"O infante D. Henrique era de um anti-islamismo irredutível"

O projeto de expansão a partir da Europa era irrealizável sem o conhecimento da geografia do continente africano. A obstinação de D. Henrique contra os "infiéis" contou com uma bula papal à medida e um plano de avanços gradual que se desconhece. (Texto originalmente publicado a 31 de agosto de 2019)

Não é a primeira vez que o engenheiro Joaquim Ferreira do Amaral publica uma investigação histórica inesperada e desta vez a surpresa surge com A Geografia do Infante D. Henrique, na qual esclarece em definitivo muitos dos mitos cartográficos - e até historiográficos - sobre a ciência dos Descobrimentos e a pessoa de um dos mais importantes protagonistas da história de Portugal, o infante D. Henrique. Desde logo deita para o lixo as críticas a um Museu dos Descobrimentos: "Só o facto de ter-se levantado o debate já é ridículo." Argumentos: "Para fazer a expansão da Europa foi necessário um testemunho presencial de zonas inteiramente desconhecidas por toda a humanidade exceto os locais. Um fenómeno importantíssimo para humanidade, sendo os portugueses os grandes personagens desse movimento. Então, porque não fazer um museu?"

Escrever estas mais de 500 páginas exigiram do autor severas medidas de contenção, que se reveem em alguns "ses" e hipóteses colocadas na narrativa. Explicação: "Se tivermos um travão interno no que respeita à fantasia, acabamos por ter "ses" e colocar hipóteses. Talvez os leitores de história não estejam habituados, mas entendo que assim é mais séria e credível a investigação. Esta é uma época da nossa história que interessa a toda a gente, pois é um dos temas do nosso passado que têm dimensão internacional." Acrescenta: "Como digo no fim do trabalho, é sob a ação direta do próprio Infante que se deu uma alteração radical da história da humanidade. Os séculos a partir daí são europeus - não interessa se são bons - e essa nova realidade deveu-se aos portugueses."

Descreve o infante como responsável por um ataque frontal ao islamismo. Não é por norma o que se diz de D. Henrique?
O que deduzo é que na origem da expansão esteve uma tentativa do infante de atacar o islamismo. Que já tinha realizado noutras frentes com relativo sucesso em Ceuta ou com grande fracasso em Tânger, sendo que a partir daí tenta executar uma manobra diferente para atacar o islão e diminuir a sua influência na África negra. Essa atitude é clara na documentação - não escrevo nada sem suporte -, pois o que pretendia está de acordo com a sua personalidade: tinha uma segunda natureza, porque o infante era de um anti-islamismo perfeitamente irredutível. Nunca teve uma palavra de paz ou de conciliação em relação ao islamismo. Considerava que era sua obrigação, por razões provavelmente religiosas e políticas - havia uma ferida aberta com Portugal, que era o reino da reconquista e tinha nascido da luta contra o islão - e levou essa missão a sério. O que era normal no seu tempo, no entanto fez mais do que os outros porque não evitou por um instante o combate ao islão.

Para o qual contou com a bênção providencial de uma bula papal!
O Papa Nicolau V estava muito apertado na altura porque o islamismo avançava. Tinha havido a queda de Constantinopla em 1453 e todo o Ocidente estava ameaçado. Então, o Papa agarrou-se ao que era a melhor esperança de vitória sobre o islão e fez a bula Romanus pontifex, a mais fomentadora a favor dessa tentativa do infante. Foi, obviamente, um grande apoio para D. Henrique, seguido por outros pontífices pois era uma campanha a favor da cristandade.

Há sempre da sua parte a vontade de encontrar uma justificação para o que o infante fez, mesmo que lhe faltem argumentos documentais. Não existia um plano?
Fala-se sempre muito dos planos do infante e das suas intenções, contudo a história - e estes livros - precisa de documentos em que tudo esteja explícito. E há muito poucos documentos, daí que aquilo que se deduz é indiretamente do que ele fez. Se tinha um plano ou não, desconhece-se. À partida pensa-se que sim, pois ninguém avançaria num movimento daquela dimensão, tão custoso e difícil, sem um plano. Era necessário encontrar uma justificação e, na minha opinião, ela existe. Afinal, há vários sintomas importantes e um deles é a própria forma como os Descobrimentos se desenvolveram: sempre muito graduais e apoiando-se uns nos outros. Não houve uma prática para resolver o assunto de uma só vez, sabia-se da dificuldade. E o plano era esse mesmo, fazer uma viagem que se apoiava nas que outros antes realizavam. Além desse sintoma há outro, o da ocupação das ilhas atlânticas, que seria um facto anormal para a época pois estavam descobertas e conhecidas há mais de cem anos e nunca ninguém se preocupou em ocupá-las. Eram uma despesa! O infante mandou ocupar a Madeira e os Açores numa perspetiva de serem bases de apoio para o programa essencial do desenvolvimento da expansão para sul. O infante nunca procurou reduzir a expansão a um mero empreendimento económico, facto que se demonstra pelos documentos da altura, em que se confirma que estimulava os seus navegadores a irem mais além das zonas onde o negócio já estava estabelecido. Ele tenta ir sempre mais para a frente, não desperdiçando a oportunidade de se fazerem bons negócios pelo caminho, mas a descoberta era o maior objetivo e não a questão económica.

