: a vida e a anomalia.

O que é mais difícil de fotografar?
São os militares e a polícia, as operações de fiscalização. A maioria das pessoas na rua percebe exatamente porque é que eu estou aqui. Pode haver algumas que têm uma atitude menos simpática, mas eu diria que, em geral, as pessoas na rua são fáceis de fotografar. Difíceis são as questões militares, questões de segurança, defesa civil, porque não sabem quem nós somos e, para muitos deles, é difícil perceber o que é que um jornalista pode aqui fazer. Inclusive , quando estava com o Pedro [Cruz] a atravessar a fronteira, estávamos a chegar ao primeiro checkpoint já à entrada de Lviv e um dos polícias disse que não podia estar ali, tinha de voltar para Portugal, queria apagar as fotos da minha câmara, queria ficar com a câmara, mas, a certo momento, falámos com ele, tudo acalmou e disse-me só para apagar as fotos sem agarrar na câmara. Até agora têm sido compreensivos, muito mais do que eu estaria à espera. Já tive situações em Portugal mais complicadas do que aqui, até agora.

Dizes que as pessoas são disponíveis para ser fotografadas. Sem receios, sem nervosismo?
A maior parte das pessoas estão disponíveis para ser fotografadas, e eu noto alguma fadiga, ou seja, as pessoas estão tão cansadas, estão tão chateadas com isto tudo, que, às vezes, só não deixam quando se sentem muito nervosas. Se se sentirem calmas, se sentirem que não estou, de algum modo, a violar a sua privacidade, parece-me que percebem perfeitamente porque é que eu estou aqui e, sinceramente, não me parece que tenham uma postura muito hostil. Por outro lado, há alguns outros momentos mais difíceis de fotografar, por exemplo as estações, as pessoas a chorar, enfim, alguma miséria, esses momentos são, para mim, os mais difíceis de fotografar. Tento sempre fotografar perto, ou seja, dar a hipótese de as pessoas me poderem dizer que não querem ser fotografadas, e portanto gosto de estabelecer esse pacto com elas. Se fazem uma cara feia ou não querem ser fotografadas, geralmente não as fotografo. Se aquela foto for tão forte que fale por si, aí não disparo mais, mas vou usá-la porque aquela foto contém informação que eu quero passar aos leitores.

As forças ucranianas confiam nos jornalistas ou temem que se façam passar por infiltrados russos?
Acho que as forças ucranianas estão a fazer um grande esforço para tratar da imprensa, ou seja, percebem que a imprensa faz parte de um sistema democrático e eles estão a lutar por esse sistema democrático, portanto, não estão a dificultar a vida. Pode é não haver infraestruturas ou que não estão totalmente preparadas para fazer uma coisa muito ágil, até porque também muitos jornalistas estão a chegar agora. Há um centro de imprensa, aqui em Lviv, as pessoas são muito prestáveis. Mas já enviámos papéis para acreditação há dois dias, ainda estamos à espera. Disseram-nos que em dois a cinco dias as acreditações vão chegar... Já falei com um jornalista ucraniano que vive cá e estive a ver como é a acreditação. Na prática, aquela acreditação permite muita coisa, permite fotografar durante o período de recolhimento, permite viajar de um lado para o outro, posso ir inclusive a zonas de conflitos com forças militares se tiver o acordo deles. Portanto parece-me que estão a fazer um grande esforço, aqui no centro de imprensa, onde eu estou a dar este depoimento, em Lviv. Há aqui, numa parede, uma foto de um militar a fazer um coração com as mãos. Isto revela muito o que é que querem passar. Até agora tem sido assim, daqui para a frente não sei, mas parecem-me muito prestáveis.

Exigem que exibas, constantemente, a carteira profissional?
Nos checkpoints que eu referi e em que fomos parados, aí pediram sempre o passaporte e a carteira profissional, mas apenas nestes locais. Nos outros, em que percebem que são jornalistas, dizemos só que somos jornalistas e as pessoas percebem perfeitamente. Só com forças policiais e militares é que é sempre pedido o passaporte e o cartão de imprensa.

Como lidas com as tuas emoções depois de fotografar os momentos mais duros?
O que mais me tem tocado, para além de toda a tristeza e de todo o drama que se tem visto, é a mobilização das pessoas, ou seja, como um país todo se mobiliza para lutar por um ideal, as pessoas estão... com malas da Prada a fazer cocktails molotov. São rapazes, raparigas que saem dos seus trabalhos, estão ali horas a fazer cocktails molotov, a cozinhar, a fazer redes de camuflado. É uma enorme mobilização que, muitas das vezes, quando estou a fotografar, tenho de parar um bocadinho, engolir em seco e fazer um esforço para não chorar. Ainda não me parti a chorar em lado nenhum, mas acho que esse momento pode acontecer em breve, mas para já ainda estou a lidar bem com isso. Também porque, eu próprio, percebo exatamente porque é que cá vim. Eu vivi aqui na Ucrânia, percebo bem a cultura, tenho alguma ligação emocional. Ainda ontem, encontrei uma amiga que vivia em Kiev e com quem me cruzei por acaso na rua. Tenho uma ligação emocional que me permite lidar. Se eles estão a lidar com isto, eu também tenho de conseguir. Portanto acho que é isto!

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