Palco da retoma mundial volta a ser dos EUA e da China

Na Europa, o desemprego persistente e a retirada gradual de apoios públicos devem tirar gás à retoma, diz o BCE. Na China, as exportações devem explodir novamente, levando o país a um crescimento ainda maior do que antes da pandemia.

Em 2021, o palco da economia mundial deverá voltar a ter como principais protagonistas os atores veteranos dos últimos anos: Estados Unidos e China. A Europa recupera, mas mais devagar e não consegue reverter onda de destruição que a pandemia provocou em 2020. Ao contrário das outras duas grandes economias.

Segundo vários analistas, a zona euro fica outra vez para trás. Mesmo com o orçamento europeu aparentemente desbloqueado (Hungria e Polónia lá concordaram com algumas condições) e com caminho livre para o plano de recuperação, muitas economias europeias vão ser como paus na engrenagem da retoma por causa do choque que derrubou o turismo e a confiança neste setor e atividades relacionadas. Portugal vai experimentar esse bloqueio, mas outras economias (de grande porte) também, como Espanha e Itália.

Outra fonte de lentidão tem que ver com o facto de o desemprego ser mais crónico e elevado no espaço europeu e com a retirada gradual dos enormes estímulos públicos que serviram para aguentar a situação económica e laboral em 2020, diz o Banco Central Europeu (BCE). Isto vai "atrasar" a recuperação do poder de compra das famílias, observa Frankfurt.

A economia mundial deverá registar uma quebra de 3,5% em 2020, naquele que é o pior registo em muitas décadas (desde 1980, pelo menos, mostram as séries históricas do FMI). Mas neste ano deve conseguir ganhar 5,6%, acredita o BCE. Seria 5,8% se não fosse a zona euro, admite o banco central liderado por Christine Lagarde.

A economia da moeda única caiu uns impressionantes 7,3% neste ano e em 2021 não consegue ir além de 3,9%. Não chega para compensar, nem de longe. Por um lado há a promessa de vacinas eficazes, e isso é bom, por outro há o problema do Brexit num quadro de más relações com o Reino Unido, o que é mau, considera o BCE. Mau para os ingleses, mas o resto da Europa também se vai ressentir, como é óbvio.

Já os Estados Unidos partem de uma recessão mais leve. A Reserva Federal, banco central dos Estados Unidos, disse há poucos dias que, afinal, a recessão irá ser menos grave do que se pensava em setembro. A economia norte-americana, considerada a maior do mundo, deve recuar apenas 2,4% em 2020 (e não 3,7% como se calculava há três meses). A retoma de 2021 também ganhou uns pós. Em vez de 4%, a Fed prevê agora uma recuperação de 4,2%.

A China, onde eclodiu a covid-19, cresce bastante menos face ao que tem sido a sua história recente, mas não chegará a entrar em recessão.

Paul Gruenwald, economista principal da agência de rating Standard & Poor"s, estima que a economia chinesa ainda consiga crescer 2,1% neste ano e que em 2021 a retoma chegue aos 7%. Melhor até do que os 6,1% registados antes da pandemia, em 2019.

Gruenwald admite que as perspetivas económicas ainda vão ser "mais fracas nos próximos trimestres, o que significa que a economia global vai coxear em 2021".

No entanto, "o caminho de saída da covid-19 e os desafios associados estão a ficar mais claros". O analista da S&P destaca o anúncio recente de "três vacinas que demonstram uma eficácia elevada" e que isso "deve significar o início do fim da crise". A incerteza vai continuar, sim, mas "não será radical", acrescenta.

No entanto, "o caminho de recuperação exige mudanças estruturais" nas economias. "O mundo mudou e as economias não estão a regressar à sua configuração pré-covid-19", refere.

"Sem dúvida que os governos precisam de proteger os seus cidadãos mais vulneráveis nos setores mais afetados, dar redes de segurança social adequadas", garantir "investimento público para estimular a recuperação".

Mas para o economista da agência de rating, "a composição da produção mudará e, na verdade, esse processo até já começou".

"Há novas empresas que estão a começar a nascer em setores de crescimento e a sair dos setores que estão a encolher". Do mesmo modo, "os trabalhadores estão a deslocar-se em direção a esses setores de maior crescimento". Para o analista entrámos num processo de "destruição criativa".

Todos os analistas assumem que as taxas de juro dos bancos centrais (nos EUA, na zona euro) continuarão em mínimos, o que será decisivo para manter o statu quo dos bancos (muitos deles ainda fragilizados pela outra crise, sobretudo na Europa) e um ambiente propício ao investimento.

O economista-chefe da Economist Intelligence Unit (EIU) está otimista quando pensa em 2021. "Depois de um ano cheio de más notícias, as coisas parecem estar mais positivas na economia global", diz Simon Baptist.

"Nos últimos meses, o desempenho das duas maiores economias - EUA e China - foi melhor face ao que temíamos no início deste ano. Por isso, estamos a rever em alta as nossas previsões de crescimento para ambas as economias em 2020 e 2021."

EUA e China antecipam em seis meses o regresso da economia mundial a níveis pré-covid

Estes dois motores permitem à EIU afirmar que "antecipámos a data em que a economia global consegue regressar aos níveis pré-pandemia de meados de 2022 para o início de 2022". Mérito do dinamismo destes dois países, mas também dos "progressos anunciados recentemente nas vacinas".

O economista-chefe faz questão de conceder um género de menção honrosa à China. Antecipa "uma performance forte nas exportações" do país. "A produção industrial chinesa foi rápida a recomeçar, sendo que muitas das suas operações industriais são mais dadas ao distanciamento e à automação" quando se compara com a realidade de outras economias.

O perito destaca, por exemplo, "a forte procura por produtos de eletrónica de consumo e por equipamentos de proteção pessoal".

A retoma da China é tão forte em 2021 que "a economia global excluindo a China continua a enfrentar uma recuperação lenta", remata o responsável do gabinete de estudos da The Economist.

Brian Coulton, economista-chefe da Fitch, outra das grandes agências de rating, também está mais confiante. "A recuperação global pode ser mais acidentada do que esperávamos por causa da segunda vaga do vírus e das novas restrições, mas as notícias sobre as vacinas são muito positivas para o nosso outlook económico relativo aos próximos dois anos."

A Fitch reviu em alta o crescimento mundial de 5,2% para 5,3% em 2021. Os EUA melhoram nas previsões de 4% para 4,5% de crescimento, a China subiu a parada de 7,7% para 8%. Já a retoma da zona euro foi revista em baixa de 5,5% para 4,7%. Ainda assim, melhor do que diz o BCE (3,9%).

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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