Situação na Ucrânia é exemplo de que "Europa está em perigo"

O chefe da diplomacia europeia salientou a importância de a Europa reforçar as suas capacidades e autonomia estratégica, dando a tensão a Leste como exemplo das ameaças que pairam sobre a Europa.

DN/Lusa
O Alto Representante da UE para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell© EPA/STEPHANIE LECOCQ

O Alto Representante da UE para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell, afirmou esta terça-feira que a ameaça de um ataque militar da Rússia contra a Ucrânia é "o último exemplo" de que "a Europa está em perigo".

Dirigindo-se a eurodeputados, em Bruxelas, num debate sobre a «Bússola Estratégica», o documento que vai definir a futura política de segurança e defesa do bloco europeu, atualmente a ser negociado pelos 27 com vista à sua adoção em março, o chefe da diplomacia europeia salientou a importância de a Europa reforçar as suas capacidades e autonomia estratégica, dando a tensão a Leste como exemplo das ameaças que pairam sobre a Europa.

"Enfrentamos desafios. A Europa está em perigo. Antes, quando se dizia isto, alguns riam-se, mas agora já se riem menos", observou o Alto Representante, admitindo que quando a nova «bússola» começou a ser esboçada ninguém tinha noção da dimensão dos desafios que o bloco europeu enfrenta, pois "não se passava nada nas fronteiras orientais da Europa e a situação no Sahel era bem melhor do que é agora".

Apontando então a tensão entre a Ucrânia e a Rússia como o mais recente exemplo de que a segurança da Europa está ameaçada, Josep Borrell aludiu a outros teatros de conflitos, designadamente no Médio Oriente, na região do Indo-Pacífico, a atual situação política nos Balcãs Ocidentais, e até o ciberespaço.

"Necessitamos de aumentar a nossa capacidade de atuar rapidamente e de forma decidida, e os acontecimentos recentes, aqui e ali, demonstram-no claramente"

O chefe da diplomacia europeia indicou que as discussões ao nível de ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros sobre a «bússola» prosseguem, pois falta designadamente "muito trabalho por fazer relativamente à definição de cenários, estruturas de comando e controlo, custos comuns, planificação antecipada e um processo de tomada de decisões mais flexível" relativamente à criação de uma força de 5.000 efetivos, mas manifestou-se confiante de que haja um documento pronto em março para ser adotado pelos chefes de Estado e de Governo dos 27.

"O que está claro é que necessitamos de aumentar a nossa capacidade de atuar rapidamente e de forma decidida, e os acontecimentos recentes, aqui e ali, demonstram-no claramente", concluiu.

Os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da UE tiveram já este ano mais uma discussão sobre a futura estratégia de defesa, por ocasião de uma reunião informal em Brest, França, entre 12 e 14 de janeiro, tendo na ocasião o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, indicado que a mais recente versão do documento já incorpora "algumas preocupações portuguesas", mas salientando que Portugal espera ainda uma maior atenção ao oceano Atlântico.

Gomes Cravinho voltou a salientar a importância deste documento, pois, "pela primeira vez, a UE assume-se como tendo relevância geopolítica e explica como essa relevância se deve demonstrar nos próximos quatro, cinco anos" e disse acreditar na sua adoção em março, como previsto, mas se possível com algumas alterações.

"Esta versão nova que temos agora é uma versão melhorada, incorporou algumas preocupações portuguesas, nomeadamente um reforço das partes dedicadas à segurança marítima, mas acreditamos que até março ainda pode sofrer algumas alterações positivas", disse, referindo-se ao mais recente 'esboço' do documento apresentado pelo Alto Representante Josep Borrell.

Portugal espera uma maior atenção ao oceano Atlântico

Gomes Cravinho explicou que, na atual versão do documento, "o Atlântico está um pouco ausente", o que não faz sentido, dada a sua importância.

"Temos o Mediterrâneo, temos referências ao Índico e ao Indo-Pacífico, falta-nos referências muito claras ao Atlântico, que é um oceano da maior importância geoestratégica para a Europa e que é cada vez mais um espaço de contestação e de concorrência entre grandes potencias, e por isso faz sentido que esteja presente", disse.

João Gomes Cravinho não deixou, contudo, de saudar a convergência entre os 27 numa matéria, de segurança e defesa, que não era por regra consensual.

"Creio que aquilo que nós verificamos agora é que o grau de convergência entre os europeus é tal que começamos a falar de aspetos de pormenor, e isso significa que não há risco de o documento não ser adotado em março", disse.