Aqui, Kiev. Mandem os aviões!

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

Kiev, Ucrânia.
Nada é mais pesado, assustador, inquietante e tenso do que o silêncio. O som da ausência de barulho é mais ensurdecer do que um morteiro a cair ou um míssil a voar. Kiev está assim. Numa cidade com três milhões de habitantes, que devia fervilhar de vida, com pessoas, carros, fábricas, transportes públicos, o bulício próprio de uma grande capital, não se ouve nada. Um carro passa de vez em quando. O contador de segundos nos semáforos é o único som constante, repetitivo, indiferente a tudo o resto. Compassado. Segundo a segundo. Como se fossem batidas do coração da cidade. Nada mais. O metro está fechado, os transportes públicos praticamente não funcionam.

Nesta quarta feira, Kiev apenas ouviu, para lá de pequenas conversas em murmúrio dos poucos que ainda restam, o som opressivo, intenso, bélico, das sirenes. Tocaram por cinco vezes em poucas horas. Numa cidade muda, o altifalante que anuncia a possibilidade de um bombardeamento e a ordem para recolher a um abrigo é, em si, uma agressão. Rompe o silêncio, obriga a estar alerta e, depois, há de voltar quando o "ar" estiver "livre" e a cidade "fora de perigo".

Poucas pessoas ficaram em Kiev. São quase só homens, militares e voluntários, combatentes, polícias, bombeiros e médicos. A maioria deles está na linha da frente E ficaram as mulheres mais velhas, com muita idade, duras, resilientes, sem vontade de deixar a casa, que continuam teimosamente a fazer o que sempre fizeram na rotina dos dias: ir às compras e carregar os sacos pela rua. O postal das mulheres outrora soviéticas, hoje ucranianas, resguardadas do frio, mas não vencidas por ele: esse postal existe. Aqui, em Kiev.

Outros sons ecoaram nesta manhã na Praça da Independência. A orquestra filarmónica clássica ucraniana juntou-se para um arrepiante concerto ao ar livre no lugar onde, em 2004 e 20014, os ucranianos se concentraram para exigir um país democrático, independente e livre. Duas peças de compositores ucranianos encheram o ar de acordes afinados e harmónicos, apesar do frio, apesar da neve, apesar das sirenes, apesar da guerra. O maestro Herman Makarenko dirigiu os músicos e no final fez-se ativista. "As guerras acabam, mas a cultura nunca acabará. Já houve outras guerras, noutros tempos, mas a cultura, a arte, a música, resistimos sempre. Por isso estamos aqui hoje."

O concerto foi transmitido por todas as rádios e televisões ucranianas. E, claro, pela internet.

"Parem com a guerra. Por favor, parem com a guerra. Fechem os céus." A última mensagem do maestro Herman é comum na voz de todos os ucranianos.

Tocam as sirenes. Sergii e a namorada, Vitória, preparam-se para um selfie. São praticamente os únicos ainda na praça. "Hoje faço anos", explica ela. "Por isso, quisemos vir aqui tirar uma fotografia para guardar." Tem lágrimas. "Que dia horrível para se fazer anos", desabafa, como se pedisse desculpa por ter nascido a 9 de março. Sergii, que não fala inglês, segura-lhe na mão. Sempre.

Resolveram não deixar a capital, ao contrário da maioria dos jovens como eles. "Ficámos para ajudar no que for possível". "Por favor", pede ela, como quem fabrica um desejo, como se confidenciasse o presente que gostaria de ter, "por favor", junta as mãos, "por favor, parem a guerra". "Fechem os céus, por favor fechem os céus. Por favor. Peço à NATO que feche os céus. Ou, então, que mande os aviões."

Sergii não lhe larga a mão, já tiraram a selfie, seguem juntos, avenida abaixo. A orquestra já foi embora, o maestro também, a sirene calou-se. Ficam os militares, a neve, o vento. E o silêncio.

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