A SpaceX leva hoje pela primeira vez pessoas ao espaço. Com os olhos postos na Lua... e em Marte

A exploração espacial entrou numa nova era, mais diversificada, com mais atores, em que a colaboração entre agências espaciais e empresas privadas irá acelerar a conquista de novas fronteiras.

O relógio marcará 16.32, hora da Florida, quando a contagem decrescente enviar os primeiros astronautas a partir de solo norte-americano para a órbita da Terra em quase uma década. Bob Behnken e Doug Hurley irão dentro da cápsula Crew Dragon, lançada pelo foguetão Falcon 9, em direção à Estação Espacial Internacional ( EEI). O voo de teste Demo-2 da nave, a 27 de maio, é o culminar da colaboração entre a agência espacial norte-americana, NASA, e a companhia privada de Elon Musk, SpaceX. Um trabalho que começou há nove anos, por volta da altura em que o programa de vaivéns espaciais da NASA foi descontinuado.

Este teste será decisivo para que a NASA certifique a nave da SpaceX para a operação de voos tripulados de e para a Estação Espacial Internacional. É "uma estreia histórica num foguetão e numa nave comerciais americanos", disse ao DN a responsável de comunicação da NASA, Cheryl Warner. Se tudo correr bem, a nave seguirá para uma missão operacional de seis meses no final do ano. O lançamento faz parte do Programa Comercial Tripulado da NASA, uma iniciativa que, descreveu a SpaceX, "é um ponto de viragem para o futuro da América na exploração do espaço que estabelece as bases para futuras missões à Lua, a Marte e mais além".

"O facto de as empresas privadas não terem o mesmo escrutínio que a NASA permite-lhes explorar mais livremente", disse ao DN a ex-astronauta Cady Coleman.

A cooperação entre a NASA e empresas privadas sempre aconteceu, mas a forma como está a ser feita agora abre oportunidades sem precedentes. "Estas empresas são inspiradoras para a NASA e para as pessoas que trabalham nela", disse ao DN a ex-astronauta Cady Coleman, uma veterana da agência que agora é exploradora global residente da Escola de Exploração do Espaço e da Terra, da Universidade Estadual do Arizona. "Estas empresas podem tomar riscos maiores com o hardware, testar se uma nave mais leve vibra menos, por exemplo." Se for uma agência governamental a fazê-lo e algo acontecer, haverá uma investigação e um relatório, o que abranda o ritmo de inovação. Para um Elon Musk na SpaceX ou um Jeff Bezos na Blue Origin, as consequências são diferentes. "O facto de as empresas privadas não terem o mesmo escrutínio que a NASA permite-lhes explorar mais livremente", disse Coleman. "E, ainda assim, estamos a trabalhar todos juntos."

Um novo passo para a humanidade

Este pode ser o início de uma nova era de exploração no espaço, bem diferente daquela que gerou a própria NASA no final dos anos 1950. A agência fora criada durante a Guerra Fria como resposta dos EUA ao lançamento bem-sucedido do satélite Sputnik, enviado pelos soviéticos para a órbita da Terra em 1957. Agora, num mundo diferente, antecipam-se as próximas grandes missões, que o presidente Donald Trump concretizou na diretiva de 2017 como o regresso à Lua e a exploração de Marte.

"O lançamento no dia 27 é o início de uma nova onda, um passo importante", considerou Cady Coleman. "Estamos numa nova era de exploração no sentido em que temos agora muitos tipos de entidades espaciais, pessoas, empresas, milionários, governos." Há algumas décadas era tudo mais limitado, o que ajuda a explicar porque é que o regresso à Lua demorou tanto.

"Uma pequena empresa portuguesa pode ter uma ideia para o espaço e ir à mesma conferência em que estão pessoas da NASA", indicou Coleman.

O sistema de foguetão que levava os norte-americanos à Lua nos anos 60 e 70 do século passado, Saturn V, foi abandonado e era necessário iniciar um novo programa. A tarefa mostrou-se complexa porque "voltar à Lua e ir a Marte não são trabalhos para quatro anos" e a política americana não está desenhada para o pensamento de longo prazo.

Já uma empresa privada ou um país pequeno é diferente. "Vi coisas muito interessantes a saírem de Portugal, que está cada vez mais envolvido no programa espacial", disse a ex-astronauta. "Uma pequena empresa portuguesa pode ter uma ideia para o espaço e ir à mesma conferência em que estão pessoas da NASA."

As boas ideias vêm "de lugares distintos" e daí a importância das empresas privadas que surgiram nos últimos vinte anos, considerou Coleman. "Ajuda porque há muito trabalho para fazer e precisamos de muitas ideias novas."

O primeiro grande projeto é regressar à Lua, com o programa Artemis, depois preparar a conquista de Marte, para onde partirá o rover Perseverance já neste verão. E tudo começa na EEI, onde Cady Coleman passou seis meses em 2011.

"A Estação Espacial é um laboratório em órbita internacional que testa diferentes formas de reciclar ar, água, aprender a cultivar plantas, compreender como manter as pessoas saudáveis", explicou. "A EEI é uma de muitas formas com que estamos a preparar as pessoas para deixarem a Terra e irem viver para Marte. Há muito trabalho a fazer antes de estarmos prontos para isso e a Lua é um dos sítios onde podemos praticar."

