Premium Coletes amarelos: quem são, o que querem e que ameaça representam para Macron?

Manifestantes vão ser recebidos hoje pelo primeiro-ministro e amanhã vão voltar às ruas, contando com o apoio de 84% dos franceses.

O movimento dos coletes amarelos, que começou no início do mês como protesto contra o aumento constante dos preços dos combustíveis, tornou-se um símbolo do crescente descontentamento com o presidente Emmanuel Macron - visto como alguém da elite, afastado da realidade do dia-a-dia dos franceses.

O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, vai receber nesta sexta-feira uma delegação de coletes amarelos, um dia antes do "terceiro ato" dos protestos que começaram há duas semanas e, no último sábado, causaram o caos em Paris. Um movimento que promete não desistir das suas reivindicações.

A Câmara de Paris vai decidir também nesta sexta-feira se corta parcial ou totalmente os Campos Elísios, por causa da manifestação deste sábado.

Ao contrário dos protestos passados que foram organizados por sindicatos ou pela oposição, e que Macron conseguiu conter, sobre a reforma do código de trabalho ou do sistema de pensões, estas manifestações dizem-se apolíticas e partem da sociedade civil, espalhando-se pelas redes sociais, podendo ser mais perigosas para o presidente. Mais de dois terços dos franceses acreditam que a contestação é justificada.

O presidente está entretanto ausente do país, na cimeira do G20 que decorre em Buenos Aires.

Aumentos dos combustíveis

Além do aumento do preço do petróleo nos mercados mundiais, o governo francês subiu os impostos sobre os combustíveis, o que implicou que o preço do gasóleo ficasse 7,6 cêntimos por litro mais caro e a gasolina subisse 3,8 cêntimos. Isto desde o início do ano.

E a ideia do governo é aumentar o gasóleo mais 6,5 cêntimos no início de 2019. Tudo com o objetivo de aproximar os preços do gasóleo dos da gasolina (de facto, em 2021, é suposto terem o mesmo preço), como parte do esforço para reduzir o consumo do primeiro, que é mais poluente.

O problema é que ao contrário das grandes cidades, que estão bem servidas de transportes públicos, nos meios rurais muitos estão dependentes de transporte próprio. E não acreditam no argumento ecologista de Macron, vendo nestas medidas mais uma prova do desdém do presidente em relação às famílias com menos meios ou famílias trabalhadoras.

Isto quando Macron é acusado de ser o "presidente dos ricos", depois de ter acabado com o imposto sobre as grandes fortunas, de fazer a reforma do sistema de pensões e cortar nos gastos públicos.

"Em França sempre existiu uma divisão entre as grandes cidades e os arredores. Mas o fosso está a crescer mais e mais", disse uma das manifestantes à Reuters.

A popularidade de Macron está no valor mais baixo de sempre, ficando muito atrás da extrema-direita de Marine Le Pen a poucos meses das eleições europeias.

Os coletes amarelos

Em França, tal como em Portugal, é obrigatório o uso dos coletes retrorrefletores por parte dos condutores ou outro qualquer ocupante do veículo quando têm de circular na faixa de rodagem (para colocar o triângulo em caso de avaria ou acidente, por exemplo).

Esses coletes amarelos acabaram por se tornar o símbolo dos protestos contra o aumento dos combustíveis, num movimento que não nasceu organizado em torno de nenhum sindicato, mas nas redes sociais.

Segundo um site do movimento, tudo começou com uma petição de uma automobilista, Priscillia Ludosky, a pedir a redução dos preços dos combustíveis. Muito partilhada, a petição acabou por dar lugar a grupos de Facebook, a vídeos no YouTube, onde os manifestantes expressam o seu descontentamento. Até que um deles propôs bloquear as estradas do país.

Manifestações

O primeiro protesto, a 17 de novembro, terá contado com a participação de 280 mil pessoas, que bloquearam estradas a nível nacional. A manifestação chegou também a Paris, apesar de não ter tido autorização. Um manifestante morreu atropelado por um motorista.

Uma semana depois, a 24 de novembro, menos de metade dessas pessoas voltaram a vestir os coletes amarelos e a sair à rua. Desta vez, o protesto foi autorizado em Paris, mas a manifestação acabou com cenas de violência nos Campos Elísios, com pneus incendiados e a polícia a recorrer a canhões de água e a gás lacrimogéneo.

Na terça-feira, o presidente recusou recuar no aumento do preço dos combustíveis. Admitindo compreender as queixas dos manifestantes, Macron insistiu contudo que não vai "mudar de rumo", porque a direção da sua política "é correta e necessária". No passado, outros presidentes franceses cederam à pressão das ruas, mas Macron prometeu que nunca o faria.

