"A crise na Ucrânia deixou claro que sem a Turquia na UE os desafios não serão facilmente superados"

De visita a Lisboa, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros e diretor para os Assuntos da União Europeia falou ao DN sobre a posição da Turquia em relação à guerra na Ucrânia, o processo de adesão do seu país à União Europeia e as exigências para aceitar a entrada da Finlândia e da Suécia na NATO.

A Europa encontra-se confrontada com uma guerra à sua porta, na Ucrânia. No início, a Turquia tentou fazer a mediação entre a Rússia e a Ucrânia. Ainda acredita numa solução diplomática para este conflito?
Desde o início da guerra temos estado ao lado da Ucrânia. Ao mesmo tempo, temos vindo a trabalhar em duas vertentes: a humanitária e a diplomática. Enquanto apoiamos ativamente os esforços internacionais para mitigar a situação humanitária, envolvemos ambos os lados do conflito com vista a pôr fim às hostilidades. As nossas boas relações com a Ucrânia e a Rússia têm sido fundamentais para este empreendimento diplomático. Infelizmente, os desenvolvimentos no terreno têm complicado o processo diplomático. Mas não podemos desistir da esperança da paz. Os canais diplomáticos têm de permanecer abertos. Manter vivo o diálogo é necessário para salvar vidas e prevenir novas destruições. Como disse o presidente ucraniano na semana passada, "haverá combates, mas o conflito só terminará definitivamente através da diplomacia".

Com a guerra, a Ucrânia está a pressionar para acelerar as suas ambições de adesão à UE. Como vê a Turquia a abertura que alguns Estados-membros estão a mostrar em relação à Ucrânia, quando o processo de adesão turco está à espera há décadas?
A Turquia é a favor da adesão de todos os países europeus à UE, se estiverem dispostos a adotar os valores europeus e uma vez que cumpram verdadeiramente as condições de adesão, incluindo os critérios de Copenhaga. Isto aplica-se igualmente à Ucrânia e a outros recentes países candidatos. No entanto, a política de alargamento da UE deve ser justa, objetiva e credível. A UE não deve criar discriminação a favor de certos países. Além disso, na sua política de alargamento, deve ter em conta os seus objetivos estratégicos a médio e longo prazo para enfrentar os desafios globais nos próximos 30-40 anos. Sejamos honestos: a atual estratégia de alargamento da UE falhou largamente. A Turquia foi mantida vários anos no limbo sob muitos pretextos. O mesmo se aplica ao processo de adesão dos países dos Balcãs. Isto tem causado um grave prejuízo à credibilidade da própria UE. Neste momento, a UE deve ter o cuidado de não dar a nenhum país uma posição privilegiada na adesão. Esta questão está de facto relacionada com a necessidade de uma estratégia de adesão coerente e credível para a UE.

"A atual estratégia de alargamento da UE falhou largamente. A Turquia foi mantida vários anos no limbo sob muitos pretextos [...] Neste momento, a UE deve ter o cuidado de não dar a nenhum país uma posição privilegiada na adesão."

Chipre continua a ser a principal questão no caminho da Turquia para a Europa?
É verdade que a questão cipriota continua a ser o principal obstáculo. Mas esta é uma ferida autoinfligida pela UE, que aceitou os cipriotas gregos como membros em 2004, apesar do seu esmagador "não" nos referendos para uma solução mediada pela ONU em 2004. Isto aconteceu apesar das importantes condições de adesão, tais como "boas relações de vizinhança", "resolução de disputas com os vizinhos através de meios pacíficos". Nenhuma destas condições foi aplicada aos cipriotas gregos. Foram dados meios aos cipriotas gregos para bloquearem qualquer melhoria nas relações Turquia-UE, incluindo o processo de adesão, e eles fazem-no entusiasticamente. Não sejamos ingénuos, pois os cipriotas gregos não são os únicos. Ao longo dos anos temos visto outros Estados-membros, especialmente a Grécia, desejarem avançar com a sua agenda política contra a Turquia. Na verdade, isto demonstra claramente a inerente fraqueza da UE na sua tomada de decisões em momentos críticos. Um Estado-membro ou, por vezes, uma fratura política marginal num Estado-membro pode bloquear as decisões estratégicas da UE pelos seus limitados interesses nacionais, à custa do interesse geral da UE. Acreditamos que chegou o momento de uma nova perspetiva sobre como a UE deve organizar a sua tomada de decisão interna sobre questões de importância estratégica, incluindo o alargamento.

