De Lisboa à Polónia para deixar o sogro que quer lutar pela sua Ucrânia

O português Miguel Stanley levou o sogro até Cracóvia e arranjou-lhe transporte para Lviv. Na carrinha levou também material médico e bens de primeira necessidade.

Estes têm sido dias de emoção para o português Miguel Stanley. Casado há dez anos com uma ucraniana e pai de duas meninas que, como ele faz questão de dizer, são meio ucranianas, a invasão da Ucrânia pela Rússia tem tocado profundamente este médico dentista, levando-o a fazer coisas para si inéditas. "Fui à manifestação na quinta-feira, foi a primeira manifestação da minha vida, não sou uma pessoa política, e fui para mostrar alguma solidariedade aos meus sogros. Eu levei os dois para a frente da Embaixada da Rússia e fomos a pé para a Praça do Município, e fiquei muito sensibilizado", contou ontem ao DN, duas horas depois de ter chegado a Cracóvia, na Polónia.

A preocupação com o poderia vir a acontecer já tinha levado Miguel a ir buscar há três semanas os sogros à Ucrânia, trazendo-os para Portugal, onde têm visto de residência. Mas no último sábado tudo se precipitou. "Começámos a ver as coisas a escalar e estávamos a receber relatos diretos de familiares e amigos a enviarem vídeos para a minha mulher, quando o meu sogro disse que queria vir para ajudar na guerra. Nós tentámos dissuadi-lo, mas não havia meio de o fazer e percebemos que há momentos na vida de um homem em que o destino é maior, em que a vontade de ajudar é maior do que a vontade de sobreviver", recorda o dono da White Clinic.

Miguel Stanley começou a planear como levar o sogro, Victor, até perto da fronteira com a Ucrânia e, pensando no facto de ter amigos na Polónia, às 17.00 de sábado tomou a decisão de alugar uma carrinha e fazer-se à estrada. "Desafiei um amigo para me ajudar a fazer a viagem e aluguei uma carrinha muito grande. Fui à clínica pedir bens médicos, fui a uma farmácia, comprei antibióticos, gaze, e não parámos por aí. Comprámos powerbanks, walkie talkies, tudo o que poderíamos levar para ajudar esta gente. E arrancámos domingo às 11 da manhã", declara Miguel.

Pelo caminho, uns amigos portugueses do médico dentista ligaram-lhe a dizer que queriam ajudar. Apanharam um avião para Frankfurt, alugaram outra carrinha e, com a ajuda de colegas alemães, ainda fizeram duas paragens, em Ansbach e em Leipzig, para recolher mais bens. Desde material de emergência médica, como torniquetes, gaze, suturas, esterilização, sacos para sangue, a bens para as mulheres e crianças refugiadas, como leite em pó, biberões, pensos, fraldas, roupa e brinquedos. "Conseguimos encher duas carrinhas grandes e acabámos de depositar aqui em Cracóvia", explica o português, referindo que o ponto de entrega é no estádio onde joga o Wisla Cracóvia.

O passo seguinte era encontrar alguém que levasse Victor para Lviv, onde este "quer juntar-se ao esforço nacional para defender a pátria". "Ele tem 68 anos, é um paciente cardíaco, já fez duas cirurgias cardíacas, e ele diz que já devia ter morrido, que vai dar a sua vida pela pátria. Estamos todos orgulhosos dele. Claro que o tentámos dissuadir, mas ele questionava "quem sou eu para ficar aqui no conforto?", quando, volto a dizer, estão crianças a morrer. E o facto é que é impressionante ver isto", diz, emocionado. A solução chegou através de um colega polaco que tem contactos que estão a fazer o corredor de transporte do material médico para a Ucrânia. "A missão hoje era entregá-lo a essa equipa. Depois está nas mãos de Deus".

O regresso de Miguel a Portugal ainda não tem data marcada, embora o plano inicial seja de começar a viagem esta sexta-feira. O outro grupo de portugueses que se juntou a Stanley está a tentar encontrar refugiados ucranianos com passaporte biométrico, aparentemente uma exigência para as viagens aéreas, para os trazerem para Portugal de avião via Frankfurt. "Nós, que temos uma carrinha ainda com capacidade para seis pessoas, esperamos levar connosco seis refugiados sem passaporte biométrico e trazê-los em segurança para Portugal, onde temos muitas pessoas que já abriram as suas casas. Tem sido avassalador e tenho muito orgulho em ser português e ver o povo português a responder de forma tão positiva na ajuda a este povo fantástico".

À chegada a Cracóvia, Miguel Stanley falou ao telefone com a mulher e recebeu em primeira mão uma notícia que mostra a violência desta guerra, mas que poderia ter tido um desfecho muito pior. "Aí há duas horas, o edifício onde a avó da minha mulher vive, que é num bairro residencial, foi bombardeado. Eu conheço o bairro, fica a cerca de 20 minutos do centro de Kiev, é um edifício de apartamentos com dez andares. Ela tem 80 e poucos anos e tem dificuldades motoras. Ela estava a ligar à Sasha quando aquilo explodiu. Estava no nono andar, sem eletricidade, quase sem comida, sem água. Ela demorou hora e meia, a gatinhar, a descer as escadas até cá fora, onde, felizmente, foi encontrada por socorristas. Está, neste momento, segura num hospital de campanha. Alimentada e salva, por agora".

ana.meireles@dn.pt

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