A grande descoberta da vagina – que afinal se chama vulva – e desse grande mistério, o clítoris

Desde que a peça Os Monólogos da Vagina se estreou, em 1996, têm-se multiplicado as obras - pictóricas, literárias, de informação geral e
de autoajuda - com vagina no nome. A ideia é de que há um mundo para descobrir "ali em baixo" - e que, ironicamente, não se chama vagina.

Duas mulheres na casa dos 40 falam de pénis. De como uns são bonitos e outros são feios, uns direitos e outros tortos, uns grossos e outros finos. "Sabes que há na net uns murais com pilas", diz uma delas. "Com toda a variedade possível. Algumas são muito cómicas. Olha aqui." Abre o site no telefone. Observam e riem. "E de pachachas também há. É incrível como são diferentes umas das outras. Não fazia ideia de como há tantas diferenças." "Pois é", diz a amiga. "Porque basicamente nunca as vemos. A não ser que tenhas sexo com mulheres é uma coisa que não está propriamente à vista. Nem a nossa podemos ver na verdade. A não ser que uses um espelho ou sejas uma supercontorcionista." Ou, lembra a outra, que nunca tinha pensado nisso, "faças selfies". É um dia de verão, e as duas combinaram ir à praia com outra amiga. Chegadas lá, passam as três a tarde a tirar selfies das respetivas, a examiná-las e a mostrá-las, no meio de gargalhadas e de expressões de nojo. Espantam-se: "Eh pá, em tantos anos de vida nunca tinha visto tão bem a minha coisa. Que estranho, não é?"

É estranho, sim. E de algum modo simbólico: afinal, a sexualidade das mulheres tem historicamente uma tradição de ocultação, de não dito, de não explorado, de ignorado - como um continente submerso. Daí que tenham surgido nos últimos anos uma série de obras que visam, ou se anunciam como visando, "quebrar o tabu", "desfazer os mitos", "esclarecer as dúvidas", "desvendar os segredos". Ou "celebrar a vagina" - o último nos escaparates portugueses, da autoria de duas médicas norueguesas, Nina Brochmann e Ellen Støkken Dahl, que, dizem, "já vendeu um milhão de exemplares em todo o mundo", tem precisamente como título Viva a Vagina! Assim mesmo, com ponto de exclamação para sublinhar o entusiasmo. Numa das notícias sobre o lançamento, a 8 de outubro, garante-se: é "o livro que todas as mulheres têm de ler", porque "revela as maravilhas e os mistérios do sexo feminino". É aliás esse o subtítulo português do livro, que no original norueguês, lançado em 2017, se intitula Gleden med skjeden - que o tradutor do Google afiança querer dizer "a alegria da vagina". Anteriormente, ainda em 2019, fora lançado A Bíblia da Vagina, igualmente da autoria de uma ginecologista, a canadiana Jen Gunter, também esse logo a subir nos tops, e logo traduzido para português.

Afinal havia outra

Vagina, vagina, vagina - já em 1996 fora esse o termo usado no título de uma peça que seria considerada uma poderosa afirmação política (em 2006, no The New York Times, foi descrita como "provavelmente a mais importante peça de teatro político da última década"): Os Monólogos da Vagina, da americana Eve Ensler. Como foi a palavra escolhida pela ensaísta feminista Naomi Wolf para o título do seu livro de 2012 - Vagina, Uma Biografia. Sucede que - e lá voltamos ao simbólico - na verdade estes livros e esta peça não falam de vaginas, ou não falam sobretudo de vaginas. É que, como aliás os dois livros citados no início deste texto explicam (naturalmente, já que são escritos por médicas) a vagina é um canal, o canal vaginal. Aquilo de que na verdade se trata em todos estes casos quando se fala de vagina é da vulva - é dela que são as imagens, quando existem, pelo simples motivo de que a vagina não é fotografável - e do clítoris. Acrescentando assim ao mistério e tabu que visam desconstruir e desvendar um outro - o do motivo pelo qual até hoje, 2021, parece tão difícil chamar as coisas pelos nomes no que respeita à "maravilha lá em baixo" (o título feliz da edição inglesa do livro das médicas norueguesas - The Wonder down under).

"É engraçado como é que se usa só a palavra vagina. Quando me desafiaram para escrever um livro sobre a vagina, disse que só o faria sobre a vulva e a vagina." Quem fala é a ginecologista e obstetra Lisa Vicente, 52 anos, autora de O Atlas da V, publicado em setembro de 2019. O V, explica, também é de "vitória", a vitória de se dizer a palavra vulva. Ri: "Mandei vir vários livros sobre o assunto, e a maioria tem vagina no título. Como os célebres Monólogos, de resto. E a escultura de 400 moldes de vulvas em gesso [do artista americano Jamie McCartney], de 2008, também se chama The Great Wall of Vagina [a grande muralha da vagina]." Garante até ter tido, a propósito do livro, "jornalistas a perguntar 'qual é a diferença entre a vulva e a vagina mesmo?'" Há muito desconhecimento, conclui. "E uma cultura do silêncio, uma dificuldade em usar as palavras - porque estão ocultas na linguagem ou só são usadas como chacota. E há o facto de que enquanto o pénis é uma coisa 'exterior', sobre a qual há a noção de que são todos diferentes, a vulva, apesar de exterior, está mais escondida, até da própria pessoa. Muitas vezes uso um espelho nas consultas, para que as pessoas a vejam."