O que contraria a tese de as Descobertas serem busca do lucro e não de conhecimento?
Claro que a economia foi uma componente importante e determinou a expansão. Esta só existiu, apesar de muito controlada pelo infante, porque era um bom negócio e dava rendimentos. Isso foi essencial, pois a partir de certa altura passa a financiar-se a si própria e não precisava de recursos externos para avançar, como os da Ordem de Cristo. Era uma componente porque os interesses do infante iam além disso e visavam outros objetivos. Não significa que negligenciasse o comércio, aliás nunca evitou a participação dos privados nestas operações.

O título é A Geografia... É o que lhe importa?
A geografia era muito desconhecida nessa época, sobretudo a de África, e quando o infante pensou dar a volta ao continente para atacar por trás o islão, deparou-se com a grande dificuldade sobre o que estaria lá. Ele desconhecia a geografia da costa de África, da qual não havia notícia de alguém lá ter ido. Socorreu-se de vários processos, o primeiro dos quais as cartografia maiorquina e italiana, que eram exceção em relação ao silêncio que pesava sobre o recorte da costa, as marés, os ventos e as correntes. Foi preciso descobrir tudo em viagens sucessivas que hoje percebemos como eram arriscadas.

Avança que o infante poderia conhecer cartas de marear das áreas por descobrir?
Conheceria o que havia, que era muito pouco ou zero. Aliás, queixa-se de que a partir do cabo Bojador nada era conhecido da memória dos homens. Basta consultar os mapas-mundo da época e verifica-se a inexistência dessa informação - teve de a descobrir por ele próprio.

Conta as várias aventuras do infante para trazer geógrafos. Foi um caça-talentos?
É a palavra certa, porque foi buscar o Mestre Jaime, considerado o melhor em cartografia e em geografia. Os cronistas dizem que "com muita despesa", além de que não devia ser fácil convencê-lo a vir para o país.

Felizmente, está a aparecer uma historiografia portuguesa capaz. Perdemos bastante tempo, mas a história é o que é e as investigações foram pouco profundas. É um benefício para todos, porque o infante é um justo motivo de orgulho e um manancial importantíssimo por ser uma personalidade tão fora do comum e portuguesa.

Não há informações sobre o infante ser um grande estudioso da ciência. Como se torna o homem que dirige tal empreendimento?
Por um ato de vontade e ser capaz de chegar ao ponto da obstinação. Percebeu que deveria ter uma base de sustentação - o que hoje chamamos científica - para avançar, mas nunca foi um cientista nem a sua atividade seria compatível com isso.

Não vemos muitos historiadores portugueses preocupados com essa época. Porquê?
Felizmente, está a aparecer uma historiografia portuguesa capaz. Perdemos bastante tempo, mas a história é o que é e as investigações foram pouco profundas. É um benefício para todos, porque o infante é um justo motivo de orgulho e um manancial importantíssimo por ser uma personalidade tão fora do comum e portuguesa.

Nunca quis escrever a sua biografia?
Senti vontade, mas este tema está mais maltratado. A parte da geografia e da cartografia oferecia aspetos que deviam ser mais bem investigados e foi o que procurei fazer com este trabalho.

Não fazendo uma biografia do infante, faz uma da cartografia a época. Concorda?
Sim, é uma história da cartografia da altura. Foi aí que o infante foi beber alguns dos conhecimentos, nomeadamente o mapa de Fra Mauro, que é uma obra gigantesca e impressionante. Conto a história do mapa e da sua evolução, mas há também um aspeto mais misterioso, que é o caso de Ptolomeu. Que é um clássico com 1400 anos na altura, com mapas que ilustraram o seu livro Geografia. Esse livro foi redescoberto no princípio do século XV e tornou-se um êxito retumbante por causa dos mapas deslumbrantes. A Europa adotou Ptolomeu e não se podia fazer uma discussão culta sobre geografia sem falar dele e do que dizia. O infante não deu mostras de interesse durante toda a sua vida em Ptolomeu, mas há uma explicação: retratava uma situação política há muito extinta e não havia lá o islamismo que lhe era essencial. A costa de África em Ptolomeu é um desastre, tão fantasista como errada. No fim da sua vida, o infante e a coroa acabaram por adquirir o mapa pois havia um acrescento ao original sobre a Etiópia. Apressou-se a comprar, pois essa parte do mundo foi sempre a sua obsessão.

O infante não foi um protagonista muitas vezes desfocado pela nossa historiografia?
Sim, até me admiro como é que um protagonista destes é torturado conforme os caprichos de quem escrevia sobre ele. Ora é o génio único da humanidade no romantismo ora foi o maior matemático de sempre - não deixou nada nessa área. Depois, passou a ser o contrário, um indivíduo pouco recomendável cujo único interesse era saquear e ganhar dinheiro. Com o Estado Novo torna-se herói nacional e com qualidades que ninguém sabe se terá tido. Tudo isto teve o condão de estragar o que podia ser a história do infante D. Henrique por falta de objetividade e depender sempre da visão do mundo que cada autor tinha. Hoje, já não há lugar para as militâncias e o infante deixou de ser uma arena disponível para o combate político em Portugal.

Não fecha sem demolir a Escola de Sagres!
Sim, é um mito. A historiografia criou-o porque um projeto destes necessitava de uma base técnica e científica importante e que implicava gente que soubesse o que fazia. Como não está relatado na história quem eram, resolveu-se com uma academia onde tudo se aprendia. Essa ideia ganhou força e, a dado momento, era um facto estabelecido, sem necessitar de provas da sua existência.

A Geografia do Infante D. Henrique

Joaquim Ferreira do Amaral

Editora Temas e Debates/Círculo de Leitores

520 páginas

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