Nações insulares compram terra noutros países devido à subida do nível do mar

Há ilhéus no Pacífico cujas populações estão a mudar de casa devido ao aumento do nível do mar. Investigações indicam que nações insulares de atóis de baixa altitude, principalmente no Pacífico, como as Ilhas Marshall, Tuvalu e Kiribati, correm o risco de ficarem submersas até ao final do século.

Lusa
A espinha dorsal de muitas economias insulares é constituída pelo turismo e pelas pescas. Contudo, a pandemia abalou fortemente esses setores.© EPA/HOTLI SIMANJUNTAK

Nações insulares estão a usar os seus recursos financeiros limitados para comprar terras em países vizinhos, preparando-se para que os seus territórios sejam cobertos pelos mares, disse à Lusa Heidi Schroderus-Fox, representante da ONU.

De acordo com a diplomata da Finlândia, nações insulares estão altamente frustradas com o lento progresso que está a ser feito na ação climática, porque, para muitas nações com atóis particularmente baixos, "esta é uma questão de sobrevivência".

Heidi Schroderus-Fox, alta representante interina da ONU para os países menos desenvolvidos, países em desenvolvimento sem litoral e pequenos estados insulares em desenvolvimento (SIDS), adiantou, em entrevista à Lusa, que neste momento há ilhéus no Pacífico cujas populações estão a mudar de casa devido ao aumento do nível do mar.

"E há nações insulares usando os seus recursos financeiros limitados para comprar terras em países vizinhos, preparando-se para que as suas terras natais sejam perdidas no mar. Esse é o caso da nação insular de Kiribati, que compra terras em Fiji no caso de precisar realocar os seus cidadãos devido ao afundamento das ilhas", relatou.

"Essa é a realidade. Está a acontecer agora. As casas das pessoas estão a ser sacrificadas ao mar porque a ação climática global não está a mover-se com a rapidez e ousadia suficientes para evitar uma catástrofe climática", frisou, lamentando que as gerações futuras de ilhéus tenham de ver as suas terras a desaparecer e perguntar porque é que "nada foi feito quando a ciência estava clara e havia tempo para agir".

Além disso, investigações indicam que nações insulares de atóis de baixa altitude, principalmente no Pacífico, como as Ilhas Marshall, Tuvalu e Kiribati, correm o risco de ficarem submersas até ao final do século.

"Essas são as nações que menos contribuem para as emissões globais de gases de efeito estufa, mas que se encontram na linha de frente de múltiplas crises. Com baixa capacidade técnica e financeira para responder e se adaptar, cabe à comunidade internacional apoiar essas nações na construção de resiliência a choques ambientais, mas também económicos, agora e no futuro", reforçou.

Heidi avaliou que as escolhas individuais de cada um de nós tem um impacto significativo na vida das pessoas do outro lado do planeta, dando como exemplo a questão da poluição plástica, que tem um enorme impacto nos SIDS.

Para a diplomata, não devemos subestimar nossa própria influência individual na mudança, especialmente porque vivemos num mundo muito interconectado.

"Os SIDS podem ser a última coisa na mente de alguém quando atiram uma garrafa de plástico para uma lixeira, mas essa garrafa de plástico pode acabar no oceano. O plástico marinho é, infelizmente, um grande problema global, e essa garrafa de plástico poderia chegar ao uma nação insular distante onde eles teriam que lidar com a limpeza", indicou.

Em entrevista à Lusa a propósito da Conferência dos Oceanos, que decorrerá em Lisboa entre 27 de junho e 01 de julho, coorganizada por Portugal e pelo Quénia, a alta representante interina da ONU vê o evento como um catalisador para uma nova geração de parcerias oceânicas em prol das pequenas nações insulares, mas também um impulso na recuperação dos setores oceânicos que foram afetados pela pandemia de covid-19.

Através das suas zonas económicas exclusivas, os SIDS controlam cerca de 30% de todos os oceanos e mares e, por isso, a diplomata acredita que investir numa economia oceânica claramente faz sentido do ponto de vista económico.

"Há um argumento claro a ser feito para apoiar os SIDS na promoção de parcerias relacionadas ao oceano. As projeções sugerem que a economia oceânica pode chegar a mais de três biliões de dólares (2,95 biliões de euros) até ao final da década", argumentou.

A espinha dorsal de muitas economias insulares é constituída pelo turismo e pelas pescas. Contudo, a pandemia abalou fortemente esses setores.

Apenas nos primeiros quatro meses de 2020, as viagens internacionais turísticas com destino aos SIDS caíram 47%, de acordo com a Organização Mundial de Turismo da ONU.

Risco da pandemia e guerra desviarem atenção da catástrofe climática

Heidi Schroderus-Fox sublinhou ainda à Lusa que existe um "risco muito real" de que as crises atuais, como a guerra na Ucrânia, "desviem a atenção do mundo de uma catástrofe climática".

A alta representante interina da ONU afirmou que também a pandemia de covid-19 trouxe impactos a vários níveis, que serão sentidos nos próximos anos.

"Inquestionavelmente, a pandemia trouxe um dos maiores choques em gerações, com grandes implicações económicas, sociais e geopolíticas nos próximos anos. Da mesma forma, todos vemos as manchetes de como a guerra na Ucrânia está a ter impacto nos preços globais da energia e na segurança alimentar, particularmente em África, que abriga 33 dos 46 países menos desenvolvidos do mundo", disse.

"Existe um risco muito real de que as crises atuais desviem a atenção do mundo de uma catástrofe climática, tanto em termos de impactos imediatos, como também pelo facto de alguns países planearem extrair mais combustíveis fósseis porque enfrentam níveis insustentáveis de dívida", alertou.

A alta representante da ONU frisou que os países menos desenvolvidos do mundo, os países em desenvolvimento sem litoral e os SIDS, num total de 91 países que abrigam pouco mais de mil milhões de pessoas, estão entre as nações mais vulneráveis do mundo neste momento.

Esses países já se encontravam a lutar contra os altos impactos da crise climática quando a pandemia de covid-19 surgiu e ameaçou levar muitos deles ao limite.

Além disso, enfrentam um duplo golpe de dívida externa crescente, agravada por grandes custos causados por desastres e vulnerabilidades estruturais.

"Os países em desenvolvimento sem litoral também estão a lutar contra uma infinidade de desastres climáticos: degradação da terra, seca, derretimento de geleiras, inundações e muitos outros. Já se olharmos para os SIDS, um único evento climático catastrófico pode acabar com anos, se não décadas, de desenvolvimento duramente conquistado numa questão de minutos", afirmou Heidi.

A alta representante deu como exemplo Dominica, o país do Caribe que foi atingido pelo furacão Maria em 2017, que causou danos equivalentes a 226% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Contudo, de acordo com a diplomata da Finlândia, existe um outro lado da moeda, sendo que estas crises que o mundo atravessa podem também ajudar-nos a concentrar a nossa atenção "mais diretamente em soluções para resolver a crise climática".

Uma das maiores sondagens de opinião pública sobre mudanças climáticas foi realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 2020 e mostrou que quase dois terços das pessoas em todo o mundo reconhecem as mudanças climáticas como uma emergência global, dados que deixaram Heidi Schroderus-Fox otimista.

A diplomata também se mostrou confiante com o número crescente de países que anunciaram compromissos para alcançar emissões líquidas zero nas próximas décadas.

Junta-se a isso o facto de o movimento juvenil ter "uma influência descomunal" ao pressionar os líderes mundiais por ações climáticas mais ousadas, declarou.