Incêndios. Drones no ar e botas em terra. Forças Armadas testam nova estratégia

O Estado-Maior-General das Forças Armadas testou nesta semana um novo paradigma para a vigilância florestal, que envolve uma gestão centralizada de meios dos três ramos.

As Forças Armadas querem melhorar a suas ações de vigilância florestal para a prevenção de incêndios e estão a testar uma nova estratégia de patrulhamentos em terra, no ar e até em zonas fluviais sempre que necessário.

O Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) propõe que sejam atribuídas aos militares zonas de risco, em regiões em que tenham os seus recursos humanos e instalações mais próximos.

O Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) propõe que sejam atribuídas aos militares zonas de risco, em regiões em que tenham os seus recursos humanos e instalações mais próximos, e que seja o seu Centro de Comando de Operações Militares (CCOM) a fazer a gestão de meios a projetar no terreno.

Este modelo substituirá o atual emprego de meios à la carte, em que os patrulhamentos são distribuídos em itinerários e horas limitadas - como acontece com as 36 patrulhas militares do plano Faunos (que sofreram uma redução em relação ao ano passado), coordenado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.

Gestão das zonas prioritárias

Nesta semana no Centro de Comando foi preparado um exercício, a que o DN assistiu em parte, para testar a coordenação de meios do Exército, da Força Aérea e da Marinha.

"Há a perceção de que a eficácia do atual sistema é duvidosa e é possível melhorar bastante os resultados."

"No nosso entender, tendo em conta toda a análise que fizemos, há a perceção de que a eficácia do atual sistema é duvidosa e é possível melhorar bastante os resultados", sublinha Marco Serronha, tenente-general do Exército, que comanda o CCOM.

Segundo este oficial-general, esta intenção de mudança de paradigma é do conhecimento da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e da GNR, que é a entidade nacional competente para a coordenação das ações de vigilância florestal.

"O que pedimos é que nos sejam atribuídas zonas prioritárias e somos nós, através do CCOM, a gerir os recursos a dispensar pelos três ramos. Essas áreas ficam à nossa responsabilidade", afiança o oficial general.

Lembra que "os novos drones da Força Aérea trouxeram uma capacidade adicional, no apoio direto à GNR, que é a autoridade com competências para a vigilância florestal, mas também como meio do Sistema de Forças Nacional, gerido pelo EMGFA".

Numa recente entrevista ao DN, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Silva Ribeiro, já tinha antecipado este novo plano. "Neste mês, vamos realizar um exercício para desenvolver o conceito de emprego desses drones, por determinação do senhor ministro da Defesa. [...] Os drones veem o panorama em altitude e, depois, as equipas por terra, dirigem-se aos locais onde existem eventuais problemas, para tomar as ações que forem necessárias."

Visibilidade e interação

No entender do comandante do CCOM, "a vantagem imediata do novo modelo é que pode gerir os meios aéreos e terrestres de forma mais eficaz. Logo à partida, porque podemos estudar e avaliar todas as características desses terrenos e planear os recursos mais adequados".

"Uma presença mais permanente e regular das nossas patrulhas em determinadas zonas terá efeitos dissuasores importantes, quer pela visibilidade quer pela interação com as populações."

Paralelamente, explica, "uma presença mais permanente e regular das nossas patrulhas em determinadas zonas terá efeitos dissuasores importantes, quer pela visibilidade quer pela interação com as populações".

Os militares pretendem que as áreas geográficas definidas sejam próximas das suas instalações para que possam "empenhar e gerir meios de forma eficiente".

De acordo com esta disponibilidade, propuseram à GNR, entre outras, áreas geográficas nas regiões de Trás-os-Montes, Beira Alta, zona de Santarém, Coimbra.

"São tudo áreas centradas nas zonas de maior risco de incêndio. Contando com as patrulhas no terreno e com as equipas que vão estar a operar os drones, estimamos que possamos empenhar entre 200 e 250 militares por dia", assinala Marco Serronha.

Olhar para os resultados

No final do mês de outubro será aprovado o conceito geral desta nova estratégia pelo ministro da Defesa, depois serão definidos os pormenores do plano a aplicar no próximo ano - caso seja assim aprovada por todas as entidades envolvidas, designadamente pela GNR.

"Há uma série de melhorias a fazer, mas tudo tem de ser coordenado e integrado com a GNR."

