Et in Arcadia bolas

The English Game, minissérie da Netflix de seis episódios, é horrível, como sempre foram e sempre serão todas as ficções televisivas ou cinematográficas sobre futebol, e nem sequer é horrível apenas pelos motivos habituais: a impossibilidade de reproduzir visualmente aquilo que é mais interessante.

Apesar de décadas de propaganda moderna sobre as origens do futebol - rumores malévolos sobre os costumes bárbaros de povos primitivos, envolvendo festivais pagãos e bexigas bovinas -, todas as pessoas decentes sabem que o desporto-rei foi inventado em Inglaterra: mais precisamente nos relvados verdejantes de Eton, num Domingo à tarde, e por pessoas cujos apelidos anexavam vários polissílabos através do despotismo iluminado do hífen. No meio de um calendário atarefado de aulas de Latim, banhos de água fria e sessões de sodomia secreta, estes nobres pioneiros arranjaram tempo para imaginar uma nova forma de passar o tempo e exercitar o corpo e o espírito.

O primeiro passo foi apearem-se dos seus respectivos cavalos (o futebol não se chamou futebol por ser jogado com os pés, mas por ser jogado com os pés no chão). O gesto escancarou de imediato várias possibilidades atléticas, a mais importante das quais foi a substituição de um animal vivo com a capacidade de fugir (uma raposa, por exemplo) por uma esfera de couro menos insubordinada e com menos opiniões próprias. Ao fim de poucas semanas de experiências, perceberam que nem sequer era preciso alvejar a bola com um tiro de espingarda: bastava empurrá-la na direcção de uma baliza.

A codificação das regras foi um processo gradual, mas depressa permitiu que o jogo se tornasse um milagre de popularidade, atraindo a atenção de outras pessoas que não eram proprietárias de castelos. Algumas dessas pessoas trouxeram ideias novas, como a tabelinha, a desmarcação e o passe em profundidade. Outras pessoas trouxeram outras ideias, como o salário mensal, a comissão de 10% e a rescisão por justa causa. E o futebol floresceu, apaixonando milhões todos os dias, em todo o mundo, até Março de 2020, quando deixou de haver jogos porque alguém decidiu lanchar um morcego.

Foi nesta conjuntura promissora que a Netflix estreou The English Game, uma minissérie de seis episódios sobre a cisão ideológica entre amadores e profissionais que deu origem ao jogo tal como o conhecemos. A série é horrível, como sempre foram e sempre serão todas as ficções televisivas ou cinematográficas sobre futebol, e nem sequer é horrível apenas pelos motivos habituais: a impossibilidade de reproduzir visualmente aquilo que é mais interessante. (Não é um acaso que o basebol seja talvez o único desporto colectivo que deu origem a filmes não horríveis, em parte porque os seus andaimes mitológicos não têm uma relação directa com a prática física, e em parte porque a soma dos seus gestos característicos é menos exigente e tem menos resistência à pura encenação). The English Game teria aqui uma vantagem teórica, no sentido em que procura representar um protótipo do desporto e não a sua forma consumada, mas é uma vantagem que nunca lhe interessou e cujo descarte nem sequer é o seu maior problema: não é horrível por isso, mas pelos mesmos motivos que as séries horríveis que não são sobre futebol costumam ser horríveis.

O projecto foi escrito pelas mãos (ou possivelmente pelos pés) de Julian Alexander Kitchener-Fellowes, barão de West Stafford, autor de um pastel semelhante chamado Downton Abbey. um inexplicável sucesso de audiências que se prolongou por 1800 episódios de sete horas cada, metade dos quais consistiam exclusivamente em imagens de um mordomo a medir o espaço entre dois talheres com uma régua de marfim. O único "tema" (e as aspas pecam por defeito) era que o tempo passa: devagar, mas passa. Tal como todas as séries que jorraram da mesma fonte primeva, Downton Abbey era essencialmente uma variação sobre Reviver o Passado no Raio Que os Parta: não uma série "histórica", mas uma fantasia pastoral sobre a utopia perdida, sobre um mundo prestes a desaparecer, povoado por condessas que olham nervosamente pela janela do palacete enquanto o futuro se aproxima, sob a forma de pessoas com empregos e sotaques regionais.

The English Game usa a mesma estrutura, porque é a única história que Julian Fellowes sabe contar (e mal): uma ordem estabelecida assustada com a possibilidade de as coisas mudarem. O herói da história é Fergus Suter, um talentoso escocês contratado pelo dono de uma fábrica em Darwen que deseja alegrar as gentes humildes e tuberculosas da sua terra através da exploração competente dos espaços entre linhas: talvez o reforço escocês consiga, pela primeira vez, levar uma equipa de classe operária aos quartos de final da Taça de Inglaterra.
Os adversários são os Old Etonians, uma colecção de aristocratas que definiram as regras do jogo e se habituaram a ganhar a competição todos os anos. No primeiro confronto entre ambos, os Etonians empregam a sua táctica habitual de correrem todos juntos na mesma direcção, atropelando os transeuntes. O resultado ao intervalo é 5-1, e Suter decide usar a sua palestra para explicar aos colegas de equipa com o seu exuberante sotaque industrial (uma chaminé a fumegar em cada consoante) que o futebol pode ser jogado de outra maneira: "Passe! Espaço! Corrida! Passe!"

Episódios posteriores revelam que os trabalhadores da fábrica afinal não se contentam em ter descoberto os prazeres da circulação do esférico e também querem melhores condições de trabalho. Os patrões decidem deixar de lhes pagar, e assistimos à obrigatória sequência da multidão com archotes em punho a percorrer as ruas. Entretanto, os Old Etonians reúnem-se em sucessivos banquetes para, no meio de resplandecente cutelaria, dizerem uns aos outros coisas como "nós somos cavalheiros", ou "regras são regras", ou "se não fizermos algo sobre este assunto, o nosso desporto, o desporto que amamos, será perdido para sempre!" Fergus Suter tem os seus próprios problemas. Uma potencial ligação romântica é ameaçada por frases como "no campo podes ser um génio, mas fora dele és um enigma". Uma oferta milionária apresentada pelo dono de outro clube (Sir George Mendes) leva-o a considerar a hipótese de mudar de equipa. O dinheiro dar-lhe-ia jeito para resgatar o resto da família às garras do pai, um tirano alcóolico que passa os dias a esvaziar garrafas e a espancar bebés recém-nascidos. Mais alguns jogos acontecem, quase sempre concluídos com uma disputa interpretativa sobre as regras. A esposa grávida do capitão dos Old Etonians começa ominosamente a sangrar, naquele que (se percebi bem a complexidade do enredo) foi o primeiro aborto espontâneo provocado por falta de fair play.

O guião, seguindo a mesma doutrina de Downton Abbey, obriga os actores a declamar em simultâneo o texto, o resumo do texto e a explicação do texto. "Estas pessoas não trabalham na minha fábrica, elas SÃO a minha fábrica", "temos o dever de partilhar o futebol com a classe operária", "eu e tu vamos fazer história!", "olha à tua volta. Deste a esta gente algo em que acreditar. O futebol alimenta-lhes a alma quando eles não têm mais nada nas suas vidas!" Suter e o capitão dos Old Etonians partilham alguns momentos de camaradagem, e percebem que afinal não são muito diferentes: têm em comum o amor pela família, a paixão pelo desporto e a vergonha de aparecerem numa coisa tão mal feita. Quando soa o apito final, o seu alívio é tão grande como o nosso.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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