Castrações e bombardeamentos. O destino dos prisioneiros de guerra ucranianos

No espaço de horas os ucranianos viram um soldado ser castrado e abatido e 40 dos resistentes da siderurgia Azovstal morrerem numa explosão. Kiev quer TPI e ONU a investigar, Moscovo culpa os ucranianos.

Moscovo acusou a Ucrânia de matar os seus próprios heróis, ao afirmar que o bombardeamento a um centro prisional onde se encontravam militares ucranianos que sobreviveram ao cerco a Azovstal foi realizado pelas forças de Kiev. Os ucranianos reagiram com indignação e culparam o grupo paramilitar russo Wagner de ter conduzido a operação que se saldou em 40 prisioneiros e oito guardas mortos, e 130 feridos. Horas antes, um vídeo a circular nas redes sociais mostra um militar russo a castrar um prisioneiro de guerra ucraniano. Perante estes últimos acontecimentos, a diplomacia ucraniana apela para os parceiros reconhecerem a Rússia como um estado terrorista e apelou para o procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI) investigar as "atrocidades cometidas pelos militares russos".

A nota diária dos serviços de informações do Ministério da Defesa do Reino Unido deu conta de que o grupo Wagner assumiu funções na linha da frente da guerra como se tratasse de uma unidade do exército russo (uma "mudança significativa" em relação ao seu papel de ações a coberto, típico de um grupo mercenário), indicando que a "escassez de infantaria de combate" será o motivo e concluindo que é "muito improvável que o qrupo Wagner seja suficiente para fazer uma diferença significativa na trajetória da guerra". Horas depois, na região ocupada de Donetsk, uma explosão atingiu o centro de detenção em Olenivka, um edifício recente e para onde tinham sido transferidos há dias os prisioneiros retirados da siderurgia Azovstal, em Mariupol.

A Rússia de pronto culpa Kiev de ter usado no ataque os sistemas de lançamento múltiplo norte-americanos HIMARS, conhecidos pela sua precisão. E os serviços de informações ucranianos retruca e atiraram as culpas para o grupo Wagner, numa ação que diz não ter sido concertada com Moscovo. "De acordo com as informações disponíveis, foi realizada por mercenários do grupo Wagner sob o comando pessoal do seu proprietário, Yevgeny Prigozhin."

Para a direção dos serviços de informações militares ucranianos, o principal objetivo do ataque foi destruir o local para ocultar as condições em que eram mantidos os prisioneiros. "Sabe-se que uma missão de Moscovo deveria chegar no dia 1 de agosto para verificar as despesas dos fundos atribuídos e as condições de detenção dos prisioneiros. Uma vez que as condições reais do edifício e as condições de detenção dos prisioneiros não satisfaziam os requisitos da liderança russa, o problema foi resolvido através da destruição das instalações, juntamente com os ucranianos detidos no mesmo", afirmaram os serviços de informações.

A este argumento, juntaram outro, o de provocar "tensões sociais" na Ucrânia ao matar alguns dos 2500 homens que se renderam após semanas de resistência em Azovstal, tidos como heróis no país sob invasão.

Os ucranianos estavam ainda a digerir as imagens chocantes do tratamento dado a um militar ucraniano, castrado com um X-ato e depois executado com um tiro na cabeça. A deputada Irina Sovsun, que publicou o vídeo no Twitter, afirmou que os autores do crime de guerra pertencem ao batalhão checheno Ahmat.

O procurador-geral ucraniano anunciou ter lançado uma investigação, tendo lembrado que "o tratamento cruel de prisioneiros de guerra, e a sua tortura, incluindo mutilação física, é uma violação grosseira do artigo 13 da Convenção de Genebra".

Enquanto isso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros apelava à ação do procurador-geral do TPI em relação ao ataque ao estabelecimento prisional e o governo solicitou que a ONU, que serviu de mediadora na retirada dos soldados de Azovstal, condene o "crime hediondo" e lance uma investigação no local.

Vingança prometida

Os acontecimentos desenrolaram-se horas depois de o primeiro soldado russo julgado e condenado em Kiev por crimes de guerra ter visto a sua sentença de pena de prisão perpétua comutada para 15 anos de prisão.

Se a justiça ucraniana demonstra mecanismos legais apropriados a um Estado de direito, o comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia mostrou menor distanciamento perante as notícias sobre os prisioneiros ucranianos. "A Rússia é um estado terrorista. As atrocidades cometidas pelos russos contra os nossos prisioneiros de guerra provocam fúria. Vingaremos cada um dos nossos companheiros de armas mortos ou mutilados", prometeu Valeriy Zaluzhnyi.

Noutra latitude, e sobre outros prisioneiros, os chefes da diplomacia russa e norte-americana voltaram a falar-se, o que aconteceu pela primeira vez desde o início da invasão. Antony Blinken tomou a iniciativa com o objetivo de assegurar a libertação da basquetebolista Brittney Griner e de Paul Whelan, condenado por espionagem. Blinken disse ter pressionado Sergei Lavrov a que a Rússia honre o compromisso sobre o tráfego de navios com cereais no Mar Negro e reiterou que qualquer tentativa de anexação de território ucraniano não será reconhecida pelo resto do mundo.

cesar.avo@dn.pt

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