Sem bússola

Não foi longo o tempo em que se tornou preocupante reconhecer que o projeto posterior à guerra de 1939-1945, que tinha raiz na utopia da ONU, que anunciava a paz com a responsabilidade de um diretório aristocrático de apenas cinco potências, uma delas, a China, representada pela ilha de Taiwan, ficando a aristocracia duvidosa.

No século XX, os acontecimentos multiplicaram as interdependências progressivamente conflituosas, com factos que identificaram o terrorismo, crescendo o despertar do Médio Oriente, onde o mundo árabe agitava o futuro. A União Europeia, que na sequência da Guerra de 1939-1945 abandonou o Império Euromundista, obrigada a avaliar tempos que, como foi dito, poderiam ser de désélargir, tendo inesperadamente como exemplo o Brexit, ao qual a oposição mais confiável seria a do affectio societatis.

Infelizmente, o tempo que vivemos, e que procurou fazer surgir com evidência a "Terra casa comum dos homens", foi um resultado igualmente já lembrado na notável carta do chefe índio Seattle (1854) ao presidente dos EUA Franklin Pierce, sem resposta. Escreveu ele: "De uma coisa sabemos, e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia. O nosso Deus é o mesmo Deus. Podeis pensar que somente vós O possuís, como desejais possuir a terra, mas não podeis. Ele é o Deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho. Esta terra é querida Dele, e ofender a terra é insultar o seu Criador."

Nos poucos dias vividos neste século, a expressão mais comum dos realistas (Ramses 2020) é que nos encontramos "num mundo sem bússola". Do ponto de vista secular do Portugal que nasceu ligado ao mar, uma das conclusões é que os mares recuperaram perigos, não apenas pela pirataria marítima, também por ser um espaço militarmente em mudança. A China é um exemplo quando decide regressar ao mar que deixara de navegar antes de ali chegar o poder naval português. O multilateralismo, que foi discutido e recomendado na Assembleia Geral da ONU, foi recusado na intervenção dos EUA, embora a maioria, na qual ficou a intervenção do Presidente de Portugal, o defendesse. A resposta ao real desrespeito à ONU pela "diplomacia de clubes" mal implica a lembrança do jornal francês que noticiou a paz afirmando "esta alegria coberta de lágrimas".

A memória portuguesa é suficiente para recordar a II Guerra Mundial e ponderar que, por enquanto, é o interesse americano que exige aumento da contribuição financeira à NATO, quando se procura a segurança e a defesa de todos, o que não evitou nascer a questão da criação, se necessário, de um exército europeu. A inesperada imposição pode incluir, no pensamento e na discussão, qualquer parte do grupo mundial das migrações, a diferença entre emigrantes e asilados, que o Acordo da ONU de 2018 procurou ordenar, e que os EUA têm experiência em limitar. Cento e sessenta Estados assinaram, mas a resistência dos factos não faz desaparecer a qualificação do Mediterrâneo como um cemitério, de adultos e crianças.

Muitos analistas concordam que, em tão pouco tempo, este 2020 apareça como sendo de um mundo sem bússola, marcado pelo desastre global da pandemia, que atinge o género humano, sem distinguir grandes ou pequenos países, com a ordem mundial jurídica atingida por rivalidades, por enquanto verbais, entre, por exemplo, os emergentes EUA e China, um mundo político com pouca atenção à pregação de Francisco, Papa dos católicos, que chama a atenção para a América Latina, uma criação dos dois Estados ibéricos, Portugal e Espanha. Existe ali o atribuído privilégio da primeira elaboração das teorias do populismo desde 1960, mas, nesta data, a desordem, a pobreza e a violação dos direitos humanos, destacando premissas do livro de Mélenchon Qu'ils s'en aillent tous!, partindo da crise na Argentina de 2001.

Mas o Brasil, subitamente, é o principal inspirador das perplexidades e dos deveres portugueses. Não apenas pelo passado, mas também pela desordem que atinge o espaço abrangente da história e da responsabilidade marítima do Atlântico Sul. Também nos pertencerá recriar a bússola. E não é apenas pelo compromisso assumido na Assembleia Geral da ONU, fortalecido pela autoridade da voz portuguesa que assumiu o compromisso. É também pelo valor histórico da América Latina, que lembrou a Gilberto, sem que o fim da vida lhe permitisse, escrever sobre o iberotropicalismo: e sobretudo pelo interesse e pelo dever português no que respeita ao Atlântico Sul, não apenas no interesse nacional, mas também na parte dessa intervenção que articula parte significativa do globalismo, e pela importância evidente dos valores que chamam a nossa Marinha em relação ao Atlântico Sul, cujo risco crescerá se continuar a ser negativa a utopia da ONU.

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