Diário de Guerra. O som pesado e duro do silêncio

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

Odessa, Ucrânia. São oito da noite, seis da tarde em Lisboa. A cidade cede ao recolher obrigatório. As ruas estão desertas, nem um carro passa. Faltam poucos minutos para a hora marcada e algumas pessoas aproveitam para passear os cães, antes de dez horas de obrigatoriedade de ficar em casa. De repente, instala-se um silêncio pesado, duro, um silêncio de medo. Parece que qualquer palavra dita em voz alta pode alertar o inimigo. E o silêncio acaba por ser demasiado ruidoso. A ausência total de ruído desperta ainda mais a audição. Qualquer som, no vazio, é amplificado. Como agora, agora mesmo. Voltam a tocar as sirenes e o silvar bruto e grosseiro do altifalante espalha-se através do ar como fogo na pradaria.

Se era para que o silêncio fosse bruscamente interrompido por um alerta, mais valia, então, o ruído do vazio.

Odessa está cheia de medo. Um medo como ainda não tinha visto, nem em Kiev. O ataque de segunda-feira e as ameaças de ontem, despertaram os habitantes para algo que já previam que fosse acontecer, mas que não tinha ainda sucedido. Precisavam de ver para acreditar. Agora que viram prédios de habitação atacados, sem qualquer critério, estão ainda mais assustados, inquietos e nervosos.

Ontem, cinco mísseis foram disparados por vasos de guerra russos estacionados ao largo da cidade. A informação oficial é que foram todos "intercetados" e que não há, para já, nem mortos nem feridos. Este ataque teria como alvo o aeroporto. Mas nos céus, no confronto entre a marinha russa e as antiaéreas ucranianas, o aeroporto permanece inteiro.

"Não sabemos como vai ser amanhã, agora estamos a viver um dia de cada vez, uma hora de cada vez", resume Kirill, trabalhador numa indústria de confeções que faz roupa especial para invernos rigorosos como o da Ucrânia. Confessa que, "agora", está assustado. E que com o toque das sirenes quase em permanência, será muito difícil que nos próximos dias a cidade não seja atacada com mais violência. Na sede provisória da Cruz Vermelha de Odessa, os voluntários tentam recolher a maior quantidade possível de material médico e de primeiros socorros. Kirril está obcecado com os garrotes. Só fala nisso, sabe tudo sobre o assunto. Desde o simples elástico grosso utilizado durante décadas por militares, até aos mais recentes modelos, fabricados por Israel, que permitem uma muito melhor aplicação, em dez minutos. Não só dá uma aula sobre como fazer um garrote, como desdobra o exemplo e a explicação com os vários tipos de material que tem ao dispor. No call center da Cruz Vermelha de Odessa, os voluntários vão-se juntando à volta dele. E absorvem cada palavra, cada detalhe, cada gesto. Na cave, outro voluntário começa um curso intensivo e rápido de primeiros socorros, aberto a quem quiser assistir. Na plateia estão dez pessoas. A organização mundial de socorro deixou vazia a sede no centro da cidade, e mudou-se para um edifício de escritórios. Como toda a gente sabe, russos incluídos, onde fica a sede da Cruz Vermelha, o diretor achou melhor procurar outro local. "Nesta fase, estamos a recolher todo o material que podemos. Recolher e armazenar. Se alguma coisa acontecer, estaremos preparados", resume Zharikov Yevhen, responsável pela Cruz Vermelha na cidade e no distrito de Odessa. Quando pergunto se conseguem garantir a retirada dos feridos, em caso de ataque, recorda que a Cruz Vermelha "não toma partido" e que garantirá, sempre que possível, corredores seguros para o transporte de feridos. Cá fora está uma ambulância cedida pela República Checa, ponta a usar. Ainda não foi preciso.

"Amanhã logo se vê".

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