Da tragédia à presidência da Índia.  "Um raio de esperança" chamado Murmu

Aos 64 anos, a ex-governadora de Jarcanda é a segunda mulher presidente do país e a primeira natural de um grupo tribal.

Grande favorita graças ao apoio do BJP, o partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi, Droupadi Murmu foi ontem eleita presidente da Índia. Tornou-se assim na segunda mulher a ocupar este cargo essencialmente cerimonial, e a primeira pessoa natural de um grupo tribal - no seu caso os santal.

"A vida de Droupadi Murmu, as suas lutas, o seu serviço precioso e o seu sucesso exemplar motiva todos os indianos", escreveu Modi no Twitter mal se soube que a antiga governadora do estado de Jarcanda conseguira o apoio de mais de metade dos deputados ao parlamento indiano. Aos 64 anos, esta mulher cuja vida ficou marcada pela tragédia pessoal - em menos de cinco anos, entre 2009 e 2014, perdeu o filho mais novo em circunstâncias misteriosas (chegou a casa dizendo-se cansado e indo dormir, tendo sido encontrado morto na manhã seguinte), o marido, um banqueiro (de ataque cardíaco), e o filho mais velho, num acidente de automóvel - torna-se assim um "raio de esperança para os nossos cidadãos, especialmente os mais pobres, marginalizados e oprimidos", escreveu ainda o primeiro-ministro.

Nomeada para a presidência pelo BJP, que detém a maioria dos deputados, Murmu derrotou facilmente o seu principal adversário, Yashwant Sinha, ele próprio um antigo membro do partido nacionalista hindu que ocupou no passado os cargos de ministro das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Sinha também saudou a vitória da rival: "A Índia espera que enquanto 15.ª presidente da república, aja como a garante da Constituição, sem medos nem favorecimentos".

Quando tomar posse na segunda-feira, Murmu será a segunda mulher a chegar à presidência da Índia, depois de Pratibha Patel, que esteve no cargo entre 2007 e 2012, e sucederá a Ram Nath Kovind, o segundo membro da comunidade dalit, os chamados "intocáveis", na base do sistema de castas indiano.

Nascida em 1958, numa família da tribo santal, na aldeia de Uparbeda, distrito de Mayurbhanj, estado de Orissa, a presidente eleita começou a carreira como professora, antes de enveredar pela política. Juntou-se ao BJP em 1997, tendo ocupado vários cargos no governo estadual, antes de chegar a governadora do vizinho Jarcanda.

Para os apoiantes de Murmu e para o BJP de Modi, esta vitória representa um triunfo dos povos tribais e um momento de descoberta para a sua comunidade, que geralmente carece de instalações de cuidados de saúde e educação em aldeias remotas.

Um dos maiores grupos tribais indianos, os santal encontram-se em vários estados de Jarcanda ao Bihar, de Orissa ao Bengala Ocidental, distribuindo-se ainda pelo norte do Bangladesh, pelo Nepal e Butão. Os santal falam santali, a mais comum das língua Munda. Segundo o linguista australiano Paul Sidwell, falantes de uma língua austro-asiática terão chegado à costa de Orissa, vindos da Indochina, há cerca de 4000 anos, tendo-se espalhado pelo sudeste asiático, misturando-se com as populações indianas locais.

Hoje em dia, os santal serão entre 7,5 e dez milhões (os números variam consoante as fontes). Tradicionalmente viviam sobretudo em zonas rurais, apesar de cada vez mais se mudarem para as grandes cidades.

Apesar das esperanças do governo e da nova presidente de que a sua eleição possa vir a melhorar a situação de uma comunidade muitas vezes discriminada num país onde apesar de proibido, o sistema de castas continua a moldar a sociedade, os partidos de oposição duvidam que a líder possa contribuir para fortalecer ou mudar a realidade.

Mesmo sendo o papel de presidente indiano sobretudo cerimonial, pode ser importante em tempos de incerteza política, como quando o Parlamento é suspenso.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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