Tancos é mais do que Tancos

Se não há política em tudo isto, não faço a mais pequena ideia do que seja política. Se isto não é assunto de campanha, não sei para que raio serve uma campanha eleitoral.

O caso Tancos começou por ser um assalto a uma instalação militar. A gravidade era óbvia: a instituição a quem confiamos a nossa defesa não era capaz de se defender a ela própria. Aqueles a quem demos armas não eram sequer capazes de as guardar.

À boa maneira portuguesa, não faltou quem viesse defender a culpa de todos em geral e de ninguém em particular. O responsável máximo, o chefe do Estado-Maior do Exército, não se demitiu (só mais de um ano depois do assalto é que percebeu que era ele que estava de vigia), entrou-se num processo de passa-culpas que, claro, tinha como objetivo chegar aos responsáveis políticos.

Levou tempo até que se tivesse tomado consciência de que a responsabilidade política de um ministro das obras públicas por uma queda de uma ponte ou de um ministro das Finanças por uma qualquer falha do sistema fiscal não é a mesma de um ministro da defesa no que diz respeito às entidades que tutela. A autonomia das forças armadas não é comparável com a de mais nenhuma instituição ligada diretamente ao Estado (exceção feita, claro está, aos poderes constitucionalmente separados).

Debateu-se muito a falta de investimento nas funções de soberania - que é evidente e resulta de um esquecimento do que devem ser as principais incumbências do Estado - mas, como de costume, a conversa serviu mais para desculparmos quem falhou na tarefa de preservar a segurança das nossas armas do que para mudar seriamente a forma como não investimos nas funções essenciais do Estado.

Depois, o caso ainda ficou mais grave. Descobriu-se que tinha havido uma conspiração para que as armas fossem devolvidas. O assalto não podia ser visto como um mero assalto, mas não teria sido a primeira vez que um paiol teria sido atacado ou que um soldado tivesse adormecido na forma. Outra coisa era o Exército e os seus departamentos colaborarem numa ação criminosa por muito benévolas que pudessem ser as intenções. Pelo meio soubemos de guerras de poder entre a Polícia Judiciária e a Polícia Judiciária Militar que não eram, pelos vistos, novidade.

É difícil imaginar maior sinal de degradação de uma instituição do que vê-la a colaborar com marginais para tentar salvar a face.

Entretanto, um dos militares envolvidos nesta pouca-vergonha afirma que o ministro da Defesa teria conhecimento da operação. Azeredo Lopes que tinha levantado a hipótese de não ter havido assalto e que quando as armas apareceram surgiu como o campeão da rápida resolução do caso.
Cai o ministro da Defesa e começa o inquérito parlamentar. As conclusões do inquérito levam à absolvição política de Azeredo Lopes, apesar da discordância dos partidos da oposição.

Anteontem, soubemos que há uma clara diferença de opiniões entre a comissão de inquérito e o Ministério Público. No que os políticos não viram responsabilidade, a justiça afirma que sim. E, que fique claro, aqui não há uma distinção entre política e justiça: ou sabia ou não sabia. Se sabia, a responsabilidade política é igual (ou mesmo superior) à penal. A única defesa possível da comissão é a de não ter capacidade de investigação, mas, assim sendo, para quê a sua existência? É que é a própria utilidade dessa comissão que fica em causa. Imagine-se se há mesmo uma condenação de Azeredo Lopes, com que cara os deputados ficam perante os portugueses?

Há neste gigantesco imbróglio, é mais do que evidente, além das questões de justiça, problemas políticos estruturais sérios. São aqueles que dizem respeito ao funcionamento das instituições, da forma como olham para as suas responsabilidade e, em menor dimensão, do papel das comissões de inquérito e do seu relacionamento com a justiça.

E por falar de problemas estruturais, lá tivemos a costumeira brincadeira da fuga de questões em segredo de justiça. Desta vez a coisa serviu para atacar o Presidente da República.

Uma escuta cirurgicamente escolhida, um dia antes de sair a acusação do Ministério Público (que não pode ser acusado, neste caso, de pouco cuidado com o momento político já que os prazos para a dedução da acusação estavam a terminar), tenta lançar uma suspeita sobre o Presidente da República, que foi talvez o maior responsável por todo este escândalo não ter caído, senão no esquecimento, no nosso conhecido limbo dos "assuntos que o tempo há de apagar".

Pouco importa pensar que há pessoas no Ministério Público ainda irritadas com Marcelo Rebelo de Sousa desde a não recondução de Joana Marques Vidal ou que dá muito jeito à campanha do PS que se fale desta escuta e não de uma acusação que põe diretamente em causa o governo num tema tão importante. Melhor, é bom que não se deixe de pensar nestas duas possibilidades, mas é mais um problema estrutural da nossa comunidade que o caso Tancos deixa bem à vista: os nossos conhecidos julgamentos na praça pública, desta vez sem sequer a mínima ponta por que se lhe pegue.

Alguns líderes políticos refugiaram-se na conversa estafada de "à política o que é da política e à justiça o que é da justiça", e siga. Nem o pequeno pormenor de que há um ministro acusado de crimes gravíssimos e de um primeiro-ministro que assobia para o lado fingindo que o que se passa no governo que lidera não é nada com ele, ao mesmo tempo que defende a normalidade de não acusar pessoas que revelam matéria em segredo de justiça, chega para despertar a campanha.

Se não há política em tudo isto, não faço a mais pequena ideia do que seja política. Se isto não é assunto de campanha, não sei para que raio serve uma campanha eleitoral.

O caso Tancos é muito mais do que um assalto e de um encobrimento, é um verdadeiro assunto de regime.

Uns tristes

Li que a menina era muito novinha e que devia estar a estudar; que, coitadinha, estava a ser manipulada pela malandragem do Gore; que era uma pessoa doente e que tinha de ser protegida; que era uma histérica. Já tinha sido destratada e ridicularizada num artigo engraçadinho por causa da roupa que vestia ou se viajava de barco ou de avião cheio de trocadilhos grunhos com o nome da rapariga.

Se Greta Thunberg está certa, não parece de grande interesse para a maioria esmagadora dos colunistas cá do burgo que se divertiram a criticar a ativista. Se a rapariga se limita a repetir o que praticamente toda a comunidade científica afirma há décadas, também não parece ter grande importância para essa rapaziada. O importante é proteger a Greta dela própria.

A verdade é que todos estes cientistas-colunistas não querem saber da Greta ou da sua saúde, ou do seu futuro, ou se devia estar a estudar ou não, eles são apenas ativistas da causa contrária à da rapariga e, não arranjando melhores argumentos, atacaram-na pessoalmente. Uns tristes.

Trump é intocável

Já passamos a fase de pensar que atropelo à democracia liberal e, sobretudo, à mínima decência Trump fará a seguir. Já passou todos os limites e continua impávido e sereno na Casa Branca.

Desta vez, o presidente dos Estados Unidos chantageou o chefe de um Estado estrangeiro para que ele pressionasse o seu sistema judicial contra o filho de um seu adversário político.

Em qualquer outro momento da história dos Estados Unidos, sendo isto público, o presidente não teria a mínima condição de continuar no cargo. No momento que vivemos, porém, ninguém acredita que aconteça o que quer que seja a Trump. Pior, manterá a sua popularidade e continuará como provável vencedor das próximas eleições. Algo está profundamente errado na democracia americana.

Exclusivos