Um ano depois de JD Vance ter ido a Munique garantir que “o que me preocupa é a ameaça interna, o afastamento da Europa de alguns dos seus valores mais fundamentais - valores partilhados com os EUA”, no sábado passado foi a vez de Marco Rubio subir ao palco da Conferência de Segurança que decorre todos os anos naquela cidade alemã. O secretário de Estado de Donald Trump afirmou que a América quer “que a Europa seja forte, acreditamos que a Europa pode sobreviver. Não queremos aliados fracos, porque isso enfraquece-nos. Queremos aliados capazes de se defender para que nenhum adversário seja alguma vez tentado a testar a nossa força coletiva.”A mensagem até pode ter apelado às raízes comuns entre EUA e Europa, mas se a analisarmos bem, não foi tão diferente da do vice-presidente Vance. Foi o tom que fez toda a diferença. Questionado na FOX News sobre as receções diversas que o seu discurso e o de Rubio receberam em Munique, Vance respondeu, meio a sério, meio a brincar: “Ouvi alguém dizer que eu era o polícia mau para que o Marco pudesse ser o polícia bom”. A ideia de “polícia bom e polícia mau” para descrever Rubio e Vance pode até nem ser totalmente nova, mas foi desenvolvida há dias por Stephen M. Walt, professor de relações internacional na Harvard Kennedy School, num artigo na Foreign Policy, onde este compara a diplomacia americana a um interrogatório da polícia, como vimos tantos na série de televisão Lei e Ordem. A verdade é que Rubio e Vance são apontados pelos analistas políticos como os mais prováveis candidatos à sucessão de Trump, numas ainda longínquas presidenciais de 2028. E o secretário de Estado tem feito questão de não desafiar o vice-presidente, tendo mesmo já afirmado que não avançará se Vance for candidato. O próprio Trump vai alimentando a rivalidade, afirmando que ambos seriam candidatos “fantásticos”, mas sem avançar qual prefere para garantir o seu legado. O que parece certo é que Rubio se tem ido posicionando. E pode ter agora uma oportunidade para concretizar a paixão que inspirou toda a sua carreira política: ver chegar ao fim o regime comunista que há 67 anos controla a Cuba dos seus pais. Com a economia cubana em queda livre depois de os EUA terem suspendido as entregas de petróleo estrangeiro à ilha, a 29 de janeiro, Rubio pode tentar usar a sua posição como secretário de Estado e conselheiro para a segurança nacional (dois cargos que nenhum membro da Administração acumulava desde Henry Kissinger nos anos 1970) para convencer Trump da necessidade de uma mudança de regime em Cuba, como os EUA conseguiram na Venezuela, ao retirarem Nicolás Maduro do poder numa operação militar a 3 de janeiro. Nascido em Miami em 1971, o filho de Mario e Oriales Rubio passou parte da infância em Las Vegas, no Nevada, onde o pai trabalhou num bar e a mãe como empregada num hotel. De volta à Florida, foi aí que fez os estudos, tendo-se formado em Ciência Política e Direito. A política cedo o interessou, tendo sido eleito vereador por West Miami em 1998, antes de, em 2000, conseguir um lugar na Câmara dos Representantes estadual. Depois de um breve interregno a dar aulas na Universidade Internacional da Florida, em 2010 é eleito para o Senado federal, onde se destacou pela consistência das suas posições conservadoras e se confirma como estrela em ascensão do Partido Republicano. Com a atenção mediática veio o escrutínio e surgiram notícias de que, ao contrário do que Rubio repetira com frequência, a sua família não fugira de Cuba para escapar ao regime de Fidel Castro. Os Rubio saíram da ilha em 1956, três anos antes da revolução que derrubaria a ditadura de Fulgencio Baptista. Voltariam à ilha em 1961 por um breve período, acabando por voltar de vez para os EUA por não se adaptarem ao regime comunista. Na altura, o senador desvalorizou o caso, dizendo na CBS: “O exílio não é um período de tempo. O exílio é uma experiência. É um sentimento. Para os meus pais, é a dor muito real de estarem permanentemente separados da nação onde nasceram.” Admitindo que nunca procurara saber pormenores da ida dos pais para os EUA até começar a pesquisar para a autobiografia An American Son (Um Filho da América), Rubio garantiu: “aqui em Miami, entre os exilados cubanos, o facto de terem chegado em 1956 não muda nada para ninguém.”Quem também emigrou para a América em 1956 foi o avô materno de Rubio. Pedro Victor Garcia entrou legalmente nos EUA, mas em 1959 voltou a Cuba, onde arranjou um emprego na função pública castrista. Em 1962, no entanto, voltou aos EUA, ilegalmente, tendo sido detido e ameaçado de deportação, mas acabando por ficar com estatuto de “parolee”, numa espécie de liberdade condicional. Em 2016, Rubio tenta a nomeação republicana para as presidenciais mas acaba por desistir ao perder para Trump - que durante a campanha lhe deu a alcunha de “Pequeno Marco” - as primárias na Florida. Apesar dos choques com o milionário, Rubio dá-lhe o seu apoio. E em 2024, quando volta à Casa Branca, o presidente escolhe o antigo crítico para chefe da diplomacia. Mas apesar de o seu atual gabinete estar a apenas uns passos do presidente, Rubio parece ainda não ter desistido de se sentar na Sala Oval. E aos 54 anos, este pai de quatro filhos, casado com uma antiga cheerleader, tem o tempo do seu lado..UE responde a Rubio: “Sabemos quem somos e o que defendemos”