Normal pois que o seu livro tenha muitas imagens, o que, reparou, leva a que quem o folheie nas livrarias o feche logo "por vergonha": "Há a associação de imagens explícitas a pornografia e as pessoas ficam aflitas."Aflitas quando não indignadas: recorde-se que em fevereiro de 2009 foi notícia a apreensão, pela PSP de Braga, de um livro exposto em feira por a sua capa ser uma reprodução do célebre quadro A Origem do Mundo, de 1866, do pintor francês Gustave Courbet - teria havido quem considerasse a imagem, a do sexo de uma mulher, "ofensiva" e "pornográfica". O capital de choque e de revelação da imagem da vulva permanece - a ponto de a sua simples insinuação, quando umas calças ou leggings justas evidenciam o monte-de-vénus e aquilo a que em inglês se denomina por camel toe, ou pata de camelo, merecer remoque ou, até, reprodução em revistas e na net quando sucede a pessoas ditas "famosas". Porque será que a visão daquilo que faz parte da anatomia feminina parece agredir muito mais do que o volume, mais ou menos discernível, do pénis sob calças ou calções, esse de algum modo tanto mais motivo de orgulho e admiração dos outros quanto maior?

Nojo, cheiro, repúdio e estranheza

"O homem é conceptualizado como hipersexual. E há uma predominância da representação dos órgãos sexuais masculinos (veja-se os bonecos das Caldas, por exemplo), enquanto a representação da vulva está alocada à pornografia. Não há uma normalização", diz a psicóloga clínica e terapeuta sexual Patrícia Pascoal, 47 anos, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia. "As próprias mulheres desenvolvem uma relação de estranheza e repúdio com a sua vulva, até de nojo: do cheiro, do muco, da menstruação, dos pelos. Por algum motivo por exemplo em todos os anúncios relacionados com o período é tudo azul. Toda esta visão assética faz que o primeiro contacto e a visão primordial das mulheres em relação ao seu corpo seja numa perspetiva controladora. Há um discurso higienista. Não somos sociabilizadas de forma nenhuma para ter uma relação com os nossos genitais que seja exploradora e saudável e positiva."

O expoente dessa relação de estranheza, repúdio e controlo, a mutilação genital feminina - que nas suas várias formas, de ablação da parte exposta do clítoris ou também de parte dos lábios da vulva, visa determinar a ausência de prazer, de fruição sexual, nas suas vítimas - tem paradoxalmente uma extensão voluntária na "cirurgia plástica corretiva", que se tem popularizado recentemente e que visa tornar "bonitas", "mais jovens" e "mais apelativas" vulvas que se consideram "feias". "A ideia é sempre a mesma", nota Patrícia Pascoal: a da normalização dos corpos das mulheres. "Mas aqui como consequência de uma certa libertação: agora que começámos a olhar para a vulva, a trazê-la para a luz, achamo-la feia e queremos transformá-la na vulva de uma púbere, de uma adolescente. À libertação segue-se a prescrição."

O que pode ter como consequência, frisa esta terapeuta, a amputação do "circuito de excitação e prazer". Porque "ao cortar ali ou corrigir ali não sei o que estou a fazer." E não se sabe porque ainda há muito que não se sabe sobre os mecanismos do prazer da vulva, clítoris e vagina, como frisam as autoras do citado Viva a Vagina!: "Embora os anatomistas saibam desde o século XIX que o clítoris é um órgão maioritariamente subterrâneo, este conhecimento está longe de ser generalizado. Enquanto o pénis masculino é descrito pormenorizadamente em livros e manuais de anatomia, o clítoris permaneceu, em grande medida, uma curiosidade. Mesmo já em 1948, o manual Anatomia de Gray optou por não identificar o clítoris nas suas ilustrações."

Um órgão só dedicado ao prazer

É que, prosseguem as médicas norueguesas, "ainda não existe consenso sobre o que faz ou não parte do clítoris e como este funciona. Em contexto médico, isso é surpreendente. O que sabemos com certeza é que aquilo que a maioria das pessoas descreve como clítoris é apenas uma fração de um órgão muito maior que se estende pelo interior da pélvis, descendo de ambos os lados da vulva."

Outro adquirido é que, sendo o clítoris e o pénis "duas versões do mesmo órgão" - "o aparelho genital dos embriões do sexo masculino e feminino é idêntico até à 12.ª semana de gravidez" -, a cabeça do clítoris "é muito mais sensível do que a cabeça do pénis porque as terminações nervosas estão concentradas numa zona muito mais pequena", sendo "50 vezes maior". E é único órgão humano exclusivamente dedicado ao prazer, já que o pénis tem também a função de expelir a urina.