Precisamente por não terem nascido como parte de um movimento organizado, os coletes amarelos não têm líder ou estrutura. O que pode causar problemas na hora de qualquer negociação com o governo, com Macron a não ter um interlocutor certo - apesar de o presidente ter oferecido a abertura do diálogo com os manifestantes.

Os dois porta-vozes: Éric e Priscillia

Uma delegação de oito coletes amarelos composta de oito elementos foi criada na segunda-feira passada, mas só dois acabaram por se reunir com o ministro da Transição Ecológica, François de Rugy, que ocorreu na terça-feira: Priscillia Ludosky e Éric Drouet.

Contudo, no encontro de hoje com o primeiro-ministro não se sabe quem estará presente. Éric Drouet recusou encontrar-se com Philippe, dizendo que só o fará com uma delegação que inclua "representantes regionais" e que não fará mais nada sem essa delegação, apelando antes aos manifestantes para voltarem às ruas no sábado.

Drouet tornou-se um dos representantes do movimento por ter sido o responsável pelo apelo ao bloqueio de estradas no dia 17 de novembro. Motorista de camiões de Seine-et-Marne, de 33 anos, criou com alguns amigos, em meados de outubro, a página do Facebook a partir da qual nasceria o apelo ao protesto. Desde então, tem sido uma das vozes do movimento na televisão e em vários media.

Ludosky, outro dos rostos do movimento, foi a autora da petição original no site Change.org, que estava ontem quase a chegar a um milhão de assinaturas.

A jovem de 33 anos, filha de pais oriundos da ilha de Martinica que imigraram para França no início dos anos 1980, vive nos arredores de Paris. Antiga especialista em finanças internacionais num grande banco francês, Ludosky vende agora cosméticos na internet e prepara-se para lançar a sua própria linha de produtos.

Aos jornalistas do canal Martinique la 1ère, explicou como utiliza muito o seu carro para as deslocações profissionais. Antes, gastava 45 euros por semana, mas agora paga o dobro, tendo sido obrigada a reduzir as deslocações. Ludosky explicou ainda que, até agora, não tinha feito parte de nenhum movimento, associação ou partido.

Apoio popular

A violência em Paris não teve origem nos coletes amarelos, mas em jovens que se infiltraram no movimento. Contudo, se essas cenas se repetirem, há o risco de perder apoio popular.

Por enquanto, esse apoio parece garantido. Segundo uma sondagem Odoxa-Dentsu, para o Le Figaro, 84% dos franceses consideram que o movimento de contestação é justificado. São mais sete pontos percentuais do que na semana anterior e mais dez pontos do que na primeira sondagem, a 16 de novembro.

São os simpatizantes da União Nacional (ex-Frente Nacional) que mais dizem apoiar o protesto (96%), seguidos dos da França Insubmissa (92%) e dos socialistas (90%). No caso dos apoiantes d'Os Republicanos, a adesão cai para 77%, enquanto os macronistas do La Republique em Marche! estão divididos: 50% consideram-no justificado, mas outros 50% pensam que não.

O discurso do presidente, em resposta aos protestos, não convenceu 78% dos inquiridos. Apesar de 67% dos franceses aprovarem o aumento no investimento nas energias renováveis de cinco para oito mil milhões de euros e de 66% apoiarem a criação de um movimento de concertação nacional para a transição energética que integra os coletes amarelos. Da mesma forma, 61% aprovam a variação do valor das taxas sobre os combustíveis em função do preço do petróleo e 56% congratulam-se com a redução do nuclear até 50% em 2035.

Contudo, 75% dos inquiridos acham que as medidas vão acentuar as desigualdades, 73% acreditam que vão perder poder de compra e 55% duvidam que estas possam ajudar na luta contra o aquecimento climático e na defesa do meio ambiente.

Apoio de famosos

O movimento nasceu nas redes sociais e é através desse meio que muitos famosos estão a mostrar o seu apoio, vestindo também eles os coletes amarelos.

Foi o caso da atriz e ativista Brigitte Bardot, que partilhou uma simples mensagem no Twitter: "Com vocês!"

Ou do rapper Kaaris no Instagram.

Ou do ator Franck Dubosc, no Facebook. "Mensagem para os coletes amarelos e para todos os que sofrem. Nós, os favorecidos, devemos estar com vocês. É preciso encontrar algo", escreveu numa mensagem inicial, publicando depois um vídeo a dizer que está a pensar no que pode fazer para ajudar.

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