A França entre Macron II, a primeira mulher e o fenómeno Zemmour

O presidente centrista continua favorito nas sondagens à reeleição em abril. Valérie Pécresse entrou diretamente para o segundo lugar, ultrapassando Marine Le Pen e Eric Zemmour. Na esquerda, os candidatos multiplicam-se, com alguns a defender uma primária.

Muito aconteceu desde que em 1974 Arlette Laguiller se tornava na primeira mulher a candidatar-se a umas presidenciais francesas. Quarenta e sete anos depois de a militante trotskista, conhecida por começar os discursos dirigindo-se a "trabalhadoras, trabalhadores", lhes ter aberto o caminho, são hoje três as mulheres candidatas pelos grandes partidos ao escrutínio do próximo ano. Marine Le Pen, do Rassemblement Nacional (ex-Frente Nacional, de extrema-direita), a socialista Ségolène Royal e Valérie Pécresse, d"Os Republicanos (direita tradicional) ambicionam todas chegar ao Eliseu nas eleições de abril.

As sondagens parecem mostrar que os franceses estão prontos para eleger a sua primeira mulher presidente. Mesmo se até hoje só Le Pen, em 2017, e a socialista Ségolène Royal, em 2007, conseguiram passar à segunda volta. Um estudo Ifop para o Journal du Dimanche revela que oito em cada dez diz estar disposto a votar numa mulher. Mas será suficiente para derrotar o atual presidente, Emmanuel Macron? O centrista ainda não anunciou oficialmente a sua entrada na corrida. Mas continua a liderar as intenções de voto.

Mas está a ver a concorrência a crescer. Se por um lado Marine le Pen quer repetir a segunda volta de há cinco anos, desta vez derrotando Macron, a corrida a estas presidenciais tem sido pródiga em surpresas. A primeira foi Eric Zemmour. O antigo jornalista já condenado por incitação ao ódio e que elege a imigração muçulmana como o grande mal de França ainda não tinha confirmado a candidatura - só o fez a 30 de novembro - e já surgia em segundo lugar nas intenções de voto, ultrapassando pela direita Marine Le Pen.

A este trio da frente veio juntar-se a 4 de dezembro Valérie Pécresse. A presidente da região Île-de-France (que inclui Paris) e antiga ministra de Nicolas Sarkozy venceu as primárias d"Os Republicanos, tornando-se na primeira mulher candidata deste partido da direita tradicional às presidenciais. Nascida em Neuilly-sur-Seine a 14 de julho (sim, o feriado nacional em França) de 1967, a agora candidata presidencial foi criada em Versalhes numa família de intelectuais "um pouco originais", como a própria descreve. Apaixonada por Tolstoi e Dostoievski, aos 15 anos começa a aprender russo e vai para Ialta para um campo da juventude comunista. Mais tarde aprende também japonês, que aperfeiçoa enquanto estudante em Tóquio, em 1986, e no ano seguinte num estágio na Sony. Apelidada de "a loira" pelos rivais que a tentam desvalorizar, esta mãe de três filhos apaixonada por pugilismo entrou diretamente para o segundo lugar das sondagens - a última da Elabe para a BFMTV dá-lhe 17% das intenções de voto, atrás dos 26% de Macron, mas à frente de Le Pen com 16% e de Zemmour, com 13%.

Enquanto Macron parece ainda refletir sobre o tom a dar à sua segunda campanha presidencial - em 2017 bateu toda a concorrência numas eleições que ditaram o afastamento da segunda volta de todos os partidos tradicionais, com o descalabro visível dos socialistas refletido nos 6% do seu candidato Benoît Hamon - a esquerda volta a protagonizar uma pré-campanha caótica. Isto enquanto as candidaturas nesse campo político se multiplicam. A última a deixar no ar a hipótese de avançar foi Christiane Taubira. A antiga ministra da Justiça anunciou numa mensagem de vídeo publicada nas redes sociais que está "a considerar" concorrer à presidência. Mas se muitos veem na mulher que os franceses reconhecem pela aprovação da lei que reconhece o tráfico de escravos e a escravatura como um crime contra a humanidade (em 2001) e da lei do casamento de pessoas do mesmo sexo (2013) como a única capaz de unir as esquerdas, poucos acreditam que tal venha a acontecer. A Taubira (se avançar mesmo), Hidalgo e Arnaud Montebourg, todos da esquerda mais tradicional, juntam-se ainda candidatos da extrema-esquerda, como Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa), Fabien Roussel (Partido Comunista Francês), Nathalie Arthaud (Lutte Ouvrière) e Philippe Poutou (Novo Partido Anticapitalista). E ainda dois candidatos ecologistas: Yannick Jadot (Europe Écologie Les Verts) e Hélène Thouy (do partido animalista). Nenhum deles chega aos 10% nas sondagens.

Ora para minimizar a inevitável dispersão de votos que um sem fim de candidatos significa, alguns destes têm defendido umas primárias à esquerda, como é o caso de Hidalgo e Montebourg. Mas outros opõem-se-lhes ferozmente, como Mélenchon ou Jadot.

"A menos de quatro meses da primeira volta das presidenciais 2022, o cenário nunca foi tão incerto. Enquanto há vários meses se anunciava um duelo entre Emmanuel Macron e a extrema-direita - encarnada seja por Marine Le Pen ou por Eric Zemmour - desenha-se agora outra possibilidade: a de uma qualificação de Valérie Pécresse, candidata designada por Os Republicanos", escrevia há dias o Le Monde. E até abril muitas surpresas ainda podem acontecer.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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