A voz de Cláudia Sousa tem algo de triunfal quando repete a informação: "Somos o único ser que tem um órgão específico para ter prazer." Com 45 anos, Cláudia trabalha há 12 no universo "maleta vermelha", da qual comprou em 2013 a representação para Portugal e para os países de expressão oficial portuguesa, à exceção do Brasil. O conceito, espécie de "reuniões tupperware" para falar de sexo e apresentar produtos eróticos, especificamente dirigido a mulheres, foi lançado em Espanha, e deu à empresária - que também lançou em 2019 um espetáculo de stand-up, como Cacau Frusoni, em que fala dos mesmos temas e está prestes a apresentar a sua primeira peça de teatro, Foda-se, Nasci Mulher, com a estreia prevista para 7 de novembro - mais que uma via profissional. "Quando comecei a trabalhar nisto, como assessora, tinha 33 anos e não tinha a certeza sobre se tinha já tido um orgasmo ou não. Não só passei a saber o que era como aprendi como ter orgasmos múltiplos."

Nesse seu caminho para o conhecimento deu-se conta, diz, do pouco que a maioria das pessoas sabe sobre sexualidade - incluindo os médicos. "Tenho por exemplo relatos de mulheres que tiveram cancro do colo do útero e se queixam ao médico de dificuldades sexuais e levam como resposta "teve muita sorte de conseguir sobreviver", como se a dimensão sexual fosse algo sem o qual elas pudessem muito bem passar".

A fazer lembrar a decisão de um tribunal português que considerou que a perda do prazer sexual numa mulher de mais de 50 não era muito relevante para efeitos indemnizatórios porque "já tinha tido filhos" (o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou a decisão evidentemente discriminatória), a atitude coincide com muitas de que Cláudia se dá conta. "Fui à Casa dos Segredos com a maleta vermelha e fiz uma pergunta às meninas sobre se fariam sexo oral a um homem e todas diziam 'na boa', e que não é preciso serem namorados. Já eles diziam que normalmente não faziam, só quando namoravam. O homem tem o direito de ter prazer e ela não tem o direito." Aliás, garante, "muitos homens não sabem fazer sexo oral a uma mulher. E não sabem muita coisa sobre eles próprios, também. Na verdade eles acham que sabem tudo mas não sabem nada". Dá uma gargalhada: "Se calhar vou abrir uma escola sexual, com duas disciplinas: sexo oral feminino e masculino."

Ary Pinto, 33 anos, e Isaac dos Santos, 23, não abriram uma escola mas quase: criaram um canal no YouTube e depois um Instagram sob o nome T Guys Cuddle Too (que pode ser traduzido como rapazes transexuais também são meigos, ou também abraçam) para falar sobre a sua experiência de homens transgénero, no caso homens transgénero com vulva, clítoris e vagina pelo menos por enquanto (Ary não pensa fazer o ciclo de cirurgias a que costuma dar-se o nome de "mudança de sexo"; Isaac não sabe ainda).

Um dos objetivos do canal, informa Ary, é "dissociar o ter uma vagina e uma vulva de ser mulher" e contribuir para aquilo que veem como "um grande empoderamento, uma conquista da liberdade das vulvas e vaginas". Estamos a chegar, acreditam, "àquele ponto em que a vagina e a vulva têm de ter prazer, não são só um meio para dar prazer, ou parte de um "sistema reprodutor", um momento em que deixamos de estar subjugados e subjugadas ao falocentrismo. Está a desaparecer o tabu".

Veem estas conquistas como recentes: "Isto tem uns anos apenas. Há cada vez mais mulheres cisgénero [ou seja, cuja identidade de género corresponde ao género atribuído quando nasceu - ao contrário das pessoas trans] a falar de sexo, de prazer, de menstruação." Dão como exemplo a peça Hip Pussy Point of View, de Piny/Anaísa Lopes (em cena no CCB nesta sexta e neste sábado, no festival Cumplicidades).

Ary é film maker (realizador, editor, argumentista) e Isaac barbeiro, mas o ativismo tem-nos levado a falar em escolas, quer secundárias quer de ensino superior. As pessoas, dizem, "ficam surpreendidas por termos um ar normal, falarmos muito à vontade e mandarmos muitas piadas de humor negro sobre nós. Ficam sem saber se podem rir ou não". Riem. "Os conceitos evoluem e estamos num momento crucial. Vamos parar de ter padrões e estereótipos de género - estamos num excelente momento para dissociar o azul do menino e o rosa da menina, para combater a pressão social sobre os papéis de género, deixar de usar expressões como 'coninhas'. E de achar muito engraçado um menino de 2 anos mexer na pilinha e se for uma menina a mexer no pipi achar uma porcaria."

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