Omicron, ou B.1.1.529, a variante do SARS-CoV-2 que trouxe de novo o medo ao mundo

Uma nova variante do SARS-CoV-2 deixou o mundo em polvorosa em 24 horas. Já foi identificada pela OMS como "preocupante" e já tem nome: Omicron. Por agora, sabe-se que foi detetada a 9 de novembro na África do Sul e que já chegou a Botswana, Hong-Kong e Bélgica, mas pode estar em mais países. A UE proibiu voos de sete países africanos para o espaço comunitário. Em Portugal, não foi identificado qualquer caso. O INSA "está atento à situação".

Ana Mafalda Inácio
Nova variante descoberta na África do Sul tem um risco acrescido de reinfeção.

E o mundo volta a ficar assustado com o poder do vírus que no final de 2019 invadiu o planeta e o deixou pandémico. O SARS-CoV-2 tem mais uma variante, que já foi classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como "preocupante" e já tem nome: Omicron. A nova variante foi anunciada ao mundo pelas autoridades sul-africanas nesta quinta-feira, dia 25, depois de ter sido identificada, pela primeira vez, no dia 9 de novembro.

Assim que a apresentaram, os especialistas sul-africanos manifestaram-se preocupados com a sua transmissibilidade e resistência às vacinas e 24 horas depois a OMS não hesitou em catalogá-la como "preocupante", com base em provas preliminares que sugerem "um risco acrescido de reinfeção" comparativamente com as outras variantes já existentes, como Alpha, Beta, Gamma e Delta.

Ontem mesmo, os 27 Estados membros da UE também concordaram acionar o travão de emergência, impondo a suspensão de voos de sete países da África Austral para o espaço comunitário, nomeadamente de Moçambique, Botswana, África do Sul, Lesoto, Eswatini, Namíbia e Zimbabué.

A informação, que foi divulgada pela presidência eslovena através da rede social Twitter, referia que os Estados membros, as instituições europeias e especialistas "concordaram na necessidade de ativar o mecanismo travão de emergência e impor restrições temporárias a todas as viagens para a UE a partir da África Austral". O comunicado apelava ainda aos Estados-membros para que "testem e coloquem em quarentena todos passageiros desses países".

Segundo a OMS, a primeira infeção foi detetada num indivíduo no dia 9 de novembro na África do Sul e está a alastrar "a um ritmo crescente" naquele país e em outras províncias da África Austral. Até agora, os estudos já realizados à B.1.1.529 indicam não se tratar de uma sublinhagem da Delta, predominante no mundo, e que tem como característica uma grande capacidade mutacional. Ou seja, já gerou "várias mutações e algumas delas preocupantes", refere a informação avançada pela OMS, sustentando que "as provas preliminares recolhidas sugerem um risco acrescido de reinfeção".

Portugal sem casos da nova variante

Até ontem, o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) não tinha identificado nenhum caso desta nova variante em território nacional, referindo "estar atento à situação, mantendo o seu programa contínuo de monitorização de variantes a nível nacional". Na resposta ao DN, o INSA também explicava que a nova variante, da linhagem B.1.1.529, foi identificada recentemente na África do Sul, pensando-se ser esta a causa do aumento de casos de infeção que se estão a registar naquele país.

O instituto português confirmava também que a linhagem desta variante estava a ser caracterizada por "ter um número de mutações na proteína Spike anormalmente elevado, muitas delas já identificadas separadamente noutras variantes, e as quais se pensam poder estar associadas a uma maior transmissibilidade e/ou falha de ligação aos anticorpos".

No entanto, sublinhava, ainda "não existem quaisquer dados que indiquem que esta nova linhagem seja mais transmissível ou possa originar problemas em termos de eficácia vacinal. De facto, nem sempre o aparecimento simultâneo de várias mutações relevantes tem tido consequências fenotípicas, dado que frequentemente se observa o desaparecimento dessas linhagens do panorama epidemiológico pouco depois da sua emergência".

A OMS também reforçava na sua comunicação de ontem não haver ainda evidência científica suficiente que demonstre que o mundo está, de novo, perante uma variante com maior grau de transmissibilidade do que a variante Delta, identificada na Índia, e até agora considerada a que atingiu maior grau de transmissibilidade do SARS-CoV-2.

Ao DN, a infeciologista Margarida Tavares, do Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto, explicava, precisamente, que, "enquanto não soubermos quão transmissível é esta variante não conseguimos prever o impacto que pode ter na pandemia", sustentando que nestes quase dois anos de pandemia já houve outras mutações que foram identificadas como muito ameaçadoras, mas que depois acabaram por não o ser.

Reino Unido diz que é variante mais significativa encontrada até agora após a Delta

Em relação à Omicron, certo é que em 24 horas colocou as autoridades internacionais a reunir-se de urgência: a OMS, em Genebra, a UE, em Bruxelas. O alerta está dado e, como dizia ontem também Jenny Harries, da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido, "esta é a variante mais significativa que encontrámos até agora", havendo que "fazer uma investigação urgente para descobrir mais sobre a sua transmissibilidade, gravidade e suscetibilidade à vacina".

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla inglesa) já veio dizer que ainda é prematuro fazer previsões sobre a eventual necessidade de adaptação das vacinas existentes a esta variante. Do lado dos laboratórios, por exemplo, Pfizer e BioNTech já vieram anunciar que dentro de duas semanas, o mais tardar, teriam disponíveis resultados sobre se será necessário ou não adaptar as vacinas à nova variante.

Mais uma vez, é o SARS-CoV-2 a fazer com que a investigação científica procure respostas em tempo recorde. Recorde-se que desde quinta-feira que o grupo de peritos da OMS responsável pela monitorização do SARS-CoV-2 reunia com especialistas sul-africanos para analisarem, em conjunto, os últimos dados disponíveis sobre esta variante. Uma das preocupações era precisamente a sua capacidade de mutação.

Ao início da tarde, a responsável pelo departamento da covid-19 na OMS, Maria Van Kerkhove, assumia "não se saber muito sobre a variante". "O que sabemos é que apresenta um número muito elevado de mutações. E a preocupação é que, quando existem tantas mutações, pode haver impacto na forma como o vírus se comporta", frisou.

Ao início da tarde de ontem, países como Alemanha, Japão, Áustria, Itália e Singapura, bem como o Reino Unido, avançavam com a suspensão de voos de sete países da África Austral para o seu território. E a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestava a sua grande preocupação: "Estamos a levar muito a sério as notícias sobre a nova variante altamente mutante."

A presidente da UE pediu mesmo aos Estados para que façam "os viajantes que regressam desta região respeitar regras rigorosas de quarentena" e que todos mantenham em vigor as medidas de proteção individual.