Várias dezenas de automobilistas e população tentaram esta quinta-feira abastecer num dos poucos postos ainda com combustível na capital moçambicana, com militares a tentar orientar o caos no local, em mais um dia de tensão pós-eleitoral no país. Caos que também está a ser sentido no Hospital Central de Maputo, que está a funcionar com apenas 60% do pessoal de saúde necessário e algumas das suas enfermarias já esgotaram a capacidade. .“Não sei se vou conseguir chegar até lá. Deve acabar antes o combustível na bomba”, declarou um automobilista, há mais de uma hora na fila que tomou conta das vias de acesso à praça da Organização da Mulher Moçambicana, centro de Maputo, enquanto um grupo de militares tentava abrir caminho para, pelo menos, as ambulâncias passarem. Pela frente tinha mais de 20 viaturas, bem como dezenas de pessoas com garrafões que tentavam abastecer diretamente..Aquele posto de combustível, da Galp, era, ao início da tarde, um dos poucos a funcionar em Maputo já que os que abriram ao início do dia foram fechando, por falta de combustível para venda. .Já o Hospital Central de Maputo (HCM) estava nesta quinta-feira a funcionar com apenas 60% do pessoal de saúde necessário e algumas enfermarias já não conseguiam receber mais pacientes - no total, tem capacidade para 1500 camas. Em causa está a agitação social que se verifica desde que o Conselho Constitucional proclamou o resultados das eleições de 9 de outubro na segunda-feira, com barricadas em várias zonas da capital, saques, vandalização de equipamentos públicos e privados. Entre quarta e quinta-feira, este hospital registou dois óbitos relacionados com as manifestações e 49 pessoas baleadas, entre outras ocorrências..“Continuamos a receber pacientes críticos, muitos deles vítimas das manifestações. O facto de recebermos muitos pacientes vítimas de trauma torna as nossas equipas exaustas. Há colegas que estão a fazer 48/72 horas”, declarou a diretora clínica substituta do HCM, Eugénia Macassa, acrescentando que “continuamos com falta de alguns consumíveis, pelos mesmos motivos, as vias de acesso, a facilidade para os fornecedores chegarem ao hospital, temos problemas com alimentação, temos problemas com combustível, estamos com enfermarias cheias de pacientes, principalmente aquelas que internam pacientes com trauma”..Criminalidade pode subir.Um balanço feito esta quinta-feira pela plataforma eleitoral Decide mostra que pelo menos 252 pessoas morreram nas manifestações pós-eleitorais em Moçambique desde 21 de outubro, sendo que só desde segunda-feira já perderam a vida 125 pessoas, das quais 34 na província de Maputo e 18 na capital. Há ainda registo de 26 mortos em Nampula e 33 em Sofala em menos de três dias. Somam-se ainda 4175 detidos, 137 dos quais desde segunda-feira..Pelo menos 1534 reclusos evadiram-se na tarde de quarta-feira da Cadeia Central de Maputo, de máxima segurança, disse o comandante-geral da polícia, afirmando tratar-se de uma ação “premeditada” e da responsabilidade de manifestantes pós-eleitorais em que morreram 33 pessoas. “Esperamos nas próximas 48 horas uma subida vertiginosa de todo o tipo de criminalidade na cidade de Maputo”, afirmou Bernardino Rafael, em conferência de imprensa na noite de quarta-feira, garantindo que entre os reclusos em fuga, dos quais apenas 150 foram recapturados, estão 29 terroristas, alguns “altamente perigosos”..com Lusa