Ponte inaugurada por Putin é alvo anunciado por Kiev   

Enquanto o presidente ucraniano adverte para o perigo de se estar perto de instalações militares russas, o seu conselheiro assesta a mira para a ponte que liga a Crimeia à Rússia.

César Avó
A ponte de 19 km de comprimento, inaugurada com Putin ao volante de um camião, custou 3,6 mil milhões de euros.© Alexander NEMENOV / POOL / AFP

Volodymyr Zelensky recebe António Guterres e Recep Tayyip Erdogan em Lviv horas depois de ter avisado os compatriotas para se afastarem de bases militares e paióis russos, uma mensagem de ânimo aos compatriotas na senda das explosões ocorridas na Crimeia em alvos do ocupante, enquanto o seu conselheiro dá indicações de que a ponte que liga a Crimeia à Rússia está na lista dos alvos. Nas conversações entre o presidente ucraniano, o secretário-geral das Nações Unidas e o presidente turco temas como o acordo sobre o desbloqueio do Mar Negro, a central nuclear de Zaporíjia ou a "solução política" do conflito farão parte da agenda.

Horas depois de duas instalações militares na Crimeia terem sido atingidas, o presidente ucraniano agradeceu àqueles "que se opõem aos ocupantes", tendo exortado os ucranianos a afastarem-se das bases e dos paióis, e acrescentado que as explosões podem ter várias causas. "Mas todas elas significam a mesma coisa: a destruição da logística dos ocupantes, das suas munições, de equipamento militar e outro, e de postos de comando, salva a vida do nosso povo", disse.

O Ministério da Defesa russo atribuiu a responsabilidade das explosões no paiol na região de Dzhankoi a "sabotagem". Kiev não confirmou de forma oficial, mas fontes anónimas confirmaram a autoria do ataque. Além da mensagem encorajadora em forma de aviso por parte de Zelensky, o seu conselheiro Mykhailo Podolyak apelou para que a ponte que liga a Crimeia à região de Krasnodar, na Rússia, através do estreito de Kerch, fosse "desmantelada". "Não importa como, de forma voluntária ou não", escreveu no Twitter.

A construção, inaugurada em 2018 com Vladimir Putin a conduzir um camião, é na realidade uma ponte dupla paralela (rodoviária e ferroviária) e o símbolo máximo da anexação da Crimeia pelo regime russo. Podolyak recordou que a ponte é "um objeto ilegal, cuja construção não foi autorizada pela Ucrânia", ou seja, é um alvo militar legítimo.

Ao The Guardian, o conselheiro presidencial que liderou a equipa de negociações com a Rússia na Turquia, em março, explicou o que se pretende com estes ataques. "A nossa estratégia é destruir a logística, as linhas de abastecimento, os paióis e outras infraestruturas militares. É criar o caos dentro das suas próprias forças", referindo-se aos russos.

O conselheiro de Zelensky abre o jogo e diz que o objetivo é "criar o caos" dentro das forças russas com a destruição da logística e das instalações militares.

Podolyak disse ainda que esta contraofensiva poderá continuar nestes moldes nos próximos dois, três meses, embora volte a dizer que para a estratégia ter sucesso é necessário que as fileiras ucranianas recebam muito mais sistemas de lançamento múltiplo de mísseis do que os cerca de 20 que têm de momento. Em tal cenário, argumenta, o invasor ficaria em "escassez de suprimentos e de munições", tal como aconteceu na falhada invasão a Kiev. Esta, recorde-se, foi desencadeada a partir da Bielorrússia.

Com as posições russas estagnadas no leste e no sul, o comandante das Forças Armadas Valery Zaluzhny aponta para o perigo oriundo do norte, ou seja, do país controlado por Alexander Lukashenko. Em concreto, sobre a recente chegada de um grande número de sistemas de mísseis terra-ar, incluindo o S-400, em Zyabrovka, uma base aérea a pouco mais de 20 quilómetros da fronteira. Já os serviços secretos militares ucranianos mostram-se apreensivos quanto ao futuro próximo. "Vai haver uma situação muito tensa em toda a frente", previu Andrii Yusov em conferência de imprensa.

Enquanto as forças russas continuam a bombardear cidades como Kharkiv - causando três mortos -, Odessa ou Mykolaiv, o exército ucraniano anunciou a destruição de uma base militar em Nova Kakhovka, na região de Kherson, e com ela a morte de pelo menos 12 militares russos. Em Moscovo foi noticiada a substituição do comandante da frota do Mar Negro: Igor Osipov dá lugar a Viktor Sokolov no que é a exoneração de patente mais elevada desde o início da "operação especial".

"Solução política"

Na agenda do encontro de hoje entre Zelensky, Guterres e Erdogan em Lviv está a discussão do acordo entre russos, ucranianos e turcos, sob os auspícios da ONU, para a normalização do tráfego marítimo de alimentos no Mar Negro. Também vai ser discutida a situação na central nuclear de Zaporíjia, ocupada pela Rússia, e onde Kiev e Moscovo acusam mutuamente de bombardeamentos. Depois de Guterres ter instado o acesso de inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica, o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg disse o mesmo na quarta-feira.

No encontro dos três líderes, Guterres também falará sobre "a necessidade de uma solução política" para a guerra, adiantou o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric. O português também vai visitar Odessa, onde se situa um dos três portos ucranianos em atividade. No sábado, segue para Istambul, onde visitará o centro que coordena o transporte marítimo do Mar Negro.

cesar.avo@dn.pt