Destino incerto para os "heróis" da Azovstal após a rendição

Mais de 250 combatentes renderam-se, mas um número incerto ainda terá ficado na fábrica. Kiev fala em troca de prisioneiros, mas em Moscovo pressiona-se para que sejam julgados.

Susana Salvador
Imagem de um vídeo que mostra os ucranianos a serem revistados pelos russos depois de se entregarem.© AFP/MINISTÉRIO DA DEFESA RUSSO

O último bastião de resistência ucraniana em Mariupol estava esta terça-feira à beira de cair nas mãos dos russos, depois de o governo de Kiev decretar o fim da "missão de combate" na cidade portuária e dar ordens aos comandantes para "salvarem as vidas do pessoal". Na prática, isso significou que pelo menos 250 combatentes que há meses estavam na fábrica Azovstal se renderam aos russos, não sendo claro se alguém ficou para trás nos túneis - falava-se que estariam lá cerca de mil. "A Ucrânia precisa de heróis ucranianos vivos", disse o presidente Volodymyr Zelensky, na expectativa de poder efetuar trocas de prisioneiros, mas em Moscovo pressiona-se para que sejam julgados.

De acordo com o Ministério da Defesa russo, 265 membros do batalhão Azov e soldados ucranianos renderam-se na fábrica Azovstal. Destes, 51 estavam feridos e foram levados para um hospital controlado pelos separatistas pró-russos em Donetsk. Vídeos dos ucranianos a ser revistados antes de entrar nos autocarros que tinham o "Z", o símbolo da guerra na Rússia, ou a serem levados em macas, recebendo alguns logo os primeiros cuidados médicos, foram partilhados pelas autoridades.

Existe uma ligeira discrepância em relação aos números apresentados por Kiev, que dizia que 264 combatentes teriam sido retirados da Azovstal, dos quais 53 "gravemente feridos". Num comunicado, o Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia anunciou que a "guarnição Mariupol terminou a sua missão de combate" e que "o comando militar supremo deu ordens aos comandantes das unidades na Azovstal para salvarem as vidas do pessoal".

As autoridades ucranianas indicaram que "um procedimento de troca será levado a cabo para repatriar estes heróis ucranianos assim que possível". Na segunda-feira à noite, já o presidente Volodymyr Zelensky se tinha referido a eles como "heróis", dizendo que a Ucrânia precisava deles vivos e que esse era o seu "principal objetivo". Zelensky avisou contudo que o trabalho para os fazer regressar a casa "requer delicadeza e tempo".

O Kremlin garantiu que vai tratar os combatentes ucranianos que estavam na Azovstal de acordo com as normas do "direito internacional", mas o porta-voz Dmitry Peskov recusou dizer se serão tratados como prisioneiros ou criminosos de guerra. E não falou nada sobre uma troca.

Segundo a agência estatal RIA Novosti, o parlamento russo irá debater a possível proibição da troca de membros do batalhão Azov - que a 26 de maio o Supremo Tribunal poderá declarar uma organização terrorista - por soldados russos. Além disso, de acordo com a agência TASS, os combatentes que se renderam serão questionados pelo comité de investigação sobre "casos criminosos referentes aos crimes do regime ucraniano", havendo pressão em Moscovo para que sejam julgados.

"Os soldados do batalhão Azov foram desumanizados pelos meios de comunicação russos e retratados na propaganda do [presidente russo, Vladimir] Putin como "neonazis" durante a guerra agressiva da Rússia contra a Ucrânia. Esta caracterização levanta sérias preocupações sobre o seu destino como prisioneiros de guerra", alertou a Amnistia Internacional.

Em relação aos que continuam em Azovstal, há menos clareza, desde logo no seu número. As autoridades dizem que não vão dizer quantos soldados ficaram no complexo enquanto a "operação de resgate" estiver a decorrer. "A única coisa que pode ser dita é que o Estado ucraniano está a fazer todo o possível e o impossível" para salvar os soldados, indicou a ministra da Defesa. Hanna Malyar, em conferência de imprensa, destacou o heroísmo daqueles que resistiram durante estes meses - entramos hoje no dia 84 da guerra - dizendo que eles permitiram que os ocupantes saíssem de Kiev. A resistência em Mariupol, indicou, obrigou os russos a ficarem no sul e impediu que reforçassem o ataque noutras zonas do país, além de ter custado pesadas perdas a Moscovo.

Diálogo suspenso

À medida que a Rússia vai continuando a sua ofensiva na região do Donbass, no leste da Ucrânia, Kiev diz que as negociações de paz para um eventual fim do conflito foram suspensas. O governo ucraniano culpa os russos por isso. "O processo de negociação está em pausa", disse o assessor presidencial e principal negociador do lado de Kiev, Mykhailo Podolyak. "O objetivo estratégico dos russos é tudo ou nada", disse, alegando que Moscovo ainda não percebeu que a guerra "não está a decorrer de acordo com as suas regras, o seu calendário ou o seu plano".

susana.f.salvador@dn.pt