Segundo explicou, há muitas coisas que se pode testar na Lua que não se consegue experimentar noutros sítios, com a vantagem de a viagem levar apenas três dias. Por comparação, ir a Marte demora nove meses e a janela de oportunidade ocorre a cada 26 meses. "Isso significa que podemos ir [à Lua] experimentar caminhadas espaciais numa superfície muito poeirenta e depois voltar, por exemplo, com outro tipo de fato espacial."

O regresso ao satélite natural da Terra é um programa gigante com grande cooperação internacional. A Agência Espacial Europeia (ESA) vai fornecer o módulo de serviço para a nave Orion, que irá à Lua, e a NASA está em conversações com as agências espaciais de Canadá, Japão e Rússia, além da ESA, para cooperar na plataforma orbital lunar Gateway, que será uma base permanente na Lua.

O programa Artemis tem também a participação de várias empresas privadas, com a Blue Origin, a SpaceX e a Dynetics a desenhar os módulos de aterragem na Lua.

Com o programa Artemis, vamos enviar os nossos astronautas mais qualificados para explorar a superfície lunar", afirmou Cheryl Warner.

Esta vai acontecer em 2024 e desta vez levará um homem e uma mulher a caminhar na superfície lunar, refletindo a transformação da sociedade e da própria indústria. "Hoje, há mais diversidade nas nossas fileiras de astronautas do que havia quando fomos à Lua da última vez", afirmou Cheryl Warner. "Com o programa Artemis, vamos enviar os nossos astronautas mais qualificados para explorar a superfície lunar", continuou. "Estamos ansiosos por fazer história mais uma vez quando enviarmos a primeira mulher e o próximo homem à Lua dentro de quatro anos."

Cady Coleman, que entrou na NASA em 1992, pintou a questão de forma mais colorida. "Há qualquer coisa nas viagens espaciais que é tão especial e fascina tanto as pessoas, que se deve garantir, quando formamos as equipas de astronautas, que elas sejam compostas por pessoas diferentes e refletir que as mulheres são metade do planeta", referiu. Não será sequer preciso fazer um esforço para o conseguir. "O que acontece é que de cada vez que agora escolhemos astronautas, cerca de metade dos candidatos são mulheres", disse. "Costumo dizer que se quisessem completar muitas tarefas enviariam duas mulheres, mas se calhar faz sentido levar um homem, mesmo que não se consiga fazer tanta coisa", gracejou.

Entre a ciência e a ficção

O fascínio de que Coleman fala é palpável na sociedade americana. Reflete-se no contorno mitológico que a NASA tem e na enorme dedicação da cultura popular às narrativas no espaço, desde os livros e as bandas desenhadas aos filmes e às séries. Para o engenheiro português Nuno Filipe, que passou os últimos anos a trabalhar no Jet Propulsion Laboratory em Pasadena, Califórnia, uma das inspirações foi Star Trek. Sempre teve o sonho de ir trabalhar para a NASA e calculou a sua carreira em torno desse objetivo, que concretizou em 2015. "Tudo foi virado para um dia poder trabalhar nestas missões fantásticas que a NASA faz", disse ao DN. "Há muitos caminhos para chegar à NASA. O mais importante é uma pessoa aplicar-se, aprender o máximo possível e ter uma mentalidade de inovação, querer fazer algo que nunca antes ninguém fez."

O fascínio pelos filmes e pelas séries espaciais "é geral entre os colegas de trabalho" e um dos motivos que os levaram ali. "Estas séries aspiracionais tentam mostrar onde podemos chegar um dia como humanidade", disse. "São coisas de que sou grande fã e que todos os dias, com o meu trabalho, espero estar a levar para mais perto." O mais recente trabalho do engenheiro foi na missão Europa Clipper, que será lançada em 2023.

"É fantástico colaborar todos os dias com pessoas que construíram as grandes missões do passado", afirmou, "como a Galileu, que foi a Júpiter, a Cassini, que foi a Saturno, os robôs que neste momento estão a caminhar pela superfície de Marte".

Sobre o Planeta Vermelho, o filme protagonizado por Matt Damon Perdido em Marte gerou uma explosão de candidaturas a astronautas. A ficção entrelaça-se com a realidade, o que é benéfico, disse Cady Coleman. "Eu fui ao espaço e não pude levar ninguém, então os filmes deixam-me trazer pessoas comigo", comentou a astronauta, que até ajudou Sandra Bullock a prepara-se para o filme Gravidade.

Segundo Gene Blalock, fundador dos estúdios Seraph Films, a explicação para a popularidade das histórias sobre o espaço está nas características humanas. "Como sociedade, o nosso fascínio pelas estrelas vem de uma curiosidade primitiva. Os nossos antepassados olharam para os céus e questionaram-se", disse o realizador, que tinha uma foto dos astronautas da Apollo 11 por cima da cama quando era pequeno. "Há pinturas rupestres que contam histórias elaboradas sobre as estrelas. Literatura antiga que documenta o interesse geracional no espaço", afirmou. "Quando começámos a fazer filmes, foi natural que continuássemos esse fascínio."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG