"Colômbia declarou 30% do território marítimo como área protegida, e isso não foi feito por mais nenhum país"

É como um país de grande dinâmica que o presidente Iván Duque descreve a atual Colômbia. Fala muito do êxito económico, ao qual estão associadas empresas portuguesas, mas também realça o respeito pela democracia e o sentido social. E a propósito desta Cimeira dos Oceanos em Lisboa, sublinha que a Colômbia, banhada pelo Atlântico e pelo Pacífico, protege cada vez mais o seu mar, tal como faz questão de proteger a sua Amazónia, que é mais de um terço do território.

Foi no Pestana Palace, em Lisboa, um hotel cujas salas de grande requinte confirmam que originalmente se tratava de um palácio como o nome reivindica, que Iván Duque conversou no domingo ao final da tarde com o DN. Gostou de saber que o jornal, além de ser o diário mais antigo de Portugal, foi também casa de Eça de Queiroz e de José Saramago, como contei numa breve troca de palavras antes de ligar o gravador. E percebi o interesse especial quando, ontem, num encontro com empresários portugueses, o presidente colombiano falou das suas leituras de Eça, de Pessoa e de Saramago, realçando que se a economia liga muito os dois países hoje em dia, há também todo um lado mágico cultural muito importante. Tivesse tido oportunidade, e diria da admiração em Portugal por Gabriel Garcia Márquez, igualmente agora por Juan Gabriel Vázquez e outros novos valores da literatura colombiana. Ou como o recente filme de animação da Disney, Encanto, trouxe uma renovada curiosidade pela cultura e pela natureza do seu país. Gustavo Petro, um político de esquerda, será o sucessor de Iván Duque a partir de agosto. O legado que vai receber, e o atual presidente faz questão de o sublinhar, é de uma democracia sólida, uma economia de mercado pujante, e de um Estado com sentido social, a fórmula que fez a Colômbia ser hoje um caso de sucesso, um colosso de 1,1 milhões de km2 e mais de 50 milhões de habitantes, que é muito mais do que um país de cartéis de narcotráfico e de guerrilhas revolucionárias como há uns anos injustamente alguns a tentavam resumir. Iván Duque falou da EDP e da Jerónimo Martins na entrevista. No encontro com empresários, desafiou a que mais empresas portuguesas apostem na Colômbia, um voto de confiança de que apesar da alternância política as grandes linhas de continuidade serão respeitadas.

As relações entre a Colômbia e Portugal são no geral muito fortes e as económicas agora também, um fenómeno recente que tem vindo a acentuar-se, certo?
São muito fortes. Desde que cheguei à presidência tenho trabalhado com o Presidente Marcelo para que haja mais investimento e mais comércio e o comércio tem crescido muito. Além de mais, Portugal tem um papel muito importante em vários setores, entre eles está um que talvez seja o mais importante para mim - a transição energética. Há muitas empresas portuguesas a participar na Colômbia em concursos para projetos de parques eólicos e solares, em especial para o maior parque eólico que vai existir na Colômbia em que a EDP está a trabalhar. Isso mostra a importância das nossas relações no que respeita à transição energética e, por outro lado, já temos uma presença muito importante no negócio de retalho especialmente no caso da insígnia Ara da Jerónimo Martins, que se tornou numa das cadeias mais importantes do nosso país. São apenas dois exemplos do muito que podemos fazer em conjunto. Por outro lado, a Colômbia também aumentou muito as suas exportações para Portugal, as tradicionais e as não tradicionais.

O momento económico pós-pandemia na Colômbia é bom? Como é que está a previsão de crescimento do PIB para 2022?
No ano passado crescemos 10,6%. No ano de 2020 fomos uma das economias que menos perdeu e neste ano temos a expetativa de crescer 6,5%. Estamos entre as economias do mundo com maior crescimento neste ano. Temos também a maior redução do défice orçamental dos últimos 30 anos neste ano de 2022. Além de que reduzimos a pobreza multidimensional ao ponto mais baixo registado na Colômbia, além da taxa de trabalho informal mais baixa registada no país. Por outro lado, estamos a assistir a um crescimento exponencial do investimento estrangeiro direto.

Quais são os pontos fortes da economia colombiana?
São muitos. Em primeiro lugar, as obras de infraestruturas que estamos a fazer. Investimos mais de dez mil milhões de dólares nos últimos três anos, o que é o maior investimento e a maior inauguração de quilómetros de adjudicações, somente comparáveis com os primeiros 30 anos de adjudicações. Isso nos setores da construção que inclui o da habitação, com subsídios para as famílias de menos rendimentos; no setor das renováveis; no setor do comércio; e, também, no setor das indústrias criativas e culturais, que chegou ao ponto mais alto de mobilização de investimento já registado.

O processo de paz com as FARC foi importante para a estabilização da Colômbia e para este novo nível de crescimento económico?
Mais do que o processo, creio que a política de paz com a guerrilha que desenvolvemos trouxe resultados. Em que sentido? A ONU, que nos acompanhou na nossa política pública e também o Instituto Kroc, que é um instituto independente que veio monitorizar os problemas no nosso país certificam que houve o cumprimento desse processo de paz com legalidade. Tendo em conta que é um processo de 15 anos, podemos dizer que estamos "on track" depois de termos passado por uma pandemia. Nunca deixámos que a pandemia nos tirasse um único peso no que diz respeito a esse processo de reincorporação da verdade, justiça, reparação e, agora, repartição. Assim, penso que tem sido um progresso muito grande. Talvez um dos mais importantes, em termos de justiça social, é o de termos conseguido a maior entrega de títulos de propriedade rural registada no nosso país.

Hoje fala-se muito na Europa nos refugiados que chegam pelo Mediterrâneo e agora também nos refugiados ucranianos, mas o seu país tem tido que lidar também com uma crise de refugiados muito grande com a chegada maciça de venezuelanos. Como é que a sociedade colombiana tem conseguido lidar com o que creio ser bem mais de um milhão de refugiados?
Primeiro, temos tido a maior crise migratória do mundo e em vez de deixarmos que o esquecimento, a xenofobia ou a indiferença tomassem conta do assunto, nós decidimos responder-lhe, acolhendo-os. Conseguimos que mais de 1,8 milhões de cidadãos venezuelanos estejam em território colombiano com um estatuto de proteção temporária. Já entregámos mais de 1,2 milhões de cartões de proteção temporária aos cidadãos venezuelanos e esperamos chegar a todos os 1,8 milhões muito perto do fim do mês de setembro. Isso significa que podem abrir uma conta, entrar no sistema laboral, pedir um crédito e encontrar oportunidades de trabalho. Conseguimos isso com esta política fraterna, e demonstrámos que muitos dos pressupostos que alguns tinham não se cumpriram - o desemprego não aumentou, pelo contrário, recuperámos 7% dos empregos perdidos para a pandemia e registámos a menor taxa de empregos informais do mercado laboral da Colômbia nos últimos 40 anos. Isso demonstra-nos que foi uma política eficaz, responsável, humanitária.

Para um país que está longe da Europa, mas que está nos circuitos económicos mundiais, a guerra na Ucrânia afeta de alguma forma a Colômbia?
Afeta o mundo. Eu acredito sempre numa frase de Martin Luther King - O silêncio torna-nos cúmplices. Por isso nunca mantive o silêncio perante o genocídio que Putin está a levar a cabo contra o povo ucraniano. Assim, nós damos apoio humanitário em matéria de acolhimento de migrantes e estamos também a ajudar agora na questão da desminagem, porque o Kremlin semeou uma grande quantidade de minas antipessoais na Ucrânia. Estamos convencidos que a defesa da soberania da Europa é a atitude certa na História. Por isso questionei e condenei as ações de Putin e disse que a unidade da Europa e o acompanhamento da Europa neste momento de crise é fundamental para o presente e para o futuro da humanidade.

Esta crise com a Rússia também afeta muito a colaboração internacional na luta contra as alterações climáticas que necessita do acordo de muitos países. Portugal está a receber agora uma Cimeira dos Oceanos e a Colômbia tem dois oceanos, o Mar das Caraíbas e o Pacífico...
A Colômbia é dos poucos países bi-oceânicos que existem no mundo, mas vemos esta cimeira como um momento histórico para a Colômbia e para o mundo. Já conseguimos declarar 30% do nosso território marítimo como área protegida, e isso não foi feito por mais nenhum país. Anunciamo-lo nesta cimeira dos Oceanos porque isso vai ajudar também a proteger os recifes de corais onde habita a maior parte da vida submarina do nosso planeta. Falamos do que acontece na Colômbia para que seja replicado noutros países. Unimo-nos à Área Combinada Multinacional - Equador, Colômbia, Costa Rica, Panamá; e continuamos com a transição energética avançando nos veículos elétricos, na economia circular e com metas muito claras definidas pelo pacto da ação climática aprovado por unanimidade, para sermos um país neutro em carbono em 2050. Mas neste ano de 2022, declarámos 30% do território colombiano como área protegida.

Isso afeta também a Amazónia colombiana que é uma parte grande do território?
Nesta semana fechámos a contribuição e os aspetos financeiros do programa que se chama Herencia Colombia, onde vamos mobilizar centenas de milhões de dólares para proteger as áreas que nós consideramos que têm de ser protegidas na Colômbia. É a maior mobilização de recursos filantrópicos para esse objetivo, de maneira que a Colômbia, hoje, está a ser uma referência e isso implica proteger a nossa Amazónia. Porquê? Porque 35% do território colombiano é Amazónia. A proteção dessa importante territorialidade é para nós uma obsessão e estamos comprometidos com isso.

Como é a relação institucional e como vai ser a transição para o novo presidente colombiano, cuja tomada de posse está agendada para início de agosto?
Como nós gostamos como país democrático, transparente - será cordial. Estamos a entregar os resultados de uma gestão e desejamos a quem chega que tudo lhe corra bem para que possa continuar em frente. Deixamos uma Colômbia pró-mercado, pró-empresa, pró-emprego, pró-justiça social, com o maior crescimento da sua história, com o maior investimento social da sua história e, sobretudo, com projetos de energia, de habitação, de infraestruturas que são referências nos seus setores, pois chegaram ao ponto mais alto da nossa história recente. Isso motiva-nos e esperamos que o próximo governo não vá mudar essa tendência de crescimento que a Colômbia teve nos últimos quatro anos.

Há quem fale na eleição de Gustavo Petro, por ser um político de esquerda, como uma mudança enorme na tradição democrática da Colômbia...
É um caso particular. A política, como a economia é para ser dinâmica ou muito dinâmica. Hoje, ele está a convocar a coligação dos partidos que me apoiaram a mim e à presidência do Congresso para que seja a sua maioria. Portanto, se o está a fazer é porque, certamente, pensa algo de bom do trabalho tão valioso que fez o governo e o parlamento colombiano.

leonidio.ferreira@dn.pt

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