Bruxelas é capital por um dia da frente contra Putin

Líderes da NATO, Conselho Europeu e G7 reúnem-se na Bélgica para concertarem esforços na ajuda à Ucrânia e mostrarem unidade face à ameaça do regime de Vladimir Putin. Aliança Atlântica duplica batalhões a leste e há mais sanções a caminho.

Esta guerra não vai terminar de forma fácil ou rápida", antevê o conselheiro de segurança nacional do presidente Joe Biden, Jake Sullivan, horas antes da chegada do norte-americano a Bruxelas. Na capital belga, convertida durante umas horas na capital da resistência à invasão russa à Ucrânia, Joe Biden participa em nada menos do que três reuniões de alto nível, com os aliados da NATO, os parceiros da UE e do G7. Uma visita carregada de simbolismo, na qual 36 países vão mostrar-se unidos na condenação da guerra, mas que também trará mais anúncios de medidas de ajuda à Ucrânia e de sanções ao regime de Vladimir Putin, um dia depois de o governo norte-americano ter concluído que os militares russos cometeram crimes de guerra.

"O presidente está a viajar para a Europa para garantir que nos mantemos unidos, para fortalecer a nossa determinação coletiva, para enviar uma poderosa mensagem de que estamos preparados e comprometidos com isto pelo tempo que for preciso", disse Sullivan.

Antes da partida para a Europa, Biden recusou antecipar o que vai dizer aos parceiros no que é visto como uma oportunidade histórica para o presidente norte-americano levar os EUA a liderarem de novo o Ocidente - um cenário impossível há um par de anos, quando o anterior presidente Donald Trump tratava os países europeus como rivais e criticava os seus líderes, em oposição aos elogios ao líder russo.

Na cimeira da NATO discute-se o reforço de tropas norte-americanas em permanência no leste europeu, um dia depois do anúncio da criação de quatro batalhões.

Esta nova fase das relações transatlânticas também não fazia parte dos desígnios da Casa Branca, mais preocupada com a pandemia e a recuperação económica, em termos de política interna, e na rivalidade com a China e o combate às alterações climáticas, no que respeita à política externa. "Consegue-se ouvir os pneus a chiar daqui", diz Jim Townsend, vice-secretário adjunto da Defesa durante a presidência de Obama, sobre a mudança de curso em Washington, em declarações à NPR.

Os países da NATO que pertenciam à cortina de ferro têm pedido reiteradamente um reforço de meios da NATO e alguns têm estado na linha da frente no abastecimento de armas e equipamento à Ucrânia. Segundo o conselheiro de segurança nacional de Biden, este vai discutir com os aliados se são necessárias mais tropas no Báltico e no leste europeu, em especial a longo prazo.

O secretário-geral da NATO disse que a ameaça nuclear é irresponsável. "A Rússia deve compreender que uma guerra nuclear nunca deve ser travada e que nunca poderão vencê-la."

Na quarta-feira, o secretário-geral da NATO antecipou que vai propor na reunião de emergência da Aliança Atlântica - na qual o presidente ucraniano irá participar por videoconferência depois de ter falado na véspera aos parlamentos do Japão e da França - o reforço de pessoal no flanco oriental europeu, com a constituição de quatro batalhões na Bulgária, Eslováquia, Hungria e Roménia. Após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 a NATO criou batalhões na Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia. "Isto significa que iremos ter oito batalhões da NATO, todos no flanco oriental, do Báltico ao mar Negro", disse Jens Stoltenberg.

O dirigente norueguês disse que neste momento há cem mil soldados norte-americanos na Europa e 40 mil soldados sob comando direto da NATO, a maioria no leste, e que irá pedir um reforço na ajuda à Ucrânia, que incluirá assistência na cibersegurança, e equipamento para proteção contra ataques químicos, biológicos e ameaças nucleares.

Na véspera, o Kremlin não excluiu a possibilidade de usar armas nucleares "em caso de ameaça existencial". A resposta de Stoltenberg é que a Rússia tem de parar com esse tipo de comunicações. "Isto é perigoso e é irresponsável. A NATO existe para proteger e defender todos os aliados e transmitimos uma mensagem muito clara à Rússia de que uma guerra nuclear não pode ser ganha e nunca deve ser combatida. Qualquer utilização de armas nucleares irá alterar fundamentalmente a natureza do conflito, e a Rússia deve compreender que uma guerra nuclear nunca deve ser travada e que nunca poderão vencê-la", declarou.

Ainda no que respeita à ajuda militar, Alemanha e Suécia, dois países que acabaram com a sua doutrina de décadas de não fornecer material letal, anunciaram reforços para a Ucrânia. Berlim vai enviar 2000 armas antitanque e estão 1700 mísseis terra-ar a caminho, enquanto Estocolmo vai enviar mais 5000 armas antitanque.

Nas reuniões com a UE e com o grupo de países mais industrializados, que se realizam à tarde, Joe Biden deverá anunciar mais sanções aos deputados russos, e sobretudo medidas concertadas entre os aliados para que a elite russa não escape às medidas. Não é de esperar, porém, um boicote europeu ao gás e petróleo russo. Uma hipótese na mesa é a de congelar as reservas de ouro russas, avaliadas em 130 mil milhões de dólares. Outra sanção em análise é a expulsão da Rússia do G20, tal como acontecera ao G8 após a captura da Crimeia, mas já se sabe que Pequim não está de acordo. Também será discutida com a UE uma abordagem comum à China, para que Pequim não preste ajuda militar nem económica a Moscovo. No dia 1 de abril há uma cimeira UE-China.

No terreno, em resultado de um acordo para a abertura de nove corredores humanitários, mais de 4500 pessoas saíram de Mariupol em automóveis particulares, mas ainda restam cerca de cem mil pessoas na cidade destruída e na qual os russos obtêm avanços. No geral, porém, "a ofensiva de Putin está encalhada apesar de toda a destruição que está a trazer dia após dia", como disse o chanceler alemão Olaf Scholz no Bundestag. As baixas russas, segundo uma estimativa da NATO, estão entre 7000 e 15000 soldados, e projeta que o número total de feridos, mortos e capturados se situe entre 30 mil e 40 mil.

Rússia atacou 64 hospitais

A nova frente de guerra desencadeada pela Rússia em 24 de fevereiro levou a destruição e morte a 64 unidades de saúde, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) Tedros Ghebreyesus. "Os sistemas de saúde, instalações e trabalhadores da saúde não são e não devem ser um alvo", afirmou. Moscovo nega bombardear outros alvos que não militares e de infraestruturas e em relação à maternidade e hospital pediátrico de Mariupol, atacada no dia 10, o Ministério da Defesa russa acusou a Ucrânia de uma "provocação encenada".

"Atingimos talvez por uma vez na vida um nível inédito de horror pelo que está a acontecer na Ucrânia e particularmente pelo que está a acontecer em Mariupol. E espero que seja esse o novo nível de horror que iremos expressar em todas estas situações em todo o mundo a partir de agora", comentou por sua vez Mike Ryan, diretor do programa de emergências da OMS, lamentando que os princípios básicos de ajuda e assistência humanitária estão a ser ignorados.

cesar.avo@dn.pt

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