A corrida à vacina da gripe em ano de pandemia

A ideia é "vacinar mais e mais cedo" a população portuguesa, com o objetivo principal de libertar os cuidados de saúde de doenças respiratórias - cujo quadro é muito semelhante ao do covid-19. A vacina contra a gripe começa a ser administrada esta segunda-feira, numa operação que só deverá estar concluída daqui a um mês.

A partir desta segunda-feira, 28 de setembro, chegam aos centros de saúde de todo o país milhares de vacinas contra a gripe. "Já temos cerca de 150 mil vacinas nas ARS [administrações regionais de saúde] e vamos ter cerca de 350 mil nesta primeira fase para administrar", revelou na semana passada Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, no decorrer de uma das conferências de imprensa de divulgação dos boletins de covid-19.

"Este é o plano: vacinar mais, vacinar mais cedo, para ser mais fácil diminuir as infeções respiratórias agudas em que os sintomas nem sempre são fáceis de distinguir", sublinhou Graça Freitas, como se naquele instante fosse porta-voz de cada um dos médicos que acompanham a realidade do país em cada unidade de saúde familiar, em cada serviço de urgência ou em cada serviço de especialidade. Não quer dizer que sirva para respirarem de alívio, mas o anúncio contribuiu para serenar o que se avizinha com um longo inverno. "Neste ano ainda é mais importante os grupos de risco serem vacinados", continuou Graça Freitas, revelando que o SNS "comprou mais vacinas do que é habitual: dois milhões de doses a duas empresas diferentes, mas que têm exatamente a mesma composição. Apanhar de uma marca ou de outra é indiferente para quem é vacinado. São vacinas com bastante qualidade, cuja composição é determinada pela OMS. Uma das firmas conseguiu antecipar as entregas e por isso vamos começar já no dia 28".

A diretora -geral da Saúde acredita nessa que é "uma das grandes estratégias - começar a vacinar mais cedo, mas suficientemente próximo da época da gripe para que a vacina ainda produza efeito". Nos serviços de saúde, Graça Freitas encontra (pelo menos a este nível) um coro de apoio.

Salvato Feijó, diretor do serviço de pneumologia do Centro Hospitalar de Leiria, não tem dúvidas sobre a importância de vacinar o mais possível, em tempo de pandemia, quando os sintomas se confundem tantas vezes. "O que se está a aproximar, com o outono e o inverno, é aquilo a que podemos chamar a patologia do inverno, que é indistinguível da covid. Qualquer constipação, gripe, pneumonia ou outra patologia do tipo respiratório vão ser indistinguíveis daquelas que apresenta um suspeito de covid", disse ao DN. O médico defende ser "muito importante que façamos todas as ações que tendam a diminuir o número de pessoas que possam contrair constipações, gripes ou outras complicações respiratórias". E lembra que Portugal apresenta um quadro bastante propício: "O nosso clima é frio e húmido, as nossas habitações são muito pouco preparadas para este clima. Eu costumo dizer na brincadeira que nós passamos mais frio do que os suecos..."

Salvato Feijó acredita que "a vacinação o mais precoce possível vai permitir que a outra patologia não-covid não venha assoberbar os cuidados de saúde, sejam eles de que nível forem". E por isso sublinha a importância de que se façam "todos os movimentos que tendam a prevenir os recursos aos cuidados de saúde. Porque se já começámos a ter estes aumentos de 200% ou 300% de casos de covid, relativamente há cerca de um mês, é de prever que venham a aumentar. Com esta dificuldade em distinguir, todas as ações são muito importantes".

A opinião é subscrita por Isabel Gonçalves, médica de clínica geral e saúde familiar, ao serviço de uma unidade de saúde familiar em Pombal. No ficheiro de dois mil utentes que tem neste momento a seu cargo, uma parte importante é envelhecida e faz parte de um ou vários grupos de riscos.

Por estes dias os serviços estarão a contactar os utentes para lhes seja administrada a vacina da gripe. "A maioria já está habituada, há anos que a prescrevo, mas é preciso contactar as pessoas e agendar essa toma", diz ao DN, lembrando que uma boa parte dos doentes vai levar a vacina no domicílio. "São pessoas de idade, a enfermeira vai fazer o domicílio, quando um deles está acamado, e aproveita para vacinar o marido ou a mulher, em muitos casos."

Isabel Gonçalves diagnosticou alguns dos primeiros casos de covid-19 que apareceram em Pombal, concelho onde se registou uma das primeiras mortes. Lembra que felizmente nenhum dos seus doentes sucumbiu à doença, mas lidou sempre muito de perto com ela, mesmo nas (poucas) horas vagas. Em março, quando os números começaram a disparar, foi das primeiras a fazer voluntariado num lar de idosos da região. E sabe que o inverno que se aproxima vai trazer (ainda) mais trabalho aos médicos e enfermeiros. "Ao contrário do que muita gente pensa, nós não parámos de trabalhar. Continuámos a acompanhar as grávidas, os bebés que nascem, os grupos de risco, a fazer algumas consultas presenciais e muitas ao telefone. São essas que nos devem também fazer prestar atenção, porque as pessoas estão muito carentes, precisam de muita atenção. Digo muitas vezes que preferia ter cá toda a gente, no centro de saúde".

Grávidas entre os grupos prioritários

A primeira fase da vacinação contra a gripe começa com os grupos que a Direção-Geral da Saúde (DGS) entende serem mais prioritários: os lares e residenciais para idosos, os idosos em casa - "não só pela idade e pelas doenças mas pelo seu estado de confinamento, e depois aqueles que nos devem proteger, os profissionais de saúde e os do setor social que prestam cuidados", referiu Graça Freitas. "Adicionalmente vamos incluir as grávidas", revelou a diretora-geral da Saúde. "Até agora a vacina era recomendada mas não era gratuita, neste ano passou a ser gratuita e vamos incluir já na primeira fase."

Entretanto, a 19 de outubro, o Serviço Nacional de Saúde prossegue com a vacinação aos outros grupos de risco - pessoas com mais idade e com doenças crónicas. No seguimento deste plano para "vacinar o mais depressa possível", a DGS aventa a possibilidade de ampliar os pontos de vacinação, se for necessário, "onde qualquer pessoa se possa vacinar se estiver num grupo de risco. A ideia é vacinar de forma ordeira, por fases, privilegiando aqueles que mais beneficiam com a vacinação", disse.

Para este inverno foram compradas mais 500 mil doses do que no ano passado. Ao todo, são dois milhões de vacinas, um aumento de 34% relativamente ao ano passado.

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