Disse à Euroactiv que era o momento de voltar à mesa de negociações sobre a adesão da Turquia à UE e que, se a Turquia fosse membro do bloco, "a guerra na Ucrânia poderia ter sido evitada". Como?
O sistema global está a mudar rapidamente. Se a Europa quer permanecer como defensora das regras baseadas na ordem mundial e na economia de mercado aberta, tem de expandir a sua visão do mundo, em primeiro lugar e sobretudo para o continente europeu como um todo. Se tivesse sido suficientemente sensata para integrar a Turquia há uma década, hoje o Ocidente seria mais forte. Se a Turquia fosse membro da UE, a UE e a NATO agiriam em uníssono e criariam uma dissuasão mais forte. A agressão da Rússia à Ucrânia expôs a fragilidade da arquitetura de segurança europeia e a falta de coordenação entre a NATO e a UE, o que é, em parte, verdadeiro para o problema de Chipre. A perceção de uma UE fraca e dividida, as fissuras na NATO e nas relações transatlânticas, bem como a marginalização e o isolamento da Turquia do processo da UE, encorajaram a liderança russa a tomar medidas e a facilmente aumentar a pressão sobre o Ocidente. Estamos confrontados com desafios que exigem uma melhor cooperação em matéria de segurança e defesa, segurança energética, migração e economia, incluindo a conectividade. A crise na Ucrânia deixou claro que sem a Turquia na UE estes desafios não serão facilmente superados.

A expansão da NATO para leste é uma das razões que Moscovo diz estar a ameaçar a sua segurança. Mas agora tanto a Suécia como a Finlândia se estão a candidatar à adesão à NATO, mas a Turquia está a questionar a sua entrada. Que aspetos está a questionar?
A nossa posição sobre o pedido de adesão da Finlândia e da Suécia não tem qualquer ligação com a abordagem de Moscovo sobre o alargamento da NATO. O apoio da Turquia à política de portas abertas da NATO não é questionável. Mas a adesão à NATO não é apenas uma questão de segurança e defesa, também implica compromissos com valores e princípios, sendo a solidariedade entre aliados a mais fundamental. As nossas expectativas são claras: esperamos que cortem todos os laços com a organização terrorista PKK e as suas afiliadas e que atuem como verdadeiros aliados em todos os sentidos. Os aliados não podem impor restrições à venda da indústria de defesa a outros aliados. Estas expectativas são legítimas, como confirmou o secretário-geral da NATO. A NATO está empenhada na luta contra o terrorismo em todas as suas formas e manifestações, e se eles aspiram a tornar-se aliados, precisam de agir em conformidade. Estamos em contacto com ambos os países sobre esta questão. A 21 de maio, o nosso presidente falou com o presidente [Sauli] Niinistö e com a primeira-ministra [Magdalena] Andersson. A 25 de maio, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, embaixador Önal, e o porta-voz do presidente, embaixador Kalın, presidiram a uma reunião com delegações da Finlândia e da Suécia em Ancara. Transmitimos as nossas expectativas de uma forma muito aberta e franca. Esperamos que eles tomem certas medidas tangíveis e sustentáveis.

A Turquia recebe milhões de refugiados, principalmente da Síria, que sonham com a Europa. Como vê a atitude dos Estados europeus para com os refugiados ucranianos versus os refugiados sírios?
A Turquia é Europa - suponho que se refere ao resto da Europa. As fronteiras da Europa e da NATO começam nas fronteiras do Sudeste de Turquia. Estamos satisfeitos por ver que desta vez a UE agiu rapidamente e decidiu conceder proteção temporária aos ucranianos. Contudo, há muito mais pessoas em todo o mundo a fugir devido a conflitos ou perseguições. Proporcionar a estas pessoas a proteção necessária é também a nossa responsabilidade comum. Esperamos ver do resto da Europa a mesma abordagem humanitária a todos os refugiados, independentemente dos seus países, das suas religiões e cores. Precisamos de trabalhar em conjunto na gestão da migração. Atualmente, países como a Polónia, a República Checa ou a Eslováquia compreendem melhor como a Turquia se sente ao acolher 3,7 milhões de sírios e mais meio milhão de asiáticos, no total 4,2 milhões de pessoas. Esta é uma questão humanitária que só pode ser tratada com uma partilha de encargos europeia abrangente e uma estratégia de longo prazo. A Turquia e a UE precisam de trabalhar em conjunto, especialmente na Síria, no Norte de África, na Líbia e no Afeganistão, para melhor gerir a migração irregular.

"Atualmente, países como a Polónia, a República Checa ou a Eslováquia compreendem melhor como a Turquia se sente ao acolher 3,7 milhões de sírios, e mais meio milhão de asiáticos, no total 4,2 milhões de pessoas."

Esteve de visita a Portugal. Qual a importância do nosso país para a Turquia como parceiro na NATO, e não só?
Turquia e Portugal são aliados na NATO e dois parceiros próximos em fóruns multilaterais. Para além da nossa parceria, partilhamos a identidade mediterrânica e estamos nos dois lados do continente europeu. O apoio de princípio de Portugal à nossa adesão à UE é muito apreciado na Turquia, especialmente face aos novos desafios, pois acreditamos que a Turquia e Portugal têm grande potencial para promover as relações bilaterais em vários domínios, tais como comércio, investimento, gestão portuária e turismo, e cooperar a nível europeu e internacional.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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