Tiago Oliveira, presidente da AGIF, confirmou ao DN ter tomado conhecimento desta proposta do EMGFA.

"Há uma série de melhorias a fazer, mas tudo tem de ser coordenado e integrado com a GNR. O princípio é sempre melhorar os sistemas, mas a GNR terá de analisar com as Forças Armadas todos os detalhes e coordenarem recursos", afiança este responsável, especializado na gestão de risco de incêndio florestal.

Sublinha que "é importante olhar para os resultados" e destaca que se tem "conseguido reduzir as ignições". No entanto, admite, "há muito trabalho a fazer, por exemplo haver uma visão integrada, que envolve um portal comum, que permita a todas as entidades observar onde estão os recursos de cada uma e possam fazer uma melhor gestão".

Um portal geoespacial

O exercício, a que assistimos em parte, chamado Zéfiro 2020 (esta é a designação, na mitologia grega, do deus do vento do oeste) tem como objetivo "treinar e exercitar a estrutura de comando, controlo e comunicações, na participação ativa das Forças Armadas, na fase de pré-supressão, materializada pela ação de vigilância e deteção na prevenção de incêndios rurais".

É explicado pelo coronel Paulo Antunes - estão presentes oficiais e militares dos três ramos - que "estas ações integram as capacidades já existentes e as resultantes dos UAS [Unmanned Aircraft Systems] recentemente adquiridos pela Força Aérea no âmbito do reforço de meios do Dispositivo de Combate a Incêndios Rurais, meios esses que integram o Sistema de Forças Nacional, contribuindo para o levantamento de um sistema integrado de vigilância e deteção das Forças Armadas".

O mapa que surge no ecrã gigante da sala de operações mostra a zona da Lousã.

Observamos uma uma imagem, parada, cheia de nuvens e uma nesga de céu, captada pelo drone da Força Aérea, que tem a base no aeródromo local.

Observamos uma imagem, parada, cheia de nuvens e uma nesga de céu, captada pelo drone da Força Aérea, que tem a base no aeródromo local. Nas imagens de satélite é possível visualizar a posição das patrulhas no terreno, a Lince, do Exército, e a Foca, da Marinha, uma comunicação feita através dos rádios SIRESP que estão na posse dos militares.

Somos informados de que "há três drones a operar na prevenção de incêndios", mas que só o da Lousã está a participar neste exercício. A Força Aérea adquiriu 12 drones, mas devido a atrasos de vária ordem não conseguiu cumprir o seu objetivo de atingir a sua "capacidade total" até final de agosto.

Os "eventos e incidentes" criados para o exercício são "reservados", mas é-nos explicado que servem para testar "o empenhamento, em apoio à GNR, dos meios militares".

Simula-se um pedido, que implica um "esforço adicional de vigilância", em coordenação coma ANEPC, "em face da evolução da estação meteorológica".

Botas no chão e... drone

É difundida uma ordem e são atribuídas a cada ramo, através dos respetivos comandos operacionais, missões de vigilância adicionais, sendo-lhes distribuídas zonas de vigilância e deteção.

Os comandos operacionais procedem de seguida ao planeamento e execução dos patrulhamentos requeridos.

Nas imagens do Portal Geoespacial vão surgindo os vários meios que estão no terreno, a imagem (ainda parada) do drone que estará no ar.

Nas imagens do Portal Geospacial, vão surgindo os vários meios que estão no terreno, a imagem (ainda parada) do drone que estará no ar, informações geográficas, estatísticas.

O coronel Antunes fala ao telefone e faz-nos sinal, avisando que há novidades. Afinal o drone terá de aterrar "devido às condições atmosféricas". Mais tarde, no registo de voos que o DN consultou, foi possível verificar que este drone esteve no ar cerca de 20 minutos, por cima do aeródromo.

Problemas de comunicação e climatéricas impediram que se visse as imagens em tempo real. Ainda há tempo para ver uma gravação de 25 de agosto, com alguns exemplos de capacidades de vigilância destas aeronaves.

A imagem seguinte já é da pista do aeródromo, onde está pousado o drone e, junto a ele, as botas de um militar que está na pista.

Atualizado a 29/09/2020, às 15h44. O EMGFA não deu a conhecer a sua proposta na passada terça-feira, mas manifestou esta intenção já anteriormente à AGIF, ANEPC e